Sons da Escrita 314

30 de Dezembro de 2010

Segundo programa do ciclo Mário Domingos

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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MarioDomingos

Pai

No azul brilhante da noite africana
Explicavas-me o silêncio das estrelas,
Os relâmpagos, os rios, as marés,
Na varanda. O tempo estava quente,
As laranjas e os figos mesmo à mão.
Sentia-me feliz. Gostava de aprender.

Já eu fazia versos... E tu escrevendo a vida
Com linhas rectas rigorosas, firmes,
E aqueles estranhos esboços de engenheiro
De que eu, atento, invejava a magia.
Mostravas-me a Matemática, o grande amor,
O teu livro de curso, a capa que ainda usei.

No Alentejo havia um poço, uma olaria,
Pontos de mira intrigantes pelos campos
E uma mota marca Hardy que fazia
As estrada às curvas do regresso a Lisboa.
E subíamos, subíamos ao vento.

Tive dezanove a História e o teu abraço.

O tempo que se escapa, como olhá-lo
Sem cegar? Como dizer que tudo
Foi dito e feito por nossa vontade
E nada agora resta, e nos cumprimos?

Na solidão da caneta sobre o branco
Afago-te o cabelo, ouço ao longe o teu canto
Fecho os meus olhos de criança e digo:
– Pai, estás proibido de morrer


Dear father (Pete Ham)

Don't let tomorrow be just any day

Look inside, dear Father
The world just carries on
Tell me, must I wait so long?
Forget me, if you'd rather
But don't forget this day and the things you want to say
Don't let tomorrow be just any day

Look inside, dear Father
Are there good things there to see or do you see only me?
If you look much harder
I'm sure that you will find, there's a picture of your mind
Don't let tomorrow be just any day

Think of me, dear Father
I need, somebody needs me, and that's how it's got to be
Forget me, if you'd rather
But don't forget this day and the things you want to say
Don't let tomorrow be just any day
Don't let tomorrow be just any day.


MarioDomingos

Gerúndio

Reivindicando farpas descontínuas
palavras que assassinam de repente
delírios que sucedem sem sentirmos
montanhas que se viram para a gente

onde as coisas que sim onde os palácios
os amanhãs que nunca mais emergem
onde os lilases da atlântida esquecida
os desejados que não são mas parecem

semelhanças eléctricas guardadas
nos violentos armários de nogueira
espaços alternativos para o nada
silêncio e folhas e sombras e poeira

onde os metros de verde onde a coragem
as tintas como laços como nós
onde os espelhos sem o outro lado
partidos requebrados como a voz

Afugentando espécies magoadas
nocturnos afogados nas barcaças
corrimãos secos curvos agarrados
vestígios de janelas onde passas

onde as canções com claves de cristal
os paraísos vulgares essenciais
onde a sirene a sereia a sensação
de ser crepuscular ou estar a mais 

comboios sem família nem destino
em movimento verde-azul visível
rasgões no espaço-tempo onde termino
a busca elementar do impossível

onde o sépia nas caixas de memórias
os ossos triturados pela espera
onde os cavalos de várias cores que não
o fantástico segredo da quimera 

reinventando sonhos ao quadrado
componentes de casas interditas
gestos ocultos no mar do meu telhado
mapas de estradas-ondas infinitas


Sitting, waiting, wishing (Jack Johnson)

Well I was sitting, waiting, wishing
You believed in superstitions
Then maybe you'd see the signs

The Lord knows that this world is cruel
I ain't the Lord, no I'm just a fool
Learning lovin' somebody don't make them love you

Must I always be waiting, waiting on you
Must I always be playing, playing your fool

I sang your songs, I danced your dance
I gave your friends all a chance
But putting up with them
Wasn't worth never having you

Maybe you've been through this before
But it's my first time so please ignore
The next few lines cause they're directed at you

I can't always be waiting, waiting on you
I can't always be playing, playing your fool

I keep playing your part
But it's not my scene
Want this plot to twist
I've had enough mystery
Keep building it up
Then shooting me down
But I'm already down

Just wait a minute
Just sitting, waiting
Just wait a minute
Just sitting, waiting

Well, if I was in your position
I'd put down all my ammunition
I'd wonder why'd it taken me so long

But Lord knows that I'm not you
And if I was, I wouldn't be so cruel
Cause waitin' on love aint so easy to do

Must I always be waiting, waiting on you
Must I always be playing, playing your fool

No, I can't I always be waiting, waiting on you
I can't always be playing, playing your fool


MarioDomingos

Segundo plano

I

Devia haver uma linha
Um traçado
Lógico honesto prático
Rápido
Uma margem de coisas distintas
Distantes
Uma regra segura um sorriso
Uma nuvem
Uma tarde inesperada um concerto
Um conceito
O lugar de uma escrita bastante
Um anel
Que se ouvisse uma fonte um rumor
Uma voz

Haver o plano de todos
Os planos
Das coisas rigorosas porém
Sem limites
O espectro da cor a palavra
Que nasce
A cidade que fosse e viesse
E vivesse
O mar que adivinha o salgado
O azeite
A ternura ondulante o silêncio
Absoluto

Como coisa guardada
Na mais antiga ponte
História extraordinária
Do futuro
Como pedra rasgada 
Pela bruma
Jardim real
Partidas e chegadas
Braços em ângulo recto
Farolins

II 

Como uma linha errática que houvesse
Numa hipótese de que se partisse
Até chegar àquilo que acontece
E decidir o que se decidisse
Num plano inclinado onde rolasse
A esfera que a memória produzisse
Na parcela do corpo que ficasse
E ficando cada vez mais me fugisse
Como brilho de prata que não fosse
O pó de solidão que o vento trouxe

Espírito do que arde sou. Portanto
O que navega ao contrário de mim
O que produz por puro desencanto
Cartas de marear um mar sem fim
Corpo inclinado onde rola a memória
Sobre a esfera da sombra transformada
Em permanente desafio à História
Até que tudo se desfaça em nada
E a solidão do plano resultante
Me projecte um compasso mais adiante


Plan B (Kevin Ray & Dexy’s Midnight Runners)

You've always been searching for something
But everything seems so so-so
Tightly close your eyes
Hold out your hand
We'll make a stand
Forget their plans
and their demands
PLAN B
They're testing you - but don't worry
PLAN B
This week I'm strong enough for two
I'm coming
I'm running
I'm burning
I wouldn't sell you anything
It starts off just joking
and then they stop talking to you
and that's the worst thing of all
The worst thing of all
Whispers more than loud enough
Try to make you feel not good enough
Try this
Don't believe your eyes
Hold out your hand
We'll make a stand
Forget their plans
and their demands
PLAN B
Bill Withers was good to me
PLAN B
Pretend I'm Bill and lean on me
I'm coming
I'm running
I'm burning
I wouldn't sell you anything
PLAN B
Hold on to me
PLAN B
No don't be nervous. Just trust in me
I'm coming
I'm running
I'm burning
I wouldn't sell you anything


A poesia é fumar vinte cigarros seguidinhos
E desesperar-se por fumar tanto, mas desesperar-se
a sério. A poesia, meus amigos, é ser do contra:

… … …
             

com travo leve bravo amargo travo
de estar aqui ironicamente estar aqui
com um sorriso vermelho e o corpo vigilante
a beber a cerveja das madrugadas futuras
a lamber o ventre de hoje em cada gota que escorre
pelos nossos lábios brancos de espuma e desespero


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Lito Vitale, Tangerine Dream, Alex Must

Ligações
Pete Ham, Jack Johnson, Kevin Ray & Dexy’s Midnight Runners

Textos:
Mário Domingos

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012