Sons da Escrita 117

1 de Junho de 2007

Primeiro programa do ciclo Milan Kundera

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Milan Kundera

O livro do riso e do esquecimento.1 (Milan Kundera)

Rir? Pensamos alguma vez em rir? Quero dizer rir verdadeiramente, além da brincadeira, da troça, do ridículo. Rir, gozo imenso e delicioso, gozo completo.
Dizia à minha irmã ou dizia-me ela a mim — anda, vamos brincar a rir? Estendíamo-nos lado a lado numa cama e começávamos. A fingir, claro. Risos forçados. Risos ridículos. Risos tão ridículos que nos faziam rir. Então chegava o verdadeiro riso, o riso inteiro, que nos transportava no seu imenso rebentar. Risos desatados, retomados, empurrados, estalados, risos magníficos, sumptuosos e loucos… E ríamos até ao infinito do riso dos nossos risos… Oh! riso! riso do gozo, gozo do riso; rir é tão profundamente viver.


Everyone laughed but you (Sting) 

Everybody laughed when I told them
I wanted you, I wanted you
Everybody grinned they humoured me
They thought that someone had spiked my tea
Everybody screamed they told me you
Would cost the moon, we'll be there soon
Everybody laughed till they were blue
They didn't believe my words were true

Everybody laughed but you

It's easy to lose touch with all the friends
You like so much or liked so much
Everybody laughed they couldn't take me seriously
Abandoned me
Sometimes I would read of things they'd done in magazines
They made the scene
Everybody left with such important things to do
But I'm not blue

Everybody left but you
Everybody left but you

Many years have passed
And some have fallen by the way I heard them say
Everybody dreamed but those who fell
Are sleeping now, they're sleeping now
Everybody climbed like ivy to the top most branch
It was their chance
Everybody grasped till they were through
It's all they thought that they could do

Cause everybody fell
Everybody fell
Everybody fell but you


Milan Kundera

O livro do riso e do esquecimento.2 (Milan Kundera)

Recordam-se certamente desta cena, já a viram em dezenas de maus filmes: um rapaz e uma rapariga de mãos dadas correm numa bela paisagem primaveril (ou estival). Correm, correm, correm e riem-se. O riso dos dois corredores deve proclamar ao mundo inteiro e aos espectadores de todos os cinemas: estamos felizes, estamos contentes por estar no mundo, estamos em harmonia com o ser!
É uma cena estúpida, um cliché. Mas exprime uma atitude humana fundamental: o riso sério, o riso além da brincadeira.

Todas as igrejas, todos os fabricantes de roupa, todos os generais, todos os partidos políticos estão de acordo sobre este riso, e todos se apressam a colocar a imagem desses dois corredores que correm a rir nos cartazes em que fazem propaganda da sua religião, dos seus produtos, da sua ideologia, do seu povo, do seu sexo e do seu pó para lavar a roupa.


Laughing (Guess Who)

I should laugh, but I cry,
Because your love has passed me by.
You took me by surprise;
You didn’t realize
That I was waiting.

Time goes slowly, but carries on.
And now the best years have come and gone.
You took me by surprise,
I didn’t realize
That you were laughing.

(Laughing)
‘Cause you’re doin’ it to me.
(Laughing)
It ain’t the way it should be.
You took away ev’rything I had.
You put the hurt on me.

I go alone now, calling your name.
After losing at the game.
You took me by surprise;
I didn’t realize
That you were laughing.

Time goes slowly, but carries on.
And now the best years,the best years have come and gone.
You took me by surprise,
I didn’t realize
That you were laughing.

(Laughing)
Ha, ha, ha, ha, ha, ha
(Laughing)
Ha, ha, ha, ha, ha, ha…
(Laughing)
What you laughing at me
(Laughing)
What you laughing at me


Milan Kundera

O livro do riso e do esquecimento.3 (Milan Kundera)

Os anjos não são partidários do Bem, mas da criação divina. O diabo é, pelo contrário, aquele que recusa ao mundo divino qualquer significado racional.
O domínio do mundo, como se sabe, é partilhado por anjos e demónios. No entanto, o bem do mundo não implica que os anjos tenham vantagem sobre os demónios (como eu pensava quando era criança), mas que os poderes de uns e outros esteja mais ou menos em equilíbrio. Se há no mundo demasiado sentido incontestável (o poder dos anjos), o homem sucumbe sob o seu peso. Se o mundo perde todo o seu significado (o reino dos demónios), também não se pode viver.
As coisas inesperadamente privadas do seu sentido oposto, do lugar que lhes é atribuído na ordem pretensa das coisas, provocam-nos o riso. Na origem, o riso é, portanto, do domínio do diabo. Tem algo de maléfico (as coisas revelam-se de repente diferentes daquilo por que se faziam passar), mas também tem em si uma parte de alívio benfazejo (as coisas são mais leves do que pareciam, deixam-nos viver mais livremente, cessam de nos oprimir sob a sua séria austeridade).
Quando o anjo ouviu pela primeira vez o riso do Astucioso, foi tocado pela admiração. Passava-se o caso durante um festim, a sala estava cheia de gente e as pessoas foram acometidas, uma após outra pelo riso do diabo, que é horrivelmente contagioso. O anjo percebeu claramente que aquele riso era dirigido contra Deus e contra a dignidade da sua obra. Sabia que devia agir depressa, de uma ou outra forma, mas sentia-se fraco e indefeso. Como não era capaz de inventar nada sozinho, macaqueou o adversário. Abrindo a boca, emitiu sons entrecortados, sacudidos, com intervalos iguais aos do seu registo vocal. Enquanto o sorriso do diabo designava o absurdo das coisas, o anjo queria, pelo contrário, regozijar-se com o facto de tudo aqui em baixo estar bem ordenado, sabiamente concebido, ser bom e pleno de sentido.
Assim, o anjo e o diabo estavam face a face, e, mostrando as bocas abertas, emitiam quase os mesmos sons, mas cada um exprimia pelo seu clamor coisas absolutamente contrárias. E o diabo olhava para o anjo que ria, e ria-se ainda mais, tanto melhor e tanto mais francamente quanto o anjo que ria era infinitamente cómico.


The last laugh of the laughter (Travis)

When the laughter fades away
Ma vie
Toute ma vie
When there's nothing more to say
Ma vie
My oh my
It's the last laugh of the laughter
Sur la derniere page du chapitre
On the last day of the year
Ma vie
Toute ma vie
When the spotlight fades away
Ma vie
C'est la vie
When the blue sky turns to grey
Ma vie
My oh my
It's the last laugh of the laughter
Sur la derniere page du chapitre
On the last day of the year
Ma vie
Toute ma vie
When the laughter fades away
Ma vie
Toute ma vie
When there's nothing more to say
Ma vie
My oh my
It's the last laugh of the laughter
Sur la derniere page du chapitre
On the last day of the year
Ma vie
Toute ma vie
Ma vie
My oh my


A luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Tangerine Dream

Ligações
Sting, Guess Who, Travis

Textos:
Milan Kundera

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012