Sons da Escrita 262

29 de Janeiro de 2010

Segundo programa do ciclo Natália Correia

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Natália Correia

Nuvens correndo num rio (Natália Correia)

Nuvens correndo num rio
Quem sabe onde vão parar?
Fantasma do meu navio
Não corras, vai devagar!

Vais por caminhos de bruma
Que são caminhos de olvido.
Não queiras, ó meu navio,
Ser um navio perdido.

Sonhos içados ao vento
Querem estrelas varejar!
Velas do meu pensamento
Aonde me quereis levar?

Não corras, ó meu navio
Navega mais devagar,
Que nuvens correndo em rio,
Quem sabe onde vão parar?

Que este destino em que venho
É uma troça tão triste;
Um navio que não tenho
Num rio que não existe.


Above the clouds (Electric Light Orchestra)

Born in the heat of the night,
Yeah when things ain't goin' right
No, no, no, no, no, no, you will remember me.

I came along to see your face,
But the only thing I got from you,
Was telling me it's fantasy,
That you would always be with me,
I can tell you that it's true
(I can tell you that it's true, oh yes it's true)
I'm waiting here,
But it's alright
(It's alright, it's alright)
But it's alright with me,
You better believe me now.
I guess it's like a mountain side,
You gotta climb it to the top,
Floating in a sea of dreams
The only thing that you can see
Is the view above the clouds
(Is the view above the clouds, above the clouds)
I'm waiting here,
But it's alright,
(It's alright, it's alright)
Still it's alright with me,
You better believe me now.


Natália Correia

Do sentimento trágico da vida (Natália Correia)

Não há revolta no homem
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.

Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.

Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.

Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.

E só depois de informado
só depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
ironia de saber
o que só então se sabe
e não se pode contar.


Tell me there’s a heaven (Chris Rea)

The little girl she said to me
What are these things that I can see
Each night when I come home from school
And mama calls me in for tea
Oh every night a baby dies
And every night a mama cries
What makes those men do what they do
To make that person black and blue
Grandpa says their happy now
They sit with God in paradise
With angels' wings and still somehow
It makes me feel like ice
Tell me there's a heaven
Tell me that it's true
Tell me there's a reason
Why I'm seeing what I do
Tell me there's a heaven
Where all those people go
Tell me they're all happy now
Papa tell me that it's so
So do I tell her that it's true
That there's a place for me and you
Where hungry children smile and say
We wouldn't have no other way
That every painful crack of bones
Is a step along the way
Every wrong done is a game plan
To that great and joyful day
And I'm looking at the father and the son
And I'm looking at the mother and the daughter
And I'm watching them in tears of pain
And I'm watching them suffer
Don't tell that little girl
Tell me
Tell me there's a heaven
Tell me that it's true
Tell me there's a reason
Why I'm seeing what I do
Tell me there's a heaven
Where all those people go
Tell me they're all happy now
Papa tell me that it's so


Natália Correia

Língua Mater dolorosa (Natália Correia)

Tu que foste do Lácio a flor do pinho
dos trovadores a leda a bem-talhada
de oito séculos a cal o pão e o vinho
de Luís Vaz a chama joalhada 

tu o casulo o vaso o ventre o ninho
e que sôbolos rios pendurada
foste a harpa lunar do peregrino
tu que depois de ti não há mais nada, 

eis-te bobo da corja coribântica:
a canalha apedreja-te a semântica
e os teus verbos feridos vão de maca. 

Já na glote és cascalho és malho és míngua,
de brisa barco e bronze foste a língua;
língua serás ainda... mas de vaca.


Língua (Caetano Veloso)

Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
"Minha pátria é minha língua"
Fala Mangueira! Fala!

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas!
Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E – xeque-mate – explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Lobo do lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em ã
De coisas como rã e ímã
Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé
e Maria da Fé

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?
Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo
A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria, tenho mátria
E quero frátria
Poesia concreta, prosa caótica
Ótica futura
Samba-rap, chic-left com banana
(– Será que ele está no Pão de Açúcar?
– Tá craude brô
– Você e tu
– Lhe amo
– Qué queu te faço, nego?
– Bote ligeiro!
– Ma’de brinquinho, Ricardo!? Teu tio vai ficar desesperado!
– Ó Tavinho, põe camisola pra dentro, assim mais pareces um espantalho!
– I like to spend some time in Mozambique
– Arigatô, arigatô!)
Nós canto-falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixa que digam, que pensem, que falem


Pusemos tanto azul nessa distância
ancorada em incerta claridade
e ficamos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.

Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Camel, Greg Williams, Bill Rhodes

Ligações
Electric Light Orchestra, Chris Rea, Caetano Veloso

Textos:
Natália Correia

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012