Sons da Escrita 118

8 de Junho de 2007

Segundo programa do ciclo Milan Kundera

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Milan Kundera

O livro do riso e do esquecimento.4 (Milan Kundera)

Dançar em roda é mágico; a roda fala-nos das profundezas milenárias da memória humana. Houve quem procurasse esse círculo mágico de homens e mulheres a quem pudesse dar a mão para dançar uma roda, primeiro na Igreja Metodista (porque o pai era um fanático religioso), depois no partido comunista, depois no partido trotskista, depois no partido trotskista dissidente, depois no movimento contra o aborto (a criança tem direito à vida), depois no movimento para a legalização do aborto (a mulher tem direito ao seu corpo), procurou-o nos marxistas, nos psicanalistas, depois nos estruturalistas, procurou-o em Lenine, no Budismo Zen, em Mao Tsé-Tung, entre os adeptos do Yoga, na escola do nouveau roman e, para rematar, quer estar em perfeita harmonia com os seus alunos, fazer com eles um só todo, o que significa que os obriga sempre a pensar e a dizer a mesma coisa, a ser um só corpo e uma só alma, no mesmo círculo e na mesma dança.


I'd rather dance with you (Kings of Convenience) 

I'd rather dance with you than talk with you
So why don't we just move into the other room
There's space for us to shake, and hey, I like this tune 

Even if I could hear what you said
I doubt my reply would be interesting for you to hear
Because I haven't read a single book all year
And the only film I saw, I didn't like it at all 

I'd rather dance, I'd rather dance than talk with you
I'd rather dance, I'd rather dance than talk with you
I'd rather dance, I'd rather dance than talk with you 

The music's too loud and the noise from the crowd
Increases the chance of misinterpretation
So let your hips do the talking
I'll make you laugh by acting like the guy who sings
And you'll make me smile by really getting into the swing
Getting into the swing, getting into the swing
Getting into the swing, getting into the swing
Getting into the swing, getting into the swing
Getting into the swing, getting into the swing... 

(Getting to the swing...)
I'd rather dance, I'd rather dance than talk with you
I'd rather dance, I'd rather dance than talk with you
I'd rather dance, I'd rather dance than talk with you
I'd rather dance, I'd rather dance than talk with you
I'd rather dance with you
I'd rather dance with you
I'd rather dance with you


Milan Kundera

O livro do riso e do esquecimento.4 (Milan Kundera)

Quando nos afastamos da fila, ainda nos é possível voltar. A fila é uma formação aberta. Mas o círculo fecha-se e quando se sai é sem regresso. Não é por acaso que os planetas se movem em círculo e que a pedra que salta se afasta inexoravelmente, levada pela força centrífuga. Semelhante ao meteorito arrancado a um planeta, saí do círculo e, ainda hoje, não paro de cair. Há pessoas que conseguem morrer em órbita e outras que se esmagam no fim da queda. E outras (às quais pertenço) conservam sempre em si como que uma tímida nostalgia da dança em roda perdida, porque somos todos habitantes de um universo em que todas as coisas giram em círculo.


The fool on the hill (Beatles)

Day after day,
Alone on the hill,
The man with the foolish grin is keeping perfectly still,
But nobody wants to know him,
They can see that he's just a fool,
And he never gives an answer,
But the fool on the hill
Sees the sun going down,
And the eyes in his head,
See the world spinning 'round.

Well on the way head in a cloud,
The man of a thousand voices is talking perfectly loud
But nobody ever hears him,
Or the sound he appears to make,
And he never seems to notice,
But the fool on the hill
Sees the sun going down,
And the eyes in his head,
See the world spinning 'round.

And nobody seems to like him
They can tell what he wants to do.
And he never shows his feelings,
But the fool on the hill
Sees the sun going down,
And the eyes in his head,
See the world spinning 'round.

woah ooh,
Round and round and round.

He never listens to them,
He knows that they're the fool
They don't like him,
The fool on the hill
Sees the sun going down,
And the eyes in his head,
See the world spinning 'round.


Milan Kundera

O livro do riso e do esquecimento.6 (Milan Kundera)

Sabem o que acontece quando duas pessoas conversam?: uma fala e a outra corta-lhe a palavra — é exactamente como eu, eu… e começa a falar de si até a primeira pessoa conseguir dizer por sua vez: é exactamente como eu, eu…
Esta frase “é exactamente como eu, eu…” parece ser um eco de aprovação, uma maneira de continuar a reflexão do outro, mas é um engano: na realidade, é uma revolta brutal contra uma violência brutal, um esforço para libertar o nosso ouvido da escravidão e ocupar à força o ouvido do adversário. Porque toda a vida do homem não é nada a não ser um combate para se apoderar do ouvido do outro.


God says nothing back (Wallflowers)

Seems like the world's gone underground
No gods or heroes dare to go down
Teardrops from a hole in heaven come
Overhead like ravens dropping down like bombs

Through the mornings silver frosted glow
God says nothing back but I told you so
I told you so

God bless the void of my daydreams
Head back in the snow making angel wings
As slow motion dancing lights at dawn
Sail beneath a burning yellow sun

I'm calling out from the deep ends of my bones
Time says nothing back but I told you so
I told you so

Still waters rising in my mind
Black and deep, smoke behind my eyes
Last night I could not sleep at all
I hallucinated that you were in my arms

To be in your heart I failed my own
Love says nothing back but I told you so
I told you so

Still here reclimbing every rung
Someone saw something
Now Someone speak up
Back over the rotted bridge I cross
Open up these graves, let these bodies talk

Burried under leaves blood red and gold
Death says nothing back but I told you so
I told you so


O mais que podemos fazer é apresentarmos um relatório sobre nós próprios. Cada um apresenta o seu próprio relatório. O resto não passa de um abuso de poder. Tudo o resto é mentira.

Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Anyma

Ligações
Kings of Convenience, Beatles, Wallflowers

Textos:
Milan Kundera

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012