Sons da Escrita 072

22 de Julho de 2006

Terceiro programa do ciclo Mário Cesariny

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Mário Cesariny

Poema

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas do próprio seio dela
intensamente amantes

loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina

realmente

os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca


Put your lights on (Carlos Santana) 

Hey now, all you sinners
Put your lights on, put your lights on
Hey now, all you lovers
Put your lights on, put your lights on

Hey now, all you killers
Put your lights on, put your lights on
Hey now, all you children
Leave your lights on, you better leave your lights on

Cause there’s a monster living under my bed
Whispering in my ear
There's an angel, with a hand on my head
She say I’ve got nothing to fear

There’s a darkness deep in my soul
I still got a purpose to serve
So let your light shine, into my hole
God, don’t let me lose my nerve
Lose my nerve

Hey now, hey now, hey now, hey now
Wo oh hey now, hey now, hey now, hey now

Hey now, all you sinners
Put your lights on, put your lights on
Hey now, all you children
Leave your lights on, you better leave your lights on

Because there’s a monster living under my bed
Whispering in my ear
There's an angel, with a hand on my head
She say I’ve got nothing to fear
She say La ill aha ill allah
We all shine like stars
La ill aha ill allah
We all shine like stars
Then we fade away


Mário Cesariny

Voz numa pedra

Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento

Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do menstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe essa cidade futura
onde «a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela»
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhas como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
a machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao sol coisa nenhuma
nada está escrito afinal


Stepping stone (Clannad)

Moving drift wood stopped and stared
It proved too much for me
I'm looking at an empty shell

The young girl waiting
She's waiting there
With a suit case in her hand
She won't look back on the land

But with a change of heart
For you it might come true
It's like a stepping stone
You know it's up to you
Just like a stepping stone
You know it might come true.

She wants her freedom
To see with her own eyes
All the cities of the world
And the faces strange to hers
Strange in her eyes.

But with a change of heart
For you it might come true
It's like a stepping stone
You know it's up to you.
With a change of heart
You have to see it through
It's like a steppng stone
You know it's up to you
Just like a stepping stone
You know it might come true.


Mário Cesariny

Uma certa quantidade

Uma certa quantidade de gente à procura
de gente à procura duma certa quantidade
Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião
Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá
E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar
Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse um adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro 


Cloud 9 (George Harrrison)

Have my love
It fits you like a glove
Join my dream, tell me yes
Bail out should there be a mess
The pieces you don't need are mine

Take my time
I'll show you cloud nine
Take my smile and my heart
They were yours from the start
The pieces to omit are mine

Have my love
Use it while it does you good
Share my highs but the times
That it hurts pay no mind
The pieces you don't need are mine

I'll see you there on cloud nine

Take my hope
Maybe even share a joke
If there's good to be shown
You may make it all your own
And if you want to quit that's fine
While you're out looking for cloud nine


Queria de ti um país de bondade e de  bruma
queria de ti o mar de uma rosa de espuma


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Tangerine Dream

Ligações
Carlos Santana, Clannad, George Harrison

Textos:
Mário Cesariny de Vasconcelos

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012