Sons da Escrita 165

11 de Abril de 2008

Terceiro programa do ciclo Mia Couto

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Mia Couto

Carta - 1981 (Mia Couto)

Quando me disseram «não se vem à vida para sonhar» passei a odiar-vos. Para vos matar escolhi materiais inacessíveis ao meu ódio. Em mim fizestes despertar a irreparável urgência de ferir.
Descobri a vossa intenção: decepar as minhas raízes mais profundas, obrigar-me à cerimónia das palavras mortas. Preferi reiniciar-me: na solidão me apaguei. Estava só para me encher de gente, para me povoar de ternura. Eu queria simplesmente olhar de frente a verdade das pequenas coisas: esta água vem de onde, quem teceu este linho, que mãos fizeram este pão?
Desloquei-me para tudo ver de um outro lado: levei o meu olhar, o desejo de um princípio infinitamente retomado. Ganhei sonoridade nas vozes que me habitavam silenciosamente. Entre mar e terra eu preferia ser espuma, ter raiz e poente entre oceano e continente.
O tempo, por vezes, morria de o não semear. Terras que golpeava com ternura eram feridas que em mim se abriam para me curar. Eram terras suspeitas, acusadas de futuro. Outras vezes eram mãos de um corpo que ainda me não nascera. Surgiam da obscuridade para afastar a água e nela me deixar tombar. Tecido que escapava da mais bela das lavadeiras eu ia pelo rio, a corrente insuflando-me e eu deixando-me arrastar com fingida contrariedade.


By the rivers dark (Leonard Cohen)

By the rivers dark
I wandered on.
I lived my life
in Babylon.

And I did forget
My holy song:
And I had no strength
In Babylon.

By the rivers dark
Where I could not see
Who was waiting there
Who was hunting me.

And he cut my lip
And he cut my heart.
So I could not drink
From the river dark.

And he covered me,
And I saw within,
My lawless heart
And my wedding ring,

I did not know
And I could not see
Who was waiting there,
Who was hunting me.

By the rivers dark
I panicked on.
I belonged at last
to Babylon.

Then he struck my heart
With a deadly force,
And he said, ‘This heart:
It is not yours.’

And he gave the wind
My wedding ring;
And he circled us
With everything.

By the rivers dark,
In a wounded dawn,
I live my life
In Babylon.

Though I take my song
From a withered limb,
Both song and tree,
They sing for him.

Be the truth unsaid
And the blessing gone,
If I forget
My Babylon.

I did not know
And I could not see
Who was waiting there,
Who was hunting me.

By the rivers dark,
Where it all goes on;
By the rivers dark
In Babylon.


Mia Couto

Carta - 1985 (Mia Couto)

Tenho demasiado sono para alimentar crenças. Das casas vou preferindo os cantos interiores, obsessivas sombras em que vou julgando. Se me acerco das janelas é apenas para ver o longe, as ténues linhas do azul inatingível. As portas, fechadas ou abertas, pouco valem. Desfaleceram com o desencanto dos caminhos. Vou ficando pela distracção de desejos mansos, sem guardar réstia de glória nem consolo. Assim, dou feriado à minha existência.

Sofro a fadiga das viagens que nunca ousei. Mas não me dedico nenhum desalento. Porque mantenho dos índios o preceito de envolver com panos os cascos dos cavalos guerreiros. Assim protejo a gravidez da terra. Fica a esperança: outros farão vencer as nossas pequenas razões. Saberemos então do seu tamanho, da sua pressa de ser cedo.

De tanto pensarmos fomos ficando sós. De amarmos venceremos o cerco dessa solidão. Que este cansaço sirva, ao menos, para não culparmos nada nem ninguém.


Not guilty (Beatles)

Not guilty
For getting in your way
While you’re trying to steal the day.
Not guilty
And I’m not here for the rest,
I’m not trying to steal your vest.

I am not trying to be smart,
I only want what I can get.
I’m really sorry for your ageing head.
But like you heard me said:
Not guilty.

No use handing me a writ
While I’m trying to do my bit.

I don’t expect to take your heart.
I only want what I can get.
I’m really sorry that you’re underfed.
But like you heard me said:
Not guilty.

Not guilty
For looking like a freak,
Making friends with every sikh.
Not guilty
For leading you astray
On the road to mandalay.

I won’t upset the apple cart.
I only want what I can get.
I’m really sorry that you’ve been misled.
But like you heard me said:
Not guilty.


Mia Couto

Perguntas à Língua Portuguesa (Mia Couto)

Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta. ||| A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o vôo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem, é idimensões? Assim, embarco nesse gozo de ver como a escrita e o mundo mutuamente se desobedecem. ||| Meu anjo da guarda, felizmente, nunca me guardou. ||| Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica. ||| Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulburbio. ||| No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas. ||| Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro? ||| Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo. Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas delas? Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua: ||| Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo? ||| No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite em branco? ||| A diferença entre um às no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética? ||| O mato desconhecido é que é o anonimato? ||| O pequeno viaduto é um abreviaduto? ||| Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente? ||| Quem vive numa encruzilhada é um encruzilheu? ||| Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado? ||| Tristeza do boi vem dele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação. Pois se ele, em anterior vida, beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação? ||| O elefante que nunca viu mar, sempre vivendo no rio: devia ter marfim ou riofim? ||| Onde se esgotou a água se deve dizer: "aquabou"? ||| Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um desmarço? ||| Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro? ||| Mulher desdentada pode usar fio dental? ||| A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel? ||| As reservas de dinheiro são sempre finas. Será daí que vem o nome: "finanças"? ||| Um tufão pequeno: um tufinho? ||| O cavalo duplamente linchado é aquele que relincha? ||| Em águas doces alguém se pode salpicar? ||| Adulto pratica adultério. E um menor: será que pratica minoritério? ||| Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose? ||| Um gordo, tipo barril, é um barrilgudo? ||| Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca? ||| Brincadeiras, brincriações. E é coisa que não se termina. Lembro a camponesa da Zambézia. Eu falo português corta-mato, dizia. Sim, isso que ela fazia é, afinal, trabalho de todos nós. Colocamos essoutro português - o nosso português - na travessia dos matos, fizemos que ele se descalçasse pelos atalhos da savana. ||| Nesse caminho lhe fomos somando colorações. Devolvemos cores que dela haviam sido desbotadas - o racionalismo trabalha que nem lixívia. Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites, somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança. É urgente recuperar brilhos antigos. Devolver a estrela ao planeta dormente.


Língua (Caetano Veloso)

Gosta de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
“Minha pátria é minha língua”
Fala Mangueira! Fala!

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas!
Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E
xeque-mate
explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Lobo do lobo do lobo do homem
Adoro nomes ||| Nomes em ã
De coisas como rã e ímã
Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé
e Maria da Fé

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer ||| O que pode esta língua?

Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo
A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria, tenho mátria
E quero frátria
Poesia concreta, prosa caótica
Ótica futura
Samba-rap, chic-left com banana
– Será que ele está no Pão de Açúcar?
– Tá craude brô
– Você e tu
– Lhe amo
– Qué queu te faço, nego?
– Bote ligeiro!
– Ma’de brinquinho, Ricardo!? Teu tio vai ficar desesperado!
– Ó Tavinho, põe camisola pra dentro, assim mais pareces um espantalho!
– I like to spend some time in Mozambique
– Arigatô, arigatô!
Nós canto-falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixa que digam, que pensem, que falem.


Ainda assim, escrevo (Mia Couto)

Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo


Farewell love (Clannad)

Secrets I left behind, farewell now
A new world to desire, to desire
Change the pictures, change the pages
It matters little how I knew you

Má bhíonn tú liom, bí liom a stór mo chroí
Má bhíonn tú liom, bí liom má bhíonn tú liom
Má bhíonn tú liom 

Voices of memories, I hear you
A book of stories told, stories old
Dreams of good times, dreams of sad times
And foolish moments we will always share

Má bhíonn tú liom, bí liom a stór mo chroí
Má bhíonn tú liom, bí liom má bhíonn tú liom
Má bhíonn tú liom, bí liom a stór mo chroí
Má bhíonn tú liom, bí liom má bhíonn tú liom


cego
de ser raiz
 
imóvel
de me ascender caule
 
múltiplo
de ser folha
 
aprendo
a ser árvore
enquanto
iludo a morte
na folha tombada do tempo


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Ion, David Arkenstone

Ligações
Leonard Cohen, Beatles, Caetano Veloso, Clannad

Textos:
Mia Couto

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012