Sons da Escrita 313

29 de Dezembro de 2010

Primeiro programa do ciclo Mário Domingos

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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MarioDomingos

Petição inicial

Dá-me um cavalo uma alma uma nave
Algo que voe ou galope ou navegue
E seja azul ou de outra cor mas leve
No seu vagar qualquer coisa que lave

Dá-me uma curva um espelho uma pausa
Algo que brilhe e demore e seduza
E se transforme ao ar em luz difusa
Ou nada ou coisa que não tenha causa

Dá-me um comboio um apito um berlinde
Algo que parta ou que role ou decida
E ao passar perto da hora perdida
Nos traga a rima precisa de brinde

Dá-me um baloiço um esquadro uma vez
Algo que meça que oscile que seja
Uma surpresa o gesto que se beija
A última loucura que se fez

Dá-me um segredo uma cor uma uva
Algo que importe ou se cheire ou escorregue
(Mas não tropece nem ceda nem negue)
Por entre dedos ou gotas de chuva

Dá-me uma febre um papel uma esquina
Algo que rasgue ou se dobre ou estremeça
E que se esconda e mais tarde apareça
Sombra de vulto subindo a colina

Dá-me um arco que seja íris
Dá-me um sonho que seja doce
Dá-me um porto que tenha barcos
Dá-me um barco que nunca fosse

Dá-me um remo
Dá-me um prado
Dá-me um reino
Dá-me um verso

Dá-me um cesto
Dá-me um cento
Dá-me só
Um universo


Give me love, give me peace on Earth (George Harrison)

Give me love
Give me love
Give me peace on earth
Give me light
Give me life
Keep me free from birth
Give me hope
Help me cope, with this heavy load
Trying to, touch and reach you with,
heart and soul

O My Lord . . .

PLEASE take hold of my hand, that
I might understand you

Won't you please
Oh won't you

Give me love
Give me love
Give me peace on earth
Give me light
Give me life
Keep me free from birth
Give me hope
Help me cope, with this heavy load
Trying to, touch and reach you with,
heart and soul

O My Lord . . .

Won't you please
Oh won't you

Give me love
Give me love
Give me peace on earth
Give me light
Give me life
Keep me free from birth
Give me hope
Help me cope, with this heavy load
Trying to, touch and reach you with,
heart and soul
Give me love
Give me love
Give me peace on earth
Give me light
Give me life
Keep me, Keep me free from birth
Give me hope
Help me cope, with this heavy load
Trying to, touch and reach you with,
heart and soul

O My Lord . . .


MarioDomingos

Poeira

Antigamente forjavam-se
Ramos por dentro das coisas e
Cada ramo era barco e partia
ia
E.

Eram orientes de todas as cores
Astrolábios abraços salgados
Fermentavam as linhas as cartas
O percurso da água os segredos.

Pelas tardes cresciam heras silêncios
O fumo de um cigarro o copo na mesa
Na mão na memória dos lábios
A espuma.

Recorriam sons agarrados aos dedos
Que tocassem as coisas os ramos
As tardes
Os barcos por dentro os silêncios.

Na parede gelada sofriam
As formas o capricho do olhar
Espirais ocultas nas sombras
Marcas de nomes o
Hoje.


Dust in the wind (Sarah Brightman)

I close my eyes, only for a moment and the moment's gone.
All my dreams pass before my eyes in curiosity.
Dust in the wind.
All they are is dust in the wind.
Same old song.
Just a drop of water in an endless sea.
All we do crumbles to the ground, though we refuse to see.
Dust in the wind.
All we are is dust in the wind. 

Don't hang on, nothing lasts forever but the earth and sky.
It slips away and all your money won't another minute buy.
Dust in the wind.
All we are is dust in the wind.
Dust in the wind.
Everything is dust in the wind.


MarioDomingos

Manhã

Esta é a manhã. A manhã oval,
estratificada,
a manhã em que as águas são claras:
a manhã.
Sei o que me percorre e contudo
ignoro-me.
Bom dia! O espaço é este, e é esta a luz:
a manhã das cidades submersas em si,
na calma assustadora dos comboios distantes,
das cidades alagadas de espanto,
das estrelas cadentes despercebidas.
A escrita consequente, oh, a escrita consequente,
o pensamento errante em mim,
o rosto reticente dos rios...
Somos as paredes das nossas próprias casas,
o tecto e o chão, o canto apesar de tudo apetecido.
Como dizê-lo?
Sentimos o dilúvio, a graça matinal dos corpos,
sobretudo a silhueta inquietante das coisas habituais.
O inesperado é, de certo modo, a nossa maneira de ser,
se somos.
E somos quando recordamos os canais
vagamente navegáveis, movimentados
em todo o caso. Vagabundos, vagabundeamos.
Seja. A ave impenetrável que nos bate à janela das costas,
o cheiro nítido a mar, o cimento das grandes construções,
os parâmetros secretíssimos em que nos movemos,
em que nos comovemos: Bom dia!  Eis a manhã.


In the morning (David Gray)

In the morning when the moon is at it's rest,
you will find me at the time I love the best
watching rainbows play on sunlight;
pools of water iced from cold nights, in the morning.
'Tis the morning of my life.

In the daytime I will meet you as before.
You will find me waiting by the ocean floor,
building castles in the shifting sands
in a world that no one understands,
In the morning.
'Tis the morning of my life,

In the morning of my life the
minutes take so long to drift away
Please be patient with your life
It's only morning and you've still to live your day

In the ev'ning I will fly you to the moon
To the top right hand corner of
the ceiling in my room
Where we'll stay until the sun shines
Another day to swing on clothes lines
May I be yawning
T'is the morning of my life
T'is the morning of my life
In the morning
In the morning
In the morning


Ora adeus, meus amigos, a poesia não é isso!
A poesia, a poesia...
A poesia é fazer versos com pena de não saber fazer versos
A poesia é fazer o 

p
i
n
o

no local mais inesperado e
logo a seguir fazer o

o
n
i
p

onde toda a gente espera que o pino seja feito.

… … …


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Mike Oldfield, Clannad, Nightnoise

Ligações
George Harrison, Sarah Brightman, David Gray

Textos:
Mário Domingos

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012