Sons da Escrita 295

10 de Setembro de 2010

Segundo programa do ciclo Maria Sarmento

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Maria Sarmento

Madrigal do avesso

Vejo melhor os campos
Apesar de os não ver
Na sombra dos teus olhos
Na estrada do não ser.

Vejo melhor os campos
Pela sombra dos teus
São asas as estradas?
São casas, as moradas
Encostadas ao ser?

Livre do teu olhar
Que se fixou no meu
Sobra-me o céu e o ar
Tudo o que vejo sou eu.
Tudo o que sou é meu,
Nada me tenho.
Nada do ser sou eu.

Apanho-me na estrada
Surpresa de me ver
Ali onde o Sol é Nada
E o Nada me quer.


Nothing is good enough (Aimee Mann)

Once upon a time is how it always goes
But I'll make it brief
What was started out with such excitement
Now I'd gladly end with relief
In what now has become a familiar motif: 

That nothing is good enough
For people like you
Who have to have someone take the fall
And something to sabotage--
Determined to lose it all 

Critics at their worst could never criticize
The way that you do
No, there's no one else, I find,
To undermine or dash a hope
Quite like you
And you do it so casually, too 

Cause nothing is good enough
For people like you
Who have to have someone take the fall
And something to sabotage--
Determined to lose it all 

Ladies and gentlemen--
Here's exhibit a
Didn't I try again?
And did the effort pay?
Wouldn't a smarter man
Simply walk away? 

It doesn't really help that you can never say
What you're looking for
But you'll know it when you hear it,
Know it when you see it walk through the door
So you say--
So you've said many times before 

But nothing is good enough
For people like you
Who have to have someone take the fall
And something to sabotage--
Determined to lose it all


Maria Sarmento

Luzeiro de saudades

Do luzeiro de onde te vejo
Ainda me cantas
Coração apagado!
Lume de chão
Ardido,
Queimado,
Fragmentado:
Coração caído
De “vidro pintado”
E como raio incendiado
No silêncio raiz da árvore
Na árvore do esquecimento
Onde deponho:
Frutos, lágrimas,
Sorrisos:
Oferendas da melancolia!

Na hora em que te irás
Uma música muito lenta
Dançará as nossas inúteis tristezas.
De onde te vejo, não há sol
Caíram os últimos bagos de chuva
No celeiro vazio da tarde…
Oiço alguém dizer:
Acorda-o, ao Sol que dorme!
Lança-o no rio dourado onde se movem
As horas lentas de uma canção
Nada é o que fica
Nada é o que volta
“Nada é de nada
E a vida julga ser
Tudo é apenas o eco da promessa
Que deus nos fez pensar que iria ser…”
Há anos que espera a lua para te ver
Como te vejo.
Onde te guardo:
Toda a palavra é flor
Todo o canteiro
É rosa
E o coração?!
O coração é tambor.
Tambor
Tombado na jarra.


Heartbeats (José González)

One night to be confused
One night to speed up truth
We had a promise made
Four hands and then away

Both under influence
We had divine scent
To know what to say
Mind is a razor blade

To call for hands of above
To lean on
Wouldn't be good enough
For me, no

One night of magic rush
The start, a simple touch
One night to push and scream
And then relief

Ten days of perfect tunes
The colors, red and blue
We had a promise made
We were in love

To call for hands of above
To lean on
Wouldn't be good enough
For me, no

To call for hands of above
To lean on
Wouldn't be good enough

And you
You knew the hand of the Devil
And you
Kept us awake with wolf's teeth
Sharing different heartbeats in one night

To call for hands of above
To lean on
Wouldn't be good enough
For me, no

To call for hands of above
To lean on
Wouldn't be good enough


Maria Sarmento

Poema de amor

Quando eu morrer, quero estar lá
Quero chorar debaixo da árvore do esquecimento
O meu ventre liso, as minhas águas entornadas
O meu amor a remar, a remar um barco sem remos;
Um céu cansado de ser mar, de ser ar
Respiro ainda, dentro da minha morte
Sou a que ultrapassou esse muro
A que aguarda pela sua morte
Em silêncio de Poeta.

Bordo, antes do fim do dia,
Uma coroa com que me coroe
Rainha na tua memória
Para que a morte me nasça antes de morrer
Para que eterna me esqueça de mim
Para que no esquecimento eu esteja inteira
Com uma flor de gratidão no olhar
Um cheiro de sandália que caminha
Para o deserto da tua Voz
Para o labirinto do exílio de mim!

De dentro de mim me tiro
Me colho antes de abrir, antes que morra
Nos teus olhos em sombra tão calada
Que nem o vento ouça!
Quando eu morrer
Quero cá estar,
A nascer no teu olhar!


I only have eyes for you (Art Garfunkel)

My love must be a kind of blind love.
I can't see anyone but you.

Are the stars out tonight?
I don't know if it's cloudy or bright.
I only have eyes for you, dear.

The moon may be high,
But I can't see a thing in the sky.
'Cause I only have eyes for you.

I don't know if we're in a garden
Or on a crowded avenue.

You are here, so am I.
Maybe millions of people go by.
But they all disappear from view.
And I only have eyes for you.


O amor é uma palavra sem boca
Uma flor esmagada no lábio;
Silêncio comungado
A ausência que provo.
Morte que à luz mostra
O corpo nu da Vida
Novo nascimento na semente dos céus.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Nightnoise, Tangerine Dream, Joanie Madden

Ligações
Aimee Mann, José González, Art Garfunkel

Textos:
Maria Sarmento

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012