Sons da Escrita 011

28 de Maio de 2005

Segundo programa do ciclo Miguel Esteves Cardoso

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Miguel Esteves Cardoso

Lorelei.4 (Miguel Esteves Cardoso)

Mergulhei as mãos em Lorelei, o corpo inteiro me desceu. Habituei-me àquela pele como à água fria. Fiquei preso àquela corrente de sangue, àquela corrente de ar que entrava e saía da boca dela. Fiquei preso àquela corrente sem fim, que corria sem mim, num círculo à minha frente.
Habituei-me à maneira de dormir dela. Deixei que o hálito dela me viciasse e adormecesse. Fiquei preso àquela corrente de saliva e de sono em que ela me fechou e eu me fechei.

Lorelei tem uma maneira de se deitar, tarde, como a água, fora. Tem uma maneira de se esconder, como um coração numa rocha, como a pena de um pássaro na sombra de uma gruta. Tem uma maneira de se deixar encontrar.

Há um sol dentro da pedra, calor debaixo da pedra fria por baixo da mão. A pedra tem uma mão e a mão passa por ela, esgaravata e arranha, à procura de outra mão com que se dar, que encontra e aperta e acaba por partir.
Lorelei está deitada. O mundo morre. Não há um nome que se lembre. A vida não se toca, corre onde não há corpo que chegue, como um rio subterrâneo debaixo da areia de um deserto.
Ela põe-se a pensar.

A mulher é sempre um nó. Ata-se quando se alinda, desata-se quando se deslinda.
Lorelei é sempre um fecho. Uma mulher é sempre um fim. Abre como uma madrugada no meio da noite, fecha como num fim de tempestade. Quando dorme, não se acredita que tenha estado acordada.
Quando se dá, não se acredita que tenha pertencido a mais ninguém.


Num sonho de águas claras (Fausto)

eu quero a luz em vez de sombras
de argamassas e betão
mais quero o espaço em vez do vulto
que se avulta em alicerce
e pela arte de outro traço
desenhar outra morada
em delicado e puro gesto
pela mão do criador

os meus olhos adormecem
num sonho de águas claras
se morre o peixe e o verde seca
seca o verde deste chão
no degelo de outro mundo
quando é mais amargo o ar
e mais se alaga a terra ao fundo
e mais se alonga e sobra o mar

ir ao encontro outra vez
do perfume dos limões
olhar a sombra destes prados
em carmesim de cerejas
pela frescura das laranjas
pelo sabor de tangerinas
saborear teus lábios rubros
em leves tons de framboesa
depois
descobrir
depois
um astro em pomar de cores
sombreado pelas plantas
cheio de gente feliz
feliz tanto quanto eu sou
p’lo aroma da flor dos ramos
e pela serena presença
daquela mulher que eu amo


Miguel Esteves Cardoso

Lorelei.5 (Miguel Esteves Cardoso)

Vem o Verão, faz de conta! Lorelei não se mexe, olha em frente como se o mundo lhe pertencesse.
Como se o mundo acontecesse diante dela, um século em cada segundo, uma terra em cada centímetro e fosse dia ou noite conforme ela piscasse os olhos.
Dança, balouça, viaja sem se mexer.

Guardo-a num bolso descosido do meu coração, como se fosse um menino, mais nada. Quero saber o que ela tem. Ela tem saudade da água funda. Diz que a água também tem uma primavera e que se passa de estação quando se muda de profundidade.
Diz que lhe doem os cabelos enxutos e que tem saudades de quando se soltavam para seguir o caminho que tinha o mar e que os fios molhados pareciam filhas pequenas que iam atrás dela a nadar.

Debruça-se sobre o que há-de ser a vida dela e ri-se devagarinho. O mundo nunca tem o que ela quer, não há na vida uma única coisa que seja a mais indicada.

Pensar nela põe-me a alma no princípio. Não aprendo, não envelheço, não concordo, não percebo. Apaixono-me, só de respirar mais fundo!

O coração não lhe chega para o que sente. Desfaz-se em lágrimas e parecem-lhe poucas. O corpo inteiro é uma lembrança de outro que já teve.

Salta, salta um salto preso. O dia é sempre branco. Nunca sabe exactamente o que quer.
Uma fotografia dela é a coisa mais verdadeira que tem. Muda tanto, salta tanto, hesita tanto, que uma só imagem dela, parada, definitiva, é um alívio. Parece mesmo verdade.


E tão só o verde dos teus olhos (Fausto)

e então digo eu
que tinges os meus olhos castanhos
com o verde dos teus olhos
oceanos
de olhares nascidos
de amor e paixão
e mais de outros sentidos

misturas os teus
cabelos loiros
doirados
nos meus
mais sombreados a lápis
do que eu
matizas minha pele
tão morena
na estampa
da tua tão branca tão branca

a poesia
é a tua graça que eu amo
o teu encanto
as harmonias que eu tramo
coloridas
as cores
as tuas
as flores
que perfumam o teu garbo
e o gosto
e aquele agrado
mais belo e bem posto
de pura elegância
para mim tão amada
serás minha e para sempre
e tão só
a minha eterna namorada


Miguel Esteves Cardoso

Lorelei.6 (Miguel Esteves Cardoso)

Cada vez que a vejo, os meus olhos esquecem-se, esquecem que podem ver. Os meus olhos fecham-se. Os meus olhos desperdiçam-se. Vez, após vez, perdem-se pela primeira vez. Esquecem-se que já a viram antes.
Cada vez que a vejo, põe-me os olhos a arder. E assim se passa o meu amor constantemente para um lugar onde não chega, como quem se apaixona por alguém que ainda não apareceu, como quem vê o seu amor a nascer.

Deixa-se parar num tempo dela, como se tivesse frio, medo, seis anos de idade.
Parada, guardada em quem a olha, protegida de quem a toca, impedida de envelhecer.
Pedra quente, fogo frio. De repente, a vida vê-se.
A tua pele chega à minha, o teu cabelo cai no meu. Adivinho a chegada e a caída do teu corpo. Atiro a minha sombra contra a tua e os meus olhos fecham ao mesmo tempo que os teus.

Erguida, espreguiçada, menina muito crescida a deixar-se ver. Pedra quente, fogo frio.
Depois deita-se, tão desejada que não precisa de desejar. Parada, deixa-se amar.
Não se mexe, deixa-se mexer. Não se dá, vicia-se em receber.


Se já não chamo p’lo teu nome (Fausto)

se de repente eu te abraçasse
e me quisesses outra vez
se por milagre me beijasses
seria ou não feliz talvez

se já não chamo p’lo teu nome
quando tu és minha carência
não deixei de te amar ao menos
habituei-me à tua ausência

propulsa doida taquicardia
meu peito bate em contratempo
quando te espero e nunca chegas
à Rua da Espera em S. Bento

minha figura bamboleia
na inversão do teu polegar
e mais tropeça e sapateia
na pouca sorte de te amar

e depois

troca por troca trocaste-me a mim
meu amor no voo de um querubim
e num toque de asa levaste-me assim
na piscadela d’olho de um arlequim

meu pobre coração traído
em sexo de infidelidades
não quer sequer sonhar contigo
em todas as modalidades

e por falar em mordomias
e por falar em pechisbeques
trocaste toda a poesia
p’lo extracto de um livro de cheques


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Rodrigo Leão

Ligações
Fausto Bordalo Dias

Textos:
Miguel Esteves Cardoso

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012