Sons da Escrita 315

31 de Dezembro de 2010

Terceiro programa do ciclo Mário Domingos

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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MarioDomingos

Amanhecer

Amanhecer aqui é uma incongruência.
Fecha, portanto, os olhos e não digas nada
Enquanto a noite for esta, silenciosa e tensa,
Com vagas luzes de automóveis ao longe, na estrada.
Tu, que te pensas homem e como os deuses falhas,
Ergueste a dimensão nocturna, gesto a gesto,
Enquanto se fechavam paredes de navalhas
Sobre o corpo que habitas e a sombra do resto.
Oblíqua e ténue sombra, móvel, plástica,
Pintada a ocidente dos mares inventados,
Onde a madrugada é uma árvore fantástica,
Mais ou menos perdida entre espelhos quebrados.


House of the rising sun (Eric Burdon & Animals)

There is a house un New Orleans,
They call the "rising sun",
Its been the ruin of many poor boys,
And god I know I'm one,

My mother was a tailor,
She sew my new blue jeans,
My father was a gambling man,
Down in New Orleans.

The only thing a gambler needs,
Is a suitcase and a trunk,
The only time he's satisfied, is when
He's on the drunk.

Oh mother tell your children,
not to do what I have done -
Spend your lives in sin and misery,
In the "House of the Rising Sun"

One foot on the platform,
And the other foot on the train,
I'm going back to New Orleans,
To wear that ball and chain.

There is a house un New Orleans,
They call the "rising sun",
Its been the ruin of many poor boys,
And god I know I'm one.


MarioDomingos

Que

Que silêncio me dás que eu já não tenha
Quebrado por palavras inquietas     
Que resistem na meia-luz da ideia 
Que se afirma cada vez mais lentamente 
Que o devagar onde a vista se perde? 


Que haja o dia de ser o eixo por 
Que se movem em nós as mãos da água 
Que definem as marcas arbitrárias 
Questionadas na penumbra dos quartos
Que regressam, simplesmente regressam. 


Que forma tem a transparência com 
Que me envolves nos hemisférios em 
Que não pergunto à voz da noite de 
Que cores se tece a dimensão de um mar 
Que por sombras e luzes anuncia     
Que forma tem?


No matter what (Badfinger)

No matter what you are
I will always be with you
Doesn't matter what you do girl, oh girl with you
No matter what you do
I will always be around
Won't you tell me what you found girl, oh girl won't you
Knock down the old brick wall, and be a part of it all
Nothing to say, nothing to see, nothing to do
If you would give me all, as I would give it to you
Nothing would be, nothing would be, nothing would be
No matter where you go
There will always be a place
Can't you see in my face girl, oh girl don't you
Knock down the old brick wall, and be a part of it all
Nothing to say, nothing to see, nothing to do
If you would give me all, as I would give it to you
Nothing would be, nothing would be, nothing would be
No matter what you are
I will always be with you
Doesn't matter what you do girl, oh girl want you
Oh girl, you girl, want you
Oh girl, you girl, want you

MarioDomingos

Ser absoluto

Fechado no meu ser absoluto sorrio
e lanço
as mãos sobre os rios de cristal.
E são em mim
todas as festas
todas as imensas catedrais
antigamente edificadas,
e sou.
Vagueio nas leves oceânicas brisas.
Remotos cérebros me contemplam, os séculos
são hóspedes da minha mansão
sagrada,
e rio-me das nocivas, bêbadas capitais
de europas rochosas, indefinidas,
e sou.
Quando em mim as pálidas rosas se afirmam e visito
os mártires de outras guerras com suas vestes
longas, brancas, seu ar manso, e sonho
as suaves músicas de outrora e o meu coração
brutalmente explode e choro, descrevo as pátrias
lentamente,
e sou.
Ergo-me na noite de repente, e grito.
Grito suavemente e oiço-me, risonho e
descalço, e sei o nome do vento, a textura
móvel das casas,
as amáveis plantas de todos os jardins.
E, como que indeciso e torturado,
docemente forte e comovido escrevo. Escrevo?
E sou.


I am free (Sri Chinmoy & Carlos Santana)

I am free because I am not of the body
I am free because I am not the body
I am free because I am the soul bird
That flies in infinity's sky
I am the soul child that dreams
On the lap of the immortal king supreme


MarioDomingos

Para ti

Para ti tenho tudo o que quiseres:
Uma harpa com cordas de cristal
Que só o vento sul pode tocar,
Um nome antigo que nunca ninguém disse
E um vinho em movimento circular.
 
Um planeta ainda por descobrir,
Que entrevejo nas noites mais vazias.
Uma aurora boreal petrificada
À tua porta, um canto de embalar
E um gesto louco a emergir do nada.
 
Tenho um comboio de madeira, uma cidade
Verde, verde, aberta e revoltada.
Uma sombra que desmaia no passeio,
As cores que ninguém vê no arco-íris
E um diamante com um coração no meio.
 
Tenho um segredo feito de marfim,
Uma batalha que ninguém perdeu,
O segmento de recta onde amanheces.
E uns olhos onde podes  encontrar
O que não disse, para que o quisesses.


I do it for your love (Paul Simon)

We were married on a rainy day
The sky was yellow
And the grass was gray
We signed the papers
And we drove away
I do it for your love

The rooms were musty
And the pipes were old
All that winter we shared a cold
Drank all the orange juice
That we could hold
I do it for your love

Found a rug
In an old junk shop
And I brought it home to you
Along the way the colors ran
The orange bled the blue

The sting of reason
The splash of tears
The northern and the southern
Hemispheres
Love emerges
And it disappears
I do it for your love
I do it for your love


No fim de tudo, o que são as palavras? Pedaços de espuma que nos secam na boca, restos de poeira atravessando a luz criada por uma janela entreaberta no fio da manhã. Imagens de braços que nos chamam e não podemos já alcançar, abraços proibidos. De olhos que de longe nos sorriem, de cada vez mais longe. Partículas de sonho desenhando um rosto que com o tempo se irá diluindo na memória. "Avec le temps, tout s'évanouit", canta-nos Ferré. Recordações, como as de Alhambra, ou quaisquer outras que nos enterneçam e arrepiem. Lágrimas. No fim de nós, os que vamos ficando, o que são as palavras?


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Andreas Vollenweider, Yanni, David Lanz, Suzanne Cianni

Ligações
Eric Burdon & Animals, Badfinger, Sri Chinmoy & Carlos Santana, Paul Simon

Textos:
Mário Domingos

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012