Sons da Escrita 296

17 de Setembro de 2010

Terceiro programa do ciclo Maria Sarmento

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Maria Sarmento

Jardim — Neve em flor perfumada

Nasce o jardim com as quatro rosas pintadas de vermelho a fazer sombra no muro branco. Caiado. O sol lambe o branco. A luz espreguiça-se no pátio e a flor do limoeiro mistura-se com o cheiro adocicado do jasmim. Há rosas nascidas nos raios que dão nelas. A púrpura cor das pétalas abertas em rosa no cimo de um esguio caule murmura na voz clara de Pablo: “Tu eras também uma pequena folha/que tremia no meu peito”. E este poema colhido da alma do peito florido desperta a insensata raiz do que foi entrando e abraçando a torre. Entraram pelas pedras os troncos maiores das roseiras e foram desabrochar no peito de Saudades. Uma luz floriu na boca e a voz desperta das rosas traçou um arco de botões a partir do rude tronco do limoeiro que, dorido ainda da agressiva voz do vento da invernia e da devastada solidão de tudo, sobreviveu à morte dos seus ramos negros, e brotou, por milagre, em brancas flores que dão à tarde aquele riso de neve, entre o azul do céu e a terra coberta de flor branca e perfumada.


Whose garden was this? (Tom Paxton)

Whose garden was this?
It must have been lovely.
Did it have flowers?
I've seen pictures of flowers,
And I'd love to have smelled one.

Whose river was this?
You say it ran freely?
Blue was its color?
I've seen blue in some pictures,
And I'd love to have been there.

Ah, tell me again I need to know:
The forest had trees, the meadows were green,
The oceans were blue and birds really flew,
Can you swear that was true?

Whose grey sky was this?
Or was it a blue one?
Nights there were breezes?
I've heard records of breezes,
And you tell me you've felt one?

Whose forest was this?
And why is it empty?
You say there were bird songs?
And squirrels in the branches,
And why is it silent?

Whose garden was this?
It must have been lovely.
Did it have flowers?
I've seen pictures of flowers,
And I'd love to have smelled one.


Maria Sarmento

Diálogos do jardim — Isabelíssimas saudades

(E... aos que são daqui... deste lado sossegado de mim...)

Há constelações que são rios para o olhar. Há rios que são pingos de água fresca nos olhos cegos do mar. Caminhar sobre o voo, como quem sobrevoasse cascatas e uma magnífica paisagem fosse azul para as minhas lágrimas e canto para a silente e sedenta fogueira onde tudo arde: as rosas e os desertos; o canto e o tempo fugidio. Como se nada dissesse, o fogo eleva-se descendo: é o mar em oração, deitado sobre a areia, na horizontalidade do sorriso das rosas. Há um raro sorrir terno que me olha para lá da memória. Enfeito-lhe as asas com flores miudinhas do limoeiro que sobe. Há caminhos que são bosques. Há clareiras que sussurram, e há pássaros que são brisas da manhã. Caminham para dentro do escuro iluminado as asas demoradas das borboletas: azuis, brancas, amarelas. Elas cantam com as asa xamânicos cantos, e o meu desejo é uma arca de poemas a deitar por fora. Uma barca de sílabas sem destino e cantante. Há manhãs que gritam de claridade: mudas, como se nada houvesse para dizer. Completas no seu abrir fechado dentro do portão das horas. Acenam.

No cimo da colina há uma casa e há a primavera toda à volta dessa brancura. A natureza é um espelho, sem fundura, uma projecção. Há estradas desenhadas em formas de várias faces; nenhuma se reconhece como nossa. Há um espelho em tudo isto que labirinta o olhar, e o mistério de tudo abre-se como uma estrela que escurecesse dentro da própria luz. Há cidades no deserto da minha alma que me negam tantas e tantas vezes o olhar. E há faces que aparecem nos ângulos de um espelho, projecção caleidoscópica de tempos-lugares onde me não reconheço, onde deixei ou trouxe um leve tremer da mão; um suspenso sorriso que vinha de um lugar que não era aquele nem nenhum. Parecem fotogramas a passar na realidade de um filme onde se realiza uma espécie de fusão que nos faz colocar a mão no coração das pedras e sentir-lhe a quentura. Não há caminho para a dor, escorre em líquidos, os dias que se abrem como céus. Felicidade é encontrar sem procurar: a cor, o som, a imagem, a legenda o sinal e a senha para o imenso que não tem fim nem princípio. Uma sensação que é, ao mesmo tempo, uma lembrança de tudo ter sido completo para além de tudo o que existe.

A realidade é um papel liso e branco, um papel vegetal de opacidades novas, tonalidades improváveis reflectindo cor por dentro e por fora do mundo. Vejo a face luminosa de um écran e o céu a girar sobre tudo isto a encurvar o espaço e o tempo, a expandir como se nunca se rompessem as membranas finas de um nascimento cósmico e sempre instante. E digo que não sou daqui! Vivemos. Às vezes perdemo-nos nessa selva estranha, longe dos jardins. Há, na cidade, creio, aquela incompreensão estranha entre o ruído e a alma a querer “viajar”; a querer voar jardins como se não houvesse no mundo um deus mais real do que a ideia a aparecer a revelar-se do Nada. Criar é escutar. É ler e dar a ler. Para a poesia toda a solidão é multidão. É ainda mais dentro, e mais alto e mais fundo! A lua verte as suas lágrimas brancas no leitoso rio da alma e uma flor, como lírios brancos e flores de lótus, gravadas na ruidosa febre e fogo da modernidade que me faz perguntar se a luneta do engenheiro via, na máquina frenética do mundo, o animal que pendia as suas tetas no cimo das pontes, no desenho dos arcos. Roma e aroma de bestialidade e engenharia do ferro e da ferida da ausência dos jardins. E haver espaço para impérios assentes sobre as asas de uma Grécia branca e azul, espiritual nos finos drapeados, no corpo das deusas que se movem, como se tivessem nos pés o movimento da asas dos dedos. O corpo nu das deusas evaporou-se nas salinas… Andam movediças as horas…

Há noites que são tão densas que a lua não penetra na opacidade dos dias passados, mesmo os mais límpidos, os mais plúmbeos. Há uma névoa que cobre o jardim, como se fosse outono de novo, sem ter havido primavera; alguma coisa lisa e metálica se insinua como a irremediabilidade de tudo ser um som de uma espada que não corta nem afaga: penas e Saudades... de nascer do azul do céu e do mar...


Inner garden (King Crimson)

Autumn has come to rest
in her garden
come to paint the trees with emptiness
and no pardon
so many things have come undone
like the leaves on the ground
and suddenly she begins to cry
but she doesn't know why
heavy are the words that fall through the air
to burden her shoulders
caught up in the trees
her soliloguy,
"don't leave me alone"

Rome now comes to sit
in her garden
mingling the breeze with memories
of a time when
there was a room in pale yellow hues
her room with a view
where love made a bed of happiness
in muslin and lace
sweet is the voice from far away
that speaks sotto voce and
is lingering there in the golden air
to quiet the day


Maria Sarmento

Via e viagem

Oiço-as. Em toda a parte as oiço, às vastas areias do longe do deserto do mar; às vozes das gaivotas gritando na praia que se ergue em canto para a morte de Saudades. Deitemo-la sobre a mesa e como quem semeia ramos de flores, pétalas de rosas brancas e vermelhas, sobre o corpo adormecido nas águas de um jardim flutuante e nascido da flor nova da Primavera entrada nos muros; na flor branca e miúda, rosa claro dos botões do jasmim. Estendamos o corpo de Saudades a todo o comprimento da hora. Ai, as pedras do jardim dentro da voz dos que cantam uma cantiga de embarcar em águas de uma Veneza da alma! De uma baía da serena visitação das rosas e dos perfumes. O vidro aberto deixa entrar a perdida dança das borboletas!
Entra na manhã o cheiro de uma altura de vozes que encimam a montanha de cânticos e de asas de todos os sustentados voos no cimo das vagas que falam de um som antes do nascimento do que é nada: a flor do rio, a flor da alma! A minha pele é uma finíssima camada de finas penas entradas na pele das lembranças. Estendo o braço ao confortável e flexível movimento de asa. Uma águia voa(me) sobre as paisagens deitadas e as verticais montanhas de uma extrema “poisagem” de ser, no imo do cimo, onde só há lugar para o homem só. Torga disse-o, segurando a rocha, talhando o seu rosto nela, rente à urze e à flor humana da trança e da videira de uma telúrica e natural concavidade, cantando a Terra: essa barca, ou arca, onde o mundo navega. De onde vem e para onde vai a barca do fim do fim?! Quem quererá colher o destino do vento e das rosas? Quem escuta o silêncio e o caminho do florir das rosas?
Há no jardim o verde de uma lareira de folhas ao sol. Já varremos todas as folhas secas. O inverno ainda chove nos olhos, mas a novíssima e tenra flor, na mais alta e inesperada ranhura na pedra é a prova natural da comunhão do homem com a terra, com o corpo. Para o novo encontro. Ainda que terrena a forma, terreno o gesto do olhar sobe e sai pela janela da casa-das-gaivotas. Como se lá tivesse alguma vez voltado. Que precipício por onde mandamos o nosso corpo e alma. Que quedas de alma tão terríveis e abismais! Que beleza feroz a do corpo sem peso a cair sobre o cume de um outro cimo, de um outro buraco, de um outro céu! A união com a Saudade é sagrada como a perfeição de um regresso ao novo a que a alma ascendeu. A divina Saudade surgida no jardim. Não floriram rosas bravas, meu querido poeta! O que floriu foi a sombra do que em sombra foi criado. Abismo sem fundo de onde nos perdemos, como se só o espaço existisse e nenhum lugar houvesse: apenas a imensidão de um corpo que perdeu a gravidade. Não a de um Ícaro que a subir se esquecesse da fragilidade das asas, não o excesso. Não o voo inconsequente. E a série do heróis com a face triste que desenhaste em telas onde não cabia a tua força de levantar ao colo a montanha e de beber o mar. E desenhada essa figura no mar, os heróis passavam como se acabados de morrer nesta galeria de memórias, nesta revisitação do Dia claro.
Saúdo as formas que seguem no jardim a esta viagem de luz. Reconheço-as e amo-as. Despeço-me de mim, sem pena alguma. Saúdo na partida os céus que me abraçam à chegada. Deus é eterno e habita no coração de quem amamos. Sem tempo, sem distância, em pleno voo. Oiço-as as flores do jardim e a dança do Sol no bosque claro.


Journey of the angels (Enya)

Somewhere
In a winter night
The angels
Begin their flight;
Dark skies
With miles to go,
No footsteps
To be lost in snow.

They fly to you
Oh, new-born king
They fly to you
Oh, angels sing

One is sorrow
One is peace
One will come
To give you sleep
One is comfort
One is grief
One will take
The tears you weep

New star
In a midnight sky
In heaven
All the angels fly
Soft wings so true
And all things
They will give to you

Somewhere
In a winter night
The angels
Begin their flight

Tonight
All sing
Oh, angels,
A new-born king
Tonight
All sing
Oh, angels
A new-born king


O tímbalo da tarde ouviu-se longe
Os veados olham-se nos prados:
Eis chegado o tempo das cerejas
abrirem na boca
a cor e o sabor de doces lábios!


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Andreas Vollenweider

Ligações
Tom Paxton, King Crimson, Enya

Textos:
Maria Sarmento

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012