Sons da Escrita 344

28 de Maio de 2011

Segundo programa do ciclo Natércia Freire

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Natércia Freire

Na penumbra amável

Na penumbra amável, são os bons sorrisos.
— Senhor para aqui, Senhor para além...
Por dentro do peito, guizos e mais guizos.
Solidão que vai, solidão que vem.

Para me acompanhar, para não morrer,
vou encher de amor toda a sala nua,
inundar o espaço de asas e de abraços.
Não te lembras, já, de viver na Lua?

Chega a louca e traz, numa tábua tosca,
escrita a letras finas de corcéis e magas,
uma história em fonte, que descia fosca,
de paisagens lentas de memórias vagas.

Rasgam-se no espaço grades de outros Dias,
abrem-se no céu gritos de outros mares,
— grades, gritos, ondas, longas agonias,
grades, livres, ares.

Mando a louca embora, quero-me deitar.
Vai-se a louca embora, cerra o nevoeiro.
Esqueço-me da Morte, ponho-me a chorar:
- Meu amor primeiro, meu amor primeiro.


Shadowside (A-Ha)

The shadowside
You say I have
Is making everything
Go bad

You say I don’t
Care enough
For all the things that
I have got

But I do
And I will

I don’t want to see myself descend
Into the shadowside again
If you ever let me go again,
In the shadowside I’ll end

The shadowside
Where I go
I’m never where
I’m needed so

You say I don’t
Give enough
That I don’t care for
All I’ve got

But I do
And I will

I don’t want to let myself descend
Into the shadowside again
If you’re letting go of me again,
In the shadowside I’ll end


Natércia Freire

Os suspeitos

Quem suspeitar do amor
Com filiformes sedas
E veias incorruptas
E prolongadas fontes,
Quem suspeitar da luz
Na doce obscuridade
Informe a autoridade.

Quem suspeitar da fome
À mesa reluzente.
Quem suspeitar da Cruz
Entre a família ausente.
Quem suspeitar da sede
Por dentro da amizade
Informe a autoridade.

Quem suspeitar que há laços
De bíblicas imagens.
Lázaro ao nosso lado.
Novas ressurreições.
E Cristo no pecado
E romanas miragens

Nos circos, nos algozes,
Coroados de louros.

Quem suspeitar da esperança,
No átrio da memória
Da imensa liberdade
Que o suicídio evade,
Informe a autoridade.

E o mais suspeito vem
Bater à noite morta.
Traz nos dedos de garras
Sangrando, um coração.
Gota a gota, nos lábios
O futuro da Vida ,
Canta no espaço humano
A enorme transfusão.

Na eterna leucemia
Do renovado dia
Apavora o suspeIto
A paz do hospital.

Branco, branco o elemento
Que embala o pensamento.
— Mas sonho sonolento.
Mas subtil caridade —

Ao vampiro do Tempo
Impõe a edilidade
Que o conselho dos velhos
Informe a autoridade...

A multidão das sombras
As hostes das visões
Computadores cruéis
Mais os homens robots
Instalaram nos lares
Ouvidos e espiões.

Em corações de corda
Em frios corações
Deitaram a paixão.
— Trituram as paixões.

Mas o massacre aguarda
As ordens implacáveis.

Quem suspeitar do amor
Em filiformes sedas.
Quem suspeitar da sede
Por dentro da amizade.
Quem suspeitar da esperança
No átrio da memória,
Da imensa liberdade
Que o suicídio evade,

Quem suspeitar de Cristo
Em sóis quotidianos

No peito lacerado
Aberto ao companheiro,
E quem quiser dizer
O que dizer não há-de,
Avise a autoridade.


Suspicious minds (Elvis Presley)

We're caught in a trap
I can't walk out
Because I love you too much baby

Why can't you see
What you're doin' to me
When you don't believe a word I say?

We can't go on together
With suspicious minds (Suspicious minds)
And we can't build our dreams
On suspicious minds

So, if an old friend I know
Drops by to say hello
Would I still see suspicion in your eyes?

Here we go again
Askin' where I've been
You can't see these tears are real
I'm cryin' (Yes, I'm cryin')

We can't go on together
With suspicious minds (Suspicious minds)
And we can't build our dreams
On suspicious minds

Oh let our love survive
Ah dry the tears from your eyes
Let's don't let a good thing die

When honey, you know
I've never lied to you
Mm, mm, mm, mm, mm
Yeah, yeah

We're caught in a trap
I can't walk out
Because I love you too much baby

Why can't you see
What you're doin' to me
When you don't believe a word I say?

Now don't you know I'm
Caught in a trap
I can't walk out
Because I love you too much baby


Natércia Freire

Agiotas

Tempo de compras e vendas.
Tempo de vendas e compras.
Ai perfil, tempo de lendas
Ai Tempo, perfil de sombras.

As vendas dão suas rendas.
As rendas dão suas compras.
E o que se compra com lendas
Vende-se em somas redondas.

Lembra-te morte das vendas
Das ofertas que não compras
Abre as cortinas. Arreda
Tuas clareiras sem sombras,

Por um espaço que desvendas.
Pelas misérias que sondas
Nos crimes dos camaradas
Que assinam, por sobre as ondas
Do amor, fuzilamentos,
Deportações, hediondas
Assinaturas de vendas
Ao preço de suas compras.

Pois que dormes, não acordas.
Mas se acordas, não entendas
O longo soar das cordas
O longo fluir das lendas.

Pois se entendes, paira em sombras.
Pois se os entendes, não vendas
À Poesia de imaturos
A Poesia dos mais puros.
Pois se os entendes, não vendas
Aos irmãos dos assassinos,
A poesia dos meninos.

Ó Morte que és imortal
E tens um reino sem Tempo
E separas a verdade
Da mentira a fogo lento,
Tu que segues fascinada
Os dias aventureiros,
Te deitas com os amantes
E com os santos primeiros,
Tu que possuis, possuída
Pela vida a tua morte,
Pela morte a tua vida,
Traça, no ar, os sinais
Dessas fugazes histórias.
Esconjura, ao som de metais,
Vermes, vómitos, vitórias
Desses anões ancestrais
Mercadores de velhos cais
Mas marinheiros jamais!
Agiotas, agiotas.


The man who sold the world (Nuno Norte)

We passed upon the stair, we spoke in was and when
Although I wasn't there, he said I was his friend
Which came as a surprise, I spoke into his eyes
I thought you died alone, a long long time ago

Oh no, not me
We never lost control
You're face to face
With The Man Who Sold The World

I laughed and shook his hand, and made my way back home
I searched for a foreign land, for years and years I roamed
I gazed a gazeless stare, we walked a million hills
I must have died alone, a long long time ago

Who knows? Not me
I never lost control
You're face to face
With the Man who Sold the World

Who knows? not me
We never lost control
You're face to face
With the Man who Sold the World


Logo que nasci
Foi-me dada ordem
De me procurar.
Logo assim e aqui
Não vou ter descanso
Em nenhum lugar


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
John Adorney

Ligações
A-Ha, Elvis Presley, Nuno Norte

Textos:
Natércia Freire

Edição e voz:
José-António Moreira

© José-António Moreira 2012