Sons da Escrita 119

15 de Junho de 2007

Terceiro programa do ciclo Milan Kundera

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Milan Kundera

O livro do riso e do esquecimento.7 (Milan Kundera)

Há algum tempo, atravessei Paris de táxi e o chauffeur era conversador. Não conseguia dormir à noite. Sofria de uma insónia crónica, que datava da guerra. Tinha sido marinheiro. O navio tinha-se afundado. Ele tinha nadado durante três dias e três noites. Depois repescaram-no. Passou muitos meses entre a vida e a morte. Curou-se, mas perdeu o sono.
– Tenho atrás de mim um terço de vida a mais que o senhor
disse-me a sorrir.
– E o que faz com esse terço que tem a mais?
perguntei.
Respondeu: “Escrevo”.
Quis saber o que ele escrevia.
Escrevia a sua vida. A história de um homem que nadou durante três dias no mar, que lutou contra a morte, que perdeu o sono e que apesar de tudo conservou força para viver.
– Escreve isso para os seus filhos? Como crónica de família?
Sorriu com amargura:
Para os meus filhos? Não lhes interessa nada. É um livro que eu escrevo. Acho que podia ajudar bastante gente.
Esta conversa com o chauffeur de táxi esclareceu-me repentinamente sobre a natureza da actividade do escritor. Escrevemos livros porque os nossos filhos se desinteressam de nós. Dirigimo-nos ao mundo anónimo porque a nossa mulher tapa os ouvidos quando lhe falamos.
Vão responder que, no caso do chauffeur de táxi, se trata de um grafómano e não de um escritor.
Comecemos, então, por delimitar os conceitos.
Uma mulher que escreve quatro cartas por dia ao amante não é uma grafómana. É uma apaixonada. Mas o meu amigo que tira fotocópias da sua correspondência amorosa para a poder publicar um dia é um grafómano.
A grafomania não é o desejo de escrever cartas, diários, crónicas familiares (ou seja, escrever para si ou para os que estão próximos) é o desejo de escrever livros (portanto, de ter um público de leitores desconhecidos). Neste sentido, a paixão do chauffeur de táxi não é uma paixão diferente da de Goethe. O que distingue Goethe do chauffeur de táxi é o resultado dessa paixão.
A grafomania (a mania de escrever livros) adquire fatalmente proporções de uma epidemia quando o desenvolvimento da sociedade preenche três condições fundamentais:
1. Um nível elevado de bem-estar geral, que permite às pessoas consagrarem-se a uma actividade inútil;
2. Um grau elevado de atomização social e, por conseguinte, de isolamento geral dos indivíduos;
3. A falta radical de grandes mudanças sociais na vida interna da nação (deste ponto de vista parece-me sintomático que em França, onde não acontece praticamente nada, a percentagem de escritores seja vinte e uma vezes mais elevada que em Israel.
...
Mas o efeito, por contragolpe, repercute-se sobre a causa. O isolamento geral engendra a grafomania e a grafomania generalizada reforça-se e agrava por sua vez o isolamento. A invenção da imprensa permitiu outrora aos homens compreenderem-se mutuamente. Na era da grafomania universal, o facto de escrever livros ganha um sentido oposto: cada indivíduo rodeia-se das suas próprias palavras como de uma parede de espelhos que não deixa filtrar nenhuma voz de fora.


Paperback writer (Beatles) 

Paperback writer

Paper back writer (paperback writer)
Dear Sir or Madam, will you read my book?
It took me years to write, will you take a look?
It's based on a novel by a man named Lear
And I need a job, so I want to be a paperback writer,
Paperback writer.

It's the dirty story of a dirty man
And his clinging wife doesn't understand.
His son is working for the Daily Mail,
It's a steady job but he wants to be a paperback writer,
Paperback writer.

Paperback writer (paperback writer)

It's a thousand pages, give or take a few,
I'll be writing more in a week or two.
I can make it longer if you like the style,
I can change it round but I want to be a paperback writer,
Paperback writer.

If you really like it you can have the rights,
It could make a million for you overnight.
If you must return it, you can send it here
But I need a break and I want to be a paperback writer,
Paperback writer.

Paperback writer (paperback writer)

Paperback writer - paperback writer
Paperback writer - paperback writer


Milan Kundera

O livro do riso e do esquecimento.8 (Milan Kundera)

De repente vem-me à memória uma frase: uma nota leve, límpida, metálica; como se fosse um anel de ouro caindo num vaso de prata.
Thomas Mann, quando ainda era muito jovem, escreveu uma novela candidamente fascinante: nesta novela a morte é bela, como é bela para todos que a sonham quando ainda são muito jovens e a morte é ainda irreal e encantadora, semelhante à voz azulada do longínquo.
Um jovem sofrendo de uma doença mortal sobe para um combóio, depois desce numa gare desconhecida, entra numa cidade de que ignora o nome e, numa casa qualquer, a casa de uma velha mulher com a testa coberta de rugas, aluga um quarto. Não, não vou contar o que se passa a seguir nesse alojamento subalugado. Só quero recordar um acontecimento insignificante: quando o jovem doente caminhava no quarto, pensava ouvir nas salas vizinhas, por entre o martelar dos seus passos, um barulho indefinível, uma nota leve, límpida metálica. Mas talvez não passasse de uma ilusão. Como se fosse um anel de ouro caindo num vaso de prata, pensava…
Na narrativa, este pormenor acústico não tem consequência nem explicação. Do ponto de vista estrito da acção, podia ser omitido sem inconvenientes. O som fez-se, simplesmente ouvir, imprevisível, assim.
Creio que Thomas Mann fez soar esta nota leve, límpida metálica, para que o silêncio nascesse. Tinha necessidade dela para que a beleza se tornasse audível, porque a morte de que falava era a “morte-beleza” e porque a beleza, para ser perceptível, precisa de um grau mínimo de silêncio (a medida é precisamente o som que produz um anel de ouro a cair num vaso de prata).
(Sim, já sei, não sabem do que estou a falar, porque a beleza já desapareceu há muito tempo. Desapareceu sob a superfície do barulho — barulho das palavras, barulho dos automóveis, barulho da música — em que vivemos constantemente. Submersa como a Atlântida. Só ficou uma palavra, cujo sentido é menos perceptível em cada ano que passa.)


Came so far for beauty (Jennifer Warnes)

I came so far for beauty
I left so much behind
My patience and my family
My masterpiece unsigned
I thought I'd be rewarded
For such a lonely choice
And maybe he would answer
To such a hopeless voice
I practiced all my sainthood
I gave to one and all
But the rumours of my virtue
They moved him not at all
I changed my style to silver
I changed my clothes to black
And where I would surrender
Now I would attack
I stormed the old casino
For the money and for the flesh
And I myself decided
What was rotten, what was fresh
And men to do my bidding
And broken bones to teach
The value of my pardon
The shadow of my reach
But no, I could not touch him
With such a heavy hand
His star beyond my order
His nakedness unmanned
I came so far for beauty
I left so much behind
My patience and my family
My masterpiece unsigned


Milan Kundera

O livro do riso e do esquecimento.9 (Milan Kundera)

O meu pai estava a morrer.
Durante os dez últimos anos que teve de vida foi perdendo gradualmente o uso da palavra. Ao princípio, poucas palavras lhe faltavam; em vez daquelas dizia outras que eram parecidas, e começava imediatamente a rir. Mas no fim já só conseguia pronunciar muito poucas palavras e sempre que tentava explicitar o pensamento terminava com a mesma frase, uma das ultimas que lhe restavam: É estranho.
— Dizia “é estranho”, e tinha no olhar a surpresa imensa de saber tudo sem poder dizer nada. As coisas tinham perdido o nome e confundiam-se num único ser indiferenciado. E só eu, quando lhe falava, podia fazer ressurgir por um instante, desse infinito sem palavras, o universo das entidades designadas.
Sobre o seu rosto belo, os enormes olhos azuis exprimiam a mesma sageza do que antes. Levava-o muitas vezes a passear. Dávamos invariavelmente a volta ao mesmo quarteirão de casas, o meu pai já não tinha força para ir mais longe. Andava mal, dava passos muito pequeninos e, logo que estava um pouco cansado, o corpo começava a curvar-se para a frente e perdia o equilíbrio. Precisávamos de parar frequentemente para ele descansar, com a testa encostada a uma parede.
Durante esses passeios discutíamos musica. Enquanto o pai falava normalmente eu tinha-lhe feito poucas perguntas. E agora queria recuperar o tempo perdido. Falávamos portanto de música, mas era uma estranha conversa entre uma pessoa que não sabia nada mas conhecia muitas palavras e alguém que sabia tudo mas não conhecia uma única palavra. Ao longo dos dez anos que durou a doença, o meu pai escreveu um livro grande sobre as sonatas de Beethoven. Escrevia evidentemente um pouco melhor do que falava, mas mesmo ao escrever sentia cada vez mais dificuldade em encontrar as palavras, e o texto tornava-se incompreensível porque era composto por palavras inexistentes.
Um dia chamou-me ao quarto. Tinha aberto sobre o piano as variações da Opus 111. Disse-me «Olha» mostrando a partitura (já não podia tocar piano), mas repetiu «olha» e conseguiu ainda dizer depois de um longo esforço: «Agora sei!» e continuava a tentar explicar-me algo que era importante, mas a mensagem era composta por palavras completamente incompreensíveis e, ao ver que eu não o percebia, olhou-me surpreendido e disse: «É estranho.»
Claro que sei do que ele queria falar, porque já há muito tempo que colocava a si próprio a questão. As variações eram a forma favorita de Beethoven no período final da sua vida. Podia pensar-se, à primeira vista que é a forma mais superficial, uma simples demonstração de técnica musical, um trabalho que convém mais a uma rendeira do que a Beethoven. E Beethoven (pela primeira vez na história da música) transformou essa forma numa forma soberana, em que inscreveu as suas mais belas meditações.
Sim, é um facto bastante conhecido. Mas o meu pai queria saber como devia esse facto ser entendido. Porquê precisamente variações? Que sentido se dissimula por trás?
Foi por isso que me chamou ao quarto e me mostrou a partitura dizendo: “Agora sei!”


I know what I like (Genesis)

It's one o'clock and time for lunch,
When the sun beats down and I lie on the bench
I can always hear them talk.

There's always been Ethel:
"Jacob, wake up! You've got to tidy your room now."
And then Mister Lewis:
"Isn't it time that he was out on his own?"
Over the garden wall, two little lovebirds - coo-coo to you!
Keep them mowing blades sharp...

I know what I like, and I like what I know;
getting better in your wardrobe, stepping one beyond your show.

Sunday night, Mr Farmer called, said:
"Listen son, you're wasting your time; there's a future for you
in the fire escape trade. Come up to town!"
But I remebered a voice from the past;
"Gambling only pays when you're winning"
- I had to thank old Miss Mort for schooling a failure.
Keep them mowing blades sharp...

I know what I like, and I like what I know;
getting better in your wardrobe, stepping one beyond your show.

When the sun beats down and I lie on the bench,
I can always hear them talk.
Me, I'm just a lawnmower - you can tell me by the way I walk.


O livro do riso e do esquecimento.10 (Milan Kundera)

Sendo verdade que a história da música acabou, que restou da música? O silêncio?
Vamos lá! Há cada vez mais música, dezenas, centenas de vezes mais do que houve nas suas épocas mais gloriosas. A música sai dos alto-falantes pendurados nas paredes das casas, das terríveis máquinas sonoras instaladas nos apartamentos e nos restaurantes, dos pequenos transístores que as pessoas trazem na mão, nas ruas.
Schönberg morreu, Ellington morreu, mas a guitarra é eterna. A harmonia estereotipada, a melodia banal e o ritmo que é tanto mais lancinante quando mais monótono for, eis o que sobrou da música, eis a eternidade da música. Sobre estas simples combinações de notas todos podem confraternizar, porque é o próprio ser que nelas grita o seu rejubilante estou ali Não há comunhão mais estrepitosa e mais unânime do que a simples comunhão com o ser. É um ponto em que os Árabes se encontram com os Judeus e os Checos com os Russos. Os corpos agitam-se ao ritmo das notas, embriagados pela consciência de existir. É por isso que nenhuma obra musical de Beethoven conseguiu suscitar uma maior paixão colectiva do que aquela que é obtida através de alguns acordes uniformemente repetidos numa guitarra.
Cerca de um ano antes da morte do meu pai, dávamos o nosso passeio habitual em volta do quarteirão de casas, e chegavam-nos canções de toda a parte. Quanto mais as pessoas estavam tristes, mais os altifalantes tocavam para elas. Convidavam o país ocupado a esquecer a amargura da história e abandonar-se à alegria de viver. O meu pai parou e levantou os olhos em direcção ao aparelho de onde vinha o barulho, e senti que me queria confiar qualquer coisa muito importante. Fez um grande esforço para se concentrar, para poder exprimir o pensamento e depois disse lentamente e com dificuldade: «A futilidade da música!»
Que queria dizer com isto? Queria insultar a música que era a paixão da sua vida? Não, penso que queria dizer-me que existe um estado original da música, um estado que precede a sua história, um estado anterior à primeira interrogação, anterior à primeira reflexão, anterior ao primeiro jogo com um motivo e um tema. Neste estado primeiro da música (a música sem o pensamento) reflecte-se a futilidade consubstancial ao ser humano. Para que a música se eleve acima dessa futilidade primitiva, foi necessário o imenso esforço do espírito e do coração, e essa foi uma curva esplêndida que desviou séculos da história europeia e se apagou no topo da sua trajectória como um foguete de fogo de artifício.
A história da música é mortal, mas o idiotismo das guitarras é eterno. Hoje a música voltou ao seu estado inicial. É o estado depois da última interrogação, depois da última reflexão, o estado depois da história.
Em 1972, quando Karel Gott, cantor checo de musica pop, partiu para o estrangeiro, Husak teve medo. Escreveu-lhe imediatamente para Francoforte uma carta pessoal, da qual cito uma passagem sem inventar nada: Caro Karel não estamos zangados consigo. Volte, peço-lhe, faremos por si tudo o que quiser. Ajudá-lo-emos. Ajudar-nos-á…
Reflictam um instante nisto: Husak, sem pestanejar, deixou que migrassem médicos, sábios, astrónomos, desportistas, realizadores, cameramen, operários, engenheiros, arquitectos, historiadores, jornalistas, escritores, pintores, mas não podia suportar a ideia de que Karel Gott deixava o país. Porque Karel Gott representava a música sem memória, essa música em que estão para sempre sepultados os ossos de Beethoven e de Ellington, as cinzas da Palestrina e de Schõnberg.
O presidente do esquecimento e o idiota da música faziam par. Trabalhavam para a mesma obra. Ajudá-lo-emos, ajudar-nos-á. Não podiam passar um sem o outro.
Mas às vezes, na torre em que reina a sageza da música, o ritmo monótono do grito sem alma que nos chega do exterior e em que todos os homens são irmãos provoca-nos nostalgia. É perigoso passar o tempo todo com Beethoven, tal como são perigosas as posições privilegiadas.


Musica sarà (Laura Pausini)

Da sempre la verita sto cercando intensamente
scoprendo la mia identita dentro gli occhi della gente.
e l'emozione nasce in silenzio come la neve d'inverno
un bacio interno mi sta planando
sopra l'anima

musica sara' la forza che hai dentro
che tutta l’energia liberera
musica sara' un sole che va
per chi per chi
non ha luce

da sempre io vivo qua senza aspettarmi niente
ma credo nella volonta di chi fabbrica il presente
e la passione sorprende il tempo come una rosa d'inverno
un sogno eterno mi sta cantando dentro l'anima 

musica sara'
l’amore che hai dentro che co n la sua follia ci salvera
musica sara' la strada che va
per chi per chi
non ha pace

musica sara un grido nel vento
la musica i un idea di liberta

apre le sue immense ali e sveglia le citta
spalancando la realta
come l'alba il buio della notte

musica sara' la forza che hai dentro che tutta l’energia liberera
musica sara' un fiume che va per chi
musica sara' l’amore nel mondo che con la sua follia ci salvera
musica sara' la vita che va
per chi per chi
non ha voce 

da sempre
la verita
sto cercando
intensamente


Eles fazem-lhe saber que ainda tem cinco minutos, são os últimos cinco, para proclamar bem alto que renega tudo o que disse e fez. Conhece este tipo de negócio. Estão prontos a vender às pessoas um futuro em troca do passado. Vão obrigá-lo a falar na televisão com uma voz embargada para explicar ao povo que se enganava quando dizia que era contra a Rússia e contra os rouxinóis. Vão forçá-lo a atirar para longe a própria vida e a transformar-se numa sombra, num homem sem passado, num actor sem papel, e a transformar em sombra até a própria vida rejeitada, até esse papel abandonado pelo actor.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Lito Vitale, Jerry Goodman, Tangerine Dream, Vangelis Papathanasious

Ligações
Beatles, Jennifer Warnes, Genesis, Laura Pausini

Textos:
Milan Kundera

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012