Sons da Escrita 294

3 de Setembro de 2010

Primeiro programa do ciclo Maria Sarmento

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Maria Sarmento

Rosadomundo

Sou quem segue a ilusão de ser. Os passos que dou aumentam a distância. Devolvo ao tempo a sombra de uma Rosa. Rosa do mundo, em cruz, em barca. Sou esse nenhum lugar que aqui me trouxe. Canto para não cair do abismo e choro para me lembrar humano. Líquido. Sou o que Sou. Encontrei-me quando acordei. Era Outro o que vi. A minha ficção é existir, no real que me cria.


Palavras-ovo

Há palavras como missais de neve ou erva
Que vão direitas ao coração da energia
Que entram no pulso da vida, plenas,
redondas como frutos:
Nuas, brilhantes como fogos.
São as palavras da vastidão
São os pólos que acendem a verdade
E essa verdade é a absoluta presença
Do Ausente eterno.
A essas palavras chamo Sagradas,
Nascidas dos lábios do Significador
Pois não pertencem senão à Fonte originária.


Words (Christians)

If I could find words
To tell you i'm sorry
Make you understand
I mean just what i say

After all that I've heard
Why should I worry
When we ride the fine line
Between love and hate

If i had been wise
well how could i doubt you
now i'm all alone
my life in disarray

but try as I might
I can't live without you
so I cling to the hope
of a bright brighter day

oh I know we've been through this all before
how can I prove my love for you is real
no I can't do anymore
if I could only find words

and still he has dreams
and still I must learn to cope
absurd as it seems
I still have hope

if I had good sense
and heed all the warnings
I would let it be
and leave all well alone

but there's no recompense
for waking up mornings
feeling sure it's myself
who's the foolish one

yes I know we've been through this all before
how can I prove my love for you is real
no I can't do anymore


Maria Sarmento

Porto de Trapani

Um dia, quando o mar secar
Hei-de morrer também no ar azul
Como essa nuvem que flutua:
Embarcação da hora fugidia.
Bate nessa certeza
O Coração azul do mar:
O fruto mais saboroso
Que a terra dá a comer
Aos que não são da terra
Nem do céu;
Aos que assistem ao milagre
Da beleza impotente
Que devora alma e corpo
Demoradamente.

Aos deuses cansados
Acenderam-lhes os homens
Estrelas na cabeleira
Para que corresse
Na eternidade
Das suas feridas:
Um céu de sangue
Os barcos no rio fundo.


Harbour of tears (Camel)

I am one of seven brothers.
Five of us must leave and start again.
In this land of Saints and Martyrs,
Tears of sadness hide within the rain.

So fare thee well, Remember me...
Sail from the Harbour of Tearss

I can hear my father calling
'Godspeed, my son,
wherever you may go'
He looked so small
down on the quayside.
A man I guess
I'll never really know.

Goodbye, lad... I'll miss you,
though I don't show it.
I am a farmer of the land,
I'm not a man of words.
Forgive me my failing,
you never knew me.
Godspeed wherever you may go...

So fare thee well,
Remember me...
Sail from the Harbour of Tears


Maria Sarmento

Avalon

A memória é uma ilha perdida no aroma branco das camélias
Uma estrela da manhã acordada no manto escurecido do céu
Uma flor de lótus a beijar a água! ....
O correr manso da brisa da hora;
O navegar na barca atravessada de carvalhos e de noite.

Uma lua finíssima separa em dois o coração do tempo.
Uma lua excalibur corta o ventre liso da água.
Corre no bosque o som de um nome antigo: um espelho negro!
O rosto branco de Nineve bebe, à flor terna da neve a branca dor
Da rosa no punho dessa espada, no alvo coração das águas
No cristal da barca em Avalon chegada. A torre aberta aos céus!

Eis a lâmina de sal na ferida eterna!
Eis a que mostra o rosto eterno à branca face
De um Amor tão casto que o colo das águas se abre e rasga
Sobre a nuvem de fumo e o anel brilhante de Saturno
É ele o nome do príncipe! É ela a fada do olhar!
O som infinito do bosque e o gemido fundo do mar!

Pálida sombra que a si mesma se reflecte em estrela
Anel de lua cujo punho sangra
Um choro que não cessa de florir
Na estranha e bela espada dum afiado gume
Exangue sementeira de céu, de dor e de luar!


Mists of Avalon (Maire Rhyam)

(letra não disponível)


Difícil é cair quando o céu pesa mais do que o voar
E as asas não podem regressar à vastidão do chão:
Terra onde o céu toca à distância de um dedo de mar o rosto amado.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Wayne Gratz, Deep Forest, Enaid

Ligações
Christians, Camel, Maire Rhyan

Textos:
Maria Sarmento

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012