Sons da Escrita 345

4 de Junho de 2011

Terceiro programa do ciclo Natércia Freire

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Natércia Freire

Presença de Ulisses

Procuro-te, Espírito do Luar, Espírito do Silêncio, Corpo de Transparência, Água de verdes Mistérios, Estrela poisada no Mar. Procuro-te e chamo pelo teu nome no corredor das rochas que navega de proa à Lua entre duas praias adormecidas que Ulisses visita sempre que sonha regressar à Terra... Nas grutas, onde o mar armou os seus esconderijos, esperam-no os companheiros e os amigos. Há longos séculos. Nos gemidos dos búzios lhes ficou a antiga voz. A saudade das ondas nos humanos rochedos. Procuro-te neles.

— Procuro-te nos peixes cintilantes do Vento que vem correndo sobre a água arrepiada e vão submergir-se nela como em abismos, ante os olhos vazios de pescadores de corpos de esmeralda. Procuro-te porque te amo e há um ror de tempo que não me visitas.

— Procuro-te nos sonhos e nos sonos dos seres desconhecidos que habitam todas estas casas deslumbrantes de cal e dormem sob o signo da Virgem — uma — Virgem de pescadores que sobe para o céu entre barcos e remos, anjos de rostos redondos e nuvens que parecem ondas.

— A esta hora da noite as arcadas do Mar abrem-se numa semi-obscuridade que o luar amacia. Em todas elas vejo Ulisses, saudoso de Ítaca e ao mesmo tempo pesaroso por ter de voltar. Os olhos dos rochedos informam os deuses, que ali espreitam, de que os homens se aproximam cada vez mais dos seus reinos.

Este é o Mar, esta é a terra, esta é a noite que os navegantes demandam. Não existe o Tempo. Na sombra de uma platibanda circular que se suspense nas águas, há duas velhas embiocadas, com órbitas de coruja e que eu já vi num quadro de Goya. Estão perfiladas na mesma direcção, o braço direito dirigido para a frente. Nesse braço há qualquer coisa do impulso e do ritmo que os Egípcios imprimiram aos guerreiros dos seus relevos.

— A Água parece vidro. E os jardins submarinos, as cavernas submarinas desenham-se como um apelo. No céu, tão claro, parece que vai amanhecer. Sob este solo, dentro de qualquer destas grutas, Ulisses canta. Esta já foi um dia a sua terra, o seu país de homem.

— Sabes, Homero, que Ulisses nasceu nas águas azuis deste Algarve, mais azuis que as de Mitilene, mais tranquilas que as do Mar Tirreno? Sabes que Penélope afeiçoou a sua ardente passividade com as mulheres da Península, há muito, muito tempo?

— A noite enorme do Mar está impregnada de Ulisses. O esplendor da Córcira, onde se celebrou um dia a sua chegada, ergue-se e brilha, sobre as ondas, frente ao pequeno promontório onde me debruço. Os seus olhos de adivinho estão espelhados em tudo que é mistério e são fósforos acesos que bailam, sem lugar fixo nos postigos de grés, nos barcos do largo, na crista das arribas. Voejam como aves de luz, sábios e pungentes no Tempo sem divisões.

— Foi aqui que o amor prendeu Ulisses e ia perdendo Ulisses. Foi numa noite assim que as sereias cantaram para Ulisses. Mas não persistas, não fiques. Não navegues nas madrugadas, em quadrigas de sol, com a pele doirada de perfumes, vestido de teias luminosas, herói das Pátrias do Mar.

— Procuro-te porque os Poetas não gostam de encontrar. São Poetas porque a Poesia lhes foge. Foge, Ulisses. Procuro-te, Poesia.


Searchin’ (Carlos Santana)

Searchin', I'm always searchin'
Searchin' for my beloved
I'm gonna keep on searchin' ‘cause
I need your love, yea
Listen, my heart is callin'
Longing to have you near me
Please believe me what I'm sayin'
is true
Every morning I wake up to you
Searchin', searchin', searchin',
searchin'
Every night my thoughts return to
calling you
Lover, don't keep me waiting
You must hear what I'm saying
I'm gonna keep on searchin' till I win
your love
I can almost hear her gentle voice
Searchin', searchin', searchin',
searchin'
I can almost hear her smile of light
Searchin', searchin', searchin',
searchin'
I can almost feel the love reach out
to me


Natércia Freire

Nada que tive era meu

Nada que tive era meu.
Perdi estradas, perdi leito.
Na pedra onde me deito
nada fala de alvos linhos.
Se, com cegos, me aventuro,
a caminhar rente aos muros,
é que meus olhos impuros
sonham Cristo nos caminhos.

Nada que tive era meu
e o corpo não o quero eu.
Podia servir de embalo,
mas serve de sepultura.

Cemitério de asas finas,
tange e plange aladas crinas,
canto de praias sulinas
de infinitas amarguras...


I me mine (Beatles)

All thru' the day I me mine, I me mine, I me mine.
All thru' the night I me mine, I me mine, I me mine.
Now they're frightened of leaving it
Ev'ryone's weaving it,
Coming on strong all the time,
All thru' the day I me mine.

I-I-me-me mine,
I-I-me-me mine,
I-I-me-me mine,
I-I-me-me mine.

All I can hear I me mine, I me mine, I me mine.
Even those tears I me mine, I me mine, I me mine.
No-one's frightened of playing it
Ev'ryone's saying it,
Flowing more freely than wine,
All thru' Your life, I me mine.

I-I-me-me mine,
I-I-me-me mine,
I-I-me-me mine,
I-I-me-me mine.

All I can hear I me mine, I me mine, I me mine.
Even those tears I me mine, I me mine, I me mine.
No-one's frightened of playing it
Ev'ryone's saying it,
Flowing more freely than wine,
All thru' your life I me mine.


Natércia Freire

A morte de calar

As viagens que sou prenderam-se em redomas
Ao corpo das palavras. À morte de calar.
Do alfabeto meu ignoro as cristalinas
Formas de aladas letras nestes versos finais.
São fantasmas de sol. São fantasmas de sede
Que chegam alta noite para nenhum lugar.

Decifro nas entranhas das trevas migradoras
O solstício da vida além da morte clara.
Mas quem me vem cegar, com setas voadoras
Nega-me agora a paz das secretas paisagens.

Meus Irmãos de astronaves, guiadas por um morto,
Que me esperam e estão, que me cantam e falam.
Que na vazia Cruz crucificam meu corpo
E abandonam a flor, mesmo a meio da sala.
À janela rasgada, para as cinzentas águas,
Encostam-me, sem olhos, e deixam-me ficar.

Não tenho nada mais a escrever sobre as ondas.
E mesmo que tivesse, ninguém leria o mar.


Beyond the sea (Robbie Williams)

Somewhere beyond the sea,
Somewhere waiting for me,
My lover stands on golden sands
And watches the ships that go sailing.

Somewhere beyond the sea
She's there watching for me.
If I could fly like birds on high
Then straight to her arms I'd go sailing

It's far beyond the star,
It's near beyond the moon.
I know beyond a doubt
My heart will lead me there soon

We'll meet beyond the shore
We'll kiss just like before
And happy we'll be beyond the sea
And never again I'll go sailing

I know beyond a doubt
My heart will lead me there soon
We'll meet, I know, we'll meet beyond the shore
We'll kiss just as before
And happy we will be beyond the sea
And never again I'll go sailing

No more sailing
So long, sailing, sailing, no more sailing

Good-bye, farewell my friend, no more sailing

So long sailing, no more sailing

No more, farewell...

No more sailing


Por visitar a Lua recebe-se a Loucura.
Por visitar a Luz, recebe-se a cegueira.

É preciso dormir como quem apodrece
E sossegar no pó, sem pena de ser só.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Michael Garrison

Ligações
Carlos Santana, Beatles, Robbie Williams

Textos:
Natércia Freire

Edição e voz:
José-António Moreira

© José-António Moreira 2012