Sons da Escrita 031

14 de Outubro de 2005

Primeiro programa do ciclo Mário-Henrique Leiria

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Mário Henrique Leiria

A viagem, enfim (Mário Henrique Leiria)

Isto de ter sempre o mesmo sonho todas as noites torna-se aborrecido. Era assim: saía de casa, ia até ao carro e dizia à família «vamos lá fazer essa viagem». Primeiro entravam a mulher e as duas crianças, depois os pais, ele instalava-se ao volante e pronto, não havia lugar para os sogros! Era sempre a mesma coisa. Por mais que empurrassem, não conseguiam metê-los lá dentro.
Acordava a suar, empurrando ainda qualquer coisa que não estava lá.
A mulher aconselhou-lhe uns calmantes, para ver se o sonho se ia. Mas nada. Lá vinha sempre, todas as noites. É verdade que empurrava menos, talvez os calmantes, mas continuava naquele desespero de não conseguir enfiar os sogros no carro alucinante. Os sogros disseram-lhe que não se interessavam em ir, não faziam questão, já estavam velhos para viagens. Os pais prontificaram-se a ceder os lugares deles. Toda a família colaborava, mas o sonho continuava.
Chegou a fazer experiências, a meter a família completa no velho Citroën arrastadeira. E conseguia, lá se metiam todos, mais ou menos apertados mas entravam. Mas no sonho não. A coisa tornava-se desesperante.
– Porque é que não vais ao Mora? Ele é psicanalista, explica-te, tira-te isso
insistia a mulher, já arreliada, e preocupada, também, com aquelas viagens nocturnas e frustradas em que ele se envolvia sem culpa. O Mora era amigo de infância, nem sequer permitia que ele pagasse, era extraordinário! Às vezes até ia lá jantar. E respondeu à mulher:
– Tens razão, Xuxa, vou mesmo, que isto assim não pode ser. Tens sempre razão menina.
Contou tudo. O Mora mandou-lhe contar mais, o passado continua sempre oculto, ao que disse. Deitado, contou-lhe o que ele precisava era de derivar, sabem, encontrar qualquer coisa além do carro e da viagem que não fazia em sonhos. Derivar. Substituir o carro. Agradeceu e convidou o Mora para jantar no sábado. O Mora não podia e deu-lhe uma palmada nas costas. Chegou a casa aliviado e esclareceu a Xuxa:
– Vou derivar, menina.
– Derivar?
Sim, substituir o carro e tudo o mais, excepto tu, as crianças, os velhos e a casa.

À noite não sonhou. No dia seguinte a Xuxa disse-lhe que até parecia dez anos antes. Tudo voltou à normalidade, os sogros deixaram de se preocupar com a viagem, as crianças entusiasmaram-se com os estoiros da moto. E o carro na garagem. E, de repente, tornou a sonhar. O sonho.
Assim: saiu de casa, foi até ao carro e disse à família «vamos lá fazer essa viagem». A mulher e as crianças entraram, depois os pais, e ele instalou-se ao volante. E não havia lugar para os sogros! Começaram a empurrar para os meter lá dentro, e nada. Então virou-se para a garagem. Estava um pouco diferente, mas a moto continuava lá dentro. Deixou tudo, montou a moto, pôs o chapéu de palha e avançou pela estrada. Uma estrada larga, muito aberta a tudo. Pareceu-lhe já a ter visto alguma vez. Olhou para trás e lá ao longe, à porta da casa, continuavam a empurrar-lhe os sogros. Acenou uma despedida, acelerou e continuou, olhando árvores e nuvens.
Ainda não voltou.


Just a song before I go (Crosby, Stills & Nash)

Just a song before I go,
To whom it may concern.
Travelling twice the speed of sound
It's easy to get burned.

When the shows were over
We had to get back home,
And when we opened up the door
I had to be alone.

She helped me with my suitcase,
She stands before my eyes
Driving me to the airport,
And to the friendly skies.

Going through security
I held her for so long.
She finally looked at me in love,
And she was gone.

Just a song before I go,
A lesson to be learned.
Travelling twice the speed of sound
It's easy to get burned.


Mário Henrique Leiria

Liberdade em segurança (Mário-Henrique Leiria)

Os réus entraram. Três. Fardados de azul. De escudo a tiracolo e viseira erguida.
O juiz pôs a touca com um pequeno jeito de mão direita. Afirmou
– Levante-se o queixoso.
O queixoso estava deitado. Não se levantou.
– Tem alguma coisa a acrescentar quanto à sua arguição contra os réus?
insistiu o juiz, dando outro pequeno jeito na touca.
O queixoso nada disse. Continuava deitado.
– Dadas as circunstâncias atenuantes e outras, declaro os três réus inocentes. O queixoso demonstra à sociedade ser provocador e silencioso, revolucionário alterante de ordem estabelecida, destabilizador da liberdade em segurança. Que os réus, absolvidos, se
retirem em segurança e liberdade.
Os três réus perfilaram-se. Fizeram a continencia com a mão direita. E sairam pela porta da direita.
Sairam os meirinhos pela porta do fundo, e também o juiz, já sem touca, pela porta da frente.
Sairam todos.
O queixoso não. Estava deitado, como já tive oportunidade de informar. Com cinco tiros no baixo-ventre. E morto.


Not guilty (Beatles)

Not guilty
For getting in your way
While you’re trying to steal the day.
Not guilty
And I’m not here for the rest,
I’m not trying to steal your vest.

I am not trying to be smart,
I only want what I can get.
I’m really sorry for your ageing head.
But like you heard me said:
Not guilty.

No use handing me a writ
While I’m trying to do my bit.

I don’t expect to take your heart.
I only want what I can get.
I’m really sorry that you’re underfed.
But like you heard me said:
Not guilty.

Not guilty
For looking like a freak,
Making friends with every sikh.
Not guilty
For leading you astray
On the road to mandalay.

I won’t upset the apple cart.
I only want what I can get.
I’m really sorry that you’ve been misled.
But like you heard me said:
Not guilty.


Mário Henrique Leiria

Discussão (Mário-Henrique Leiria)

– Desconfio que a democracia não resulta. Juntam-se astronautas, bodes, camponeses, galinhas, matemáticos e virgens loucas e dá-se a todos os mesmos direitos. Isso parece-me um erro cósmico. Desculpa.

Desculpei, mas fiquei ofendido. Que a democracia era aquilo mesmo, e ainda com conversa fiada como brinde, isso sabia eu. Que mo viessem dizer, era outra coisa. Fiquei ainda mais ofendido, até porque não gosto de erros cósmicos. Acho um snobismo.

– Eu sou democrático
rugi entre dentes, como resposta
Tenho amigos no exílio, todos democráticos. Foram para lá por serem democráticos. É um sacrifício que poucos fazem, ir para o exílio e ser professor universitário exilado e democrático. Eras capaz de fazer isso?

– Não sou democrático.

Não havia resposta a dar, nenhuma. Ele não era democrático, não sabia de democracia. Eu sim, sou democrático, até já quis ir à América, que me afirmaram que lá é que é a democracia. Recusaram-me o visto no passaporte, disseram que eu era comunista!
Já viram uma coisa destas?


Democracy (Leonard Cohen)

Democracy (Leonard Cohen)
It's coming through a hole in the air,
from those nights in Tiananmen Square.
It's coming from the feel
that this ain't exactly real,
or it's real, but it ain't exactly there.
From the wars against disorder,
from the sirens night and day,
from the fires of the homeless,
from the ashes of the gay:
Democracy is coming to the U.S.A.

It's coming through a crack in the wall;
on a visionary flood of alcohol;
from the staggering account
of the Sermon on the Mount
which I don't pretend to understand at all.
It's coming from the silence
on the dock of the bay,
from the brave, the bold, the battered
heart of Chevrolet:
Democracy is coming to the U.S.A.

It's coming from the sorrow in the street,
the holy places where the races meet;
from the homicidal bitchin'
that goes down in every kitchen
to determine who will serve and who will eat.
From the wells of disappointment
where the women kneel to pray
for the grace of God in the desert here
and the desert far away:
Democracy is coming to the U.S.A.

Sail on, sail on
O mighty Ship of State!
To the Shores of Need
Past the Reefs of Greed
Through the Squalls of Hate
Sail on, sail on, sail on, sail on.

It's coming to America first,
the cradle of the best and of the worst.
It's here they got the range
and the machinery for change
and it's here they got the spiritual thirst.
It's here the family's broken
and it's here the lonely say
that the heart has got to open
in a fundamental way:
Democracy is coming to the U.S.A.

It's coming from the women and the men.
O baby, we'll be making love again.
We'll be going down so deep
the river's going to weep,
and the mountain's going to shout Amen!
It's coming like the tidal flood
beneath the lunar sway,
imperial, mysterious,
in amorous array:
Democracy is coming to the U.S.A.

I'm sentimental, if you know what I mean
I love the country but I can't stand the scene.
And I'm neither left or right
I'm just staying home tonight,
getting lost in that hopeless little screen.
But I'm stubborn as those garbage bags
that Time cannot decay,
I'm junk but I'm still holding up this little wild bouquet:
Democracy is coming to the U.S.A.



Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Mike Oldfield

Ligações
Dave Crosby, Stephen Stills, Graham Nash, Beatles, Leonard Cohen


Textos:
Mário-Henrique Leiria

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012