Sons da Escrita 012

4 de Junho de 2005

Terceiro programa do ciclo Miguel Esteves Cardoso

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Miguel Esteves Cardoso

Lorelei.7 (Miguel Esteves Cardoso)

Acordo dentro dela, como se acordasse dentro de água quente.
Mexo-me. Ela mexe-se. Mexo-lhe. Ela mexe-me.
E é sempre no meio da noite, no meio de uma noite, que é sempre a mesma, sem princípio e sem fim, onde não há lembrança de ter anoitecido, nem ideia de que vá amanhecer.
Ela acorda sempre dentro de mim, entre o sonho e o susto que, no amor, são as coisas de todos os dias.

Que tamanho tens? Que natureza tens? Que idade tens?
Tens o tamanho que eu quiser, a natureza que tiveres e a idade das perguntas que faço.
Lorelei, menina mais mulher. Tão olhada que já não olha para ninguém. Tão deitada!…

Por não poder parar, o homem pára o que se passa na pedra. Pega num escropo ou numa máquina ou numa caneta e pára o que se passa na pedra, na película, no papel. Mata o que tem vida. Dá vida ao que morreu.

Passa para a pedra como quem muda de pele. Troca o corpo com o coração. Confunde as coisas todas, sobretudo, a vida com a verdade. Uma mulher é sempre muitas. Quem ama uma só mulher perde-se numa multidão.
Confundo-me. A pele lisa como a pedra, a pedra lisa como a pele. O papel liso como a película, a película lisa como o papel. Faz-me bem!


Uma semente (Luís Portugal)

Se houvesse uma semente
que eu pudesse semear
eu fazia um canteiro
no melhor do meu jardim

Protegia-o da geada
dava-lhe o sol a beijar
tratava do meu canteiro
como se fosse de mim

E se a flor tivesse as cores
e os reflexos da tua voz
se tivesse o mesmo cheiro
e o porte que já te vi

A garridez que eu teria
plantada no meu jardim
pintada na minha alma
se não te posso ter a ti


Miguel Esteves Cardoso

Lorelei.8 (Miguel Esteves Cardoso)

Lorelei fica à beira da minha vida, deitando-lhe sombra em cima. A luz não é a mesma desde que desapareceu. Os meus olhos não andam abertos como dantes. Ela está deitada ao longo da minha vida, como um rio a correr por uma pedra. A pedra separa o rio num só instante. Mas a pedra sente para sempre o rio a correr à volta dela.

Quando se aproxima a vontade da mentira, vale a pena acreditar. O amor é um acaso. O amor é um engano. Tudo se sente. Nada se sabe.

Perto dos olhos pára numa parecença de verdade. Ninguém tem os olhos errados.
Olhos de amor são olhos de quem tem medo de morrer. Olhos parados…

Porque, para além disto tudo, há uma luz dentro da película, uma prata secreta que se acaba por mostrar. A pele da pedra transforma-se, pela luz e pela película, em pele.
A fotografia de uma escultura é uma pedra duas vezes parada. Como uma mulher duas vezes desejada e duas vezes presa, pelos dois pulsos, pelos punhos de dois homens diferentes.


Quando o medo é confessado (Júlio Pereira e Sheila Charlesworth)

É esquisito estar contigo
assim nesta situação
tão igual a tantas outras
mas diferente sem razão

Não procures a razão
vive o pouco deste dia
se te sentes com amor
vê meus olhos de alegria

Os meus olhos têm medo
não consigi olhar-te assim
rodam param num cigarro
quando tu olhas para mim

Acredito no que dizes
acredito nos teus olhos
estás à beira da verdade
quando o medo é confessado
Esse medo que tu tens
que é o medo de amar
é a única barreira
que te falta superar

Foi contigo que aprendi
que modificar as coisas
ou que transformar a vida
acontece de verdade
quando se sente no peito
aquilo que não se sabe
o que é e donde vem
mas dá força e coragem
para poder gritar aos homens
aos que vivem na mentira
aos que vivem sem viver
que a luta pela igualdade
é a que me faz viver

Miguel Esteves Cardoso

Lorelei.9 (Miguel Esteves Cardoso)

Eu só queria pará-la. Ali ao pé do rio e de mim. Queria viver repetidamente aquele momento, cansar-me naquele corpo já sem força e ficar. Em vez do passado e futuro das nossas vidas. Os olhos como estavam. Os tornozelos assim. A boca como era naquela altura, àquela luz que então batia, naquele lugar, naquela idade, àquela temperatura.
Pará-la, torná-la em pedra, matá-la, fotografá-la, passá-la para o papel. Para os meus olhos. Para os meus olhos poderem morrer nela.

O amor quer matar quem ama, de maneira a poder guardá-lo para sempre. O amor quer estar ao pé do amor.
Na pedra e no papel amanhece uma morte linda. É uma troca de vida. É um engano que se escolhe.
Estou parado, ela está parada, agarro-a junto de mim. Nunca mais me hei-de mexer. Ela nunca mais sairá daqui.

Parados por paixão, mortos pela manhã.
Não. Não é na vida que está a verdade.


Todo o tempo do mundo (Rui Veloso)

Podes vir a qualquer hora
Cá estarei para te ouvir
O que tenho para fazer
Posso fazer a seguir

Podes vir quando quiseres
Já fui onde tinha de ir
Resolvi os compromissos
agora só te quero ouvir

Podes-me interromper
e contar a tua história
Do dia que aconteceu
A tua pequena glória
O teu pequeno troféu

Todo o tempo do mundo
para ti tenho todo o tempo do mundo
Todo o tempo do mundo

Houve um tempo em que julguei
Que o valor do que fazia
Era tal que se eu parasse
o mundo à volta ruía

E tu vinhas e falavas
falavas e eu não ouvia
E depois já nem falavas
E eu já mal te conhecia

Agora em tudo o que faço
O tempo é tão relativo
Podes vir por um abraço
Podes vir sem ter motivo
Tens em mim o teu espaço



Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Barbara Higbie, David Lanz e Paul Speer, Blonker

Ligações

Luís Portugal, Júlio Pereira e Sheila Charlesworth, Rui Veloso

Textos:
Miguel Esteves Cardoso

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012