Sons da Escrita 010

21 de Maio de 2005

Primeiro programa do ciclo Miguel Esteves Cardoso

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


•••

Miguel Esteves Cardoso

Lorelei.1 (Miguel Esteves Cardoso)

Lorelei vem de uma água escura! Há uma luz de navios caídos e está presa aos cabelos dela, noite e dia!
Noite e dia tem a pele molhada e o corpo em sobressalto. Não consegue parar a alma, sempre em mudança.
Põe-se de pé no alto de uma pedra, a chorar. Esquece, grita, chama, adormece.
Lorelei levanta-se. Levanta-se outra vez. Nos olhos tem o azul sujo de um mar cansado de céu.
Queixa-se, espreguiça-se, lava-se em lágrimas e floresce. Acorda.
Quando Lorelei acorda, o mundo tem ordens para não olhar.

É uma sereia. Não se vê. Não se percebe.
É magia? É uma magia que ainda não cresceu.
É de pele? É de pedra? É de água. Não se perecebe.
Lorelei não se percebe. É uma sereia. Uma sereia é um problema que não se resolve facilmente, que gosta de grutas.

Não gosta de vir à tona de água. Tem medo das alturas. Não gosta da sensação do ar nos olhos. Não suporta a claridade. Sem a ajuda da água, todas as cores acabam por esbranquiçar. Sempre que está em terra, a tratar das coisas que as sereias tratam, tentando aliciar o primeiro marinheiro do dia, apetece-lhe desistir e mergulhar, abrir os olhos e olhar. Não gosta nada quando os marinheiros não vêm ou não correspondem ou só aparecem muito tarde. Não gosta nada de não se despachar. Mas gosta de estar deitada de costas no chão do rio, num dia de calor, a adivinhar quantos azuis tem o céu. A água funda é mais fresca no verão e ela gosta de estar horas sem se mexer, a sentir o rio inteiro a passar por cima dela. Lá em cima, no barulho branco do outro mundo, quase se vêem os pássaros inteligentes a nadar na ventania.
Não gosta de estar cá em cima. Nada. A escuridão do rio é a única coisa capaz de a sossegar.


Argila de luz (Banda do Casaco)

Ela é feita de argila
feita de pedra
erva brava que mesmo sem água medra
ela não sabe nem do futuro
nem do passado
só sabe que sente
pressente o presente cansado

Ela é feita de chuva
feita de vento
lua emancipada desde o início do tempo
ela não sabe nem do arcanjo
nem do diabo
só sabe o que sente
pressente o presente adiado

Ela é luz de negro
luz de luz de luz
ela é luz que cega
luz que nos seduz

Ela é feita de verde feita de sumo
maltratada ainda linda de aprumo
ela não sabe nem da mentira
nem da verdade
só sabe o que sente
pressente o presente parado


Miguel Esteves Cardoso

Lorelei.2 (Miguel Esteves Cardoso)

Lorelei é a menina curva da minha mão, a linha recta do meu olhar.
Deita o cabelo à pedra fria e escuta. As árvores cantam o que o rio lhes diz e o rio corre, porque o mar chama. E o mar é como a lua mandar.
Quem manda na lua, nimguém sabe. Sabes?
É por ela que eu hei-de apaixonar-me. Esquece.
Escuta. Há qualquer coisa no coração que te quer falar. Entorna o cabelo para um poço de sombra. Espalha-o como se estivesse a nadar.

Vê-se na água escura de onde vem, vê-se feliz, de corpo inteiro, em todas as posições, com todas as idades, menina mais uma vez, sorrindo na água-mãe.

Esperava o vento que vinha. Tinha tudo o que queria. Diziam-lhe para descer; ela descia.
Esperava uma verdade que não vinha — as tempestades, a perdição, os navios — com o queixo sobre os joelhos, respeitando o ar da pele, sozinha como o dia.

Não sabe o que tem. O céu corre-lhe por cima da cabeça, parece tinta. Não quer saber o que se passa.
Dança, quer dançar, dança toda a noite.
As estrelas param e a manhã começa. Dança como se fosse proibido, dança como se fosse de verdade, até descer aquela alma dentro de mim, tirando-me o sono, tirando-me a certeza, tirando-me a paz.
O amor não fala a quem o escuta. A sereia não se deita e eu não durmo. A sereia não se deita à água e o rio está inquieto, remexe-se toda a noite, perdendo o fio das horas, enquanto ela dança, dança ao som do amanhecer.

Disse assim: “Hei-de fixar-me, repetir-me, multiplicar-me”. E pensou assim: “Como se estivesse sozinha numa cidade que ninguém viu, hei-de decorar tudo o que eu vir. Olhar-me e aprender-me de cor. Insistir que me vejam. Um a um. Que se apaixonem o mais que puderem. E caiam como cães em torno de mim”.
E tudo isto de madrugada, quando a luz do mundo se parecia com a luz debaixo de água. Sim!, ela às vezes era assim.


Barquinha de lua (Banda do Casaco)

Ai a lua ai a lua é uma barquinha
que anda no céu a boiar
as estrelas são os peixes
à volta dela a nadar
Ai a lua ai a lua é uma barquinha
que anda no céu a boiar
com meu amor andei nela
andámos nela a pescar

Andámos nela a pescar
com nove estrelas fiquei
levei grinalda de estrelas
no dia em que me casei
no dia em que me casei
no dia em que me quiseste
quantas estrelas havia
quantas estrelas me deste

Quantas estrelas me deste
quantas estrelas guardei
bordei-as de noite e dia
no enxoval que levei
no enxoval que levei
que minha mãe me ofereceu
tantas estrelas bordei
como as que havia no céu

Quantas havia no céu
quantas meu amor me deu
numa barquinha de lua
quando meu filho nasceu
quando meu filho nasceu
no dia em que dei à luz
bordei-lhe nos cueirinhos
estrelas em ponto de cruz

Miguel Esteves Cardoso

Lorelei.3 (Miguel Esteves Cardoso)

Via-a sempre de longe. Nos meses em que eu não estava e nas cidades onde eu não vivi, diziam-me que a tinham visto. Viam-na os olhos dos homens que voltavam não sabiam de onde. Viam-na no efeito da música. Viam-na fechada dentro das mãos de doentes. E viam-na em janelas altas, junto às noites que caem dentro de casa, de cara escondida na escuridão e corpo dado à luz do dia. Tinha muitos sítios. Tinha muitos nomes. Mas só se chamava Lorelei.

É uma sereia, é fingida. Não fala.
Ouve-se cantar todo o dia, chorar toda a noite, cantigas de amor amargo, lágrimas de água doce. É a brincar. É só uma sereia que espera no resto de uma rocha. Não tem importância. Chama-me os dedos da mão. Chama-me pelo corpo preso, pelas mãos, pelo cabelo apanhado, pelo meu nome.

Vive nas casas que lhe dão, no tempo que tem. Tudo o que lhe dão deita fora.

Segura-se como se fosse de pedra e, como a pedra, não se mexe.
A tarde sobe no céu. Lorelei fecha os olhos ao calor. É noite do outro lado do mundo. Alguém está a sonhar com ela. É um menino-rei. É um pastor. É um pai. Ela deixa. É da sombra. A vida passa sem ela saber.

Não tem paciência para o ar. O vento não lhe obedece. Não lhe cai aos tornozelos. Não faz nada do que ela quer.

Caço-a nos meus olhos, com o meu coração empobrecido e bom. Procuro-a. Encontro-a. Apanho-a. Pelo verão, pela sombra, pelos cabelos louros. Vejo-a pelo amor de Deus. Caço-a no dia e na noite, na minha espécie de vida. Se não a vejo durante muito tempo, deixo de ver seja o que for. O mundo desaparece. A vida não calha. O mundo é só um sítio que serve para ela estar. Para eu encontrá-la e ela perder-se de mim, escondendo a cara, à beira de uma sombra de água.


Salvé Maravilha (Banda do Casaco)

Cai o dia sai da noite cai sopa no mel
Salvé Maravilha coisa linda de alegria
toca a língua no teu céu
ensaliva lá em sonhos
céu da boca nem tem dó

Cai o dia sai da noite sol a sol a sol
Salvé Maravilha vê meus olhos nascer dia
céu da boca é fronteira
do que é corpo e é ideia
céu da boca nem tem dó

toca a língua no teu céu
ensaliva lá em sonhos

Cai o dia sai da noite cai sopa no mel
Salvé Maravilha coisa linda de alegria
céu da boca é fronteira
do que é corpo e é ideia
céu da boca nem tem dó

toca a língua no teu céu
ensaliva lá em sonhos



Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Amarok, Carsten Schnell, Celtas Cortos

Ligações
Banda do Casaco

Textos:
Miguel Esteves Cardoso

Edição e voz:
José-António Moreira


•••|•••|•••


And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012