Sons da Escrita 385

10 de Março de 2012

Primeiro programa do ciclo Nuno Dempster

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Nuno Dempster

Foz do Douro

Quando penso nas ruas em que andei,
nas ruas das cidades onde já vivi
e recordo as janelas
que guiaram o meu caminho
justamente à hora tardia
de escrever estes versos sem dedicatória,
os olhos endurecem-me,
e sinto que não tenho uma cidade
a que pertença inteiro e possa
dedicar-lhe palavras
de modo tão fiel como os choupos repartem
o sol com os seus bairros;
desconheço se o tempo altera os genes:
a ilha onde nasci
não é minha senão no sangue
de capitães distantes
que meu pai garantia correr-me nas veias,
e o rio que foi meu, o rio largo, mar
onde aquele que eu era mergulhou,
essa ilha afundou-se sem a ver,
esse rio não corre mais,
e, às vezes, quando passo para norte
e o vejo, não o tenho, é outro rio.
Se vivesse nas suas margens,
o exílio não havia de surgir,
seria o velho rio que hoje flui ausente
na memória despida de sinais
e apinhada de rostos mudos,
de mortos e de amigos que partiram,
deixando as margens, antes povoadas,
desertas como o exílio que esvazia
o cenário de acenos e retratos
nas folhas de um jornal lidas há muito.


Miradouro (Júlio Pereira)

(instrumental)


Nuno Dempster

De um almoço

Uns comiam arroz de cabidela,
grande parte comia-o de sardinha,
lembrando-se do tempo de miséria
como se fosse o seu século de ouro.
Todos bebiam vinho como loucos,
o bom vinho das vinhas cintilantes
que lá fora gritavam de calor.
Passou de vinte e cinco litros, disse
o dono da taberna onde se almoça
por cinco euros com tinto à descrição.
A ninguém lembrou, só a mim depois,
que o vento escavaria os nossos rostos.
Pertencíamos às vinhas e ao sol,
naquele momento éramos eternos.
Mas daqui a mil anos, quem dirá
que estiveram por entre aquelas pedras
uns tipos a beber, desesperados?


Last drink (Chris Rea)

Wherever I roam
Wherever I go
They'll always be
A smile that I know
At the calling of time
And the last one is here
My lips kiss the glass
And I feel your soul near
Wherever I go
Whatever I do
My last drink is always
Always for you 

There'll always be time
Time for "the one"
They'll always be reasons
Before the last one is gone
So my lips the glass
For the good times we knew
And my last drink is always
Always for you 

A glass that is full
Is how I see me and you
So I'll smile while drink it
Let tomorrow shine through
My lips kiss the glass
To the good times we knew
And my last drink is always
Always for you


Nuno Dempster

Três da tarde

O sol cintila Agosto nas vidraças
e o respirar das ondas sobreleva
o ruído das lanchas mar afora
e o tempo é o areal a arder.
A memória imprecisa
alaga-me, maré lenta de sono
que me leva sem me ir daqui,
e na luz flutuante
mergulho o rosto, o mar,
e as lembranças diluem-se na ausência
de passado e futuro.
Já os carros não se ouvem
nem as crianças gritam
ou levantam na praia os seus castelos,
nem a mulher que vi de manhã cedo
caminha nua junto ao mar.
Somente o som das ondas
habita a praia e faz-me pressentir,
na vaga consciência do seu ritmo,
que os relógios de areia se entornaram
e os dias são alheios ou não existem.


Sunny afternoon (Kinks)

The tax man's taken all my DOUGH,
And left me in my stately home,
Lazing on a sunny afternoon.
And I can't sail my yacht,
He's taken everything I've got,
All I've got's this sunny afternoon. 

Save me, save me, save me from this squeeze.
I got a big fat mama trying to break me.
And I love to live so pleasantly,
Live this life of luxury,
Lazing on a sunny afternoon.
In the summertime
In the summertime
In the summertime 

My girlfriend's run off with my car,
And gone back to her ma and pa,
Telling tales of drunkenness and cruelty.
Now I'm sitting here,
Sipping at my ice cool beer,
Lazing on a sunny afternoon. 

Help me, help me, help me sail away,
Well give me two good reasons why I oughta stay.
'Cause I love to live so pleasantly,
Live this life of luxury,
Lazing on a sunny afternoon.
In the summertime
In the summertime
In the summertime 

Ah, save me, save me, save me from this squeeze.
I got a big fat mama trying to break me.
And I love to live so pleasantly,
Live this life of luxury,
Lazing on a sunny afternoon.
In the summertime
In the summertime
In the summertime


Talvez a eternidade seja ficar nas dunas,
esvaindo as lembranças pouco a pouco,
e os símbolos da infância e do amor
irem cessando até que convocá-los
se torne o céu que absortos olhos fitam.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Enya

Ligações
Julio Pereira, Chris Rea, Kinks

Textos:
Nuno Dempster

Edição e voz:
José-António Moreira

© José-António Moreira 2012