Sons da Escrita 387

24 de Março de 2012

Terceiro programa do ciclo Nuno Dempster

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


•••

Nuno Dempster

Que sabia eu

Que sabia eu do cais de Alcântara
que não tivesse lido
em romances de guerra?

O certo é que vivia mergulhado
numa nuvem de sol,

poalha de luz em volta do meu corpo,
que obliterava o cérebro,
fototropismo
que me tinha levado a versos
alheios ao que fosse
caminho,

hoje nem sei como eram,
foram-se na voragem
de cidades perdidas
que me trouxe a este início.

Que importa?

Os versos serão sempre
mais do que os mortos
e têm vida curta,
nem sequer me recordo se em algum
nomeei a Estação Marítima de Alcântara.

É desse cais que evoco a multidão
com lenços brancos
e o súbito rasgar de um choro
que fez levantar mães e raparigas
de sob a mole,

e a arrastou e moveu em uma onda,
derrubando cancelas
e estremecendo o barco,

enquanto dois carros de combate
vieram colocar-se
em frente do costado do navio,

e panfletos voavam,
e paisanos corriam atrás deles,

berravam e batiam
entre o tumultuar da gente,

e sombras escapavam,

já os folhetos estavam recolhidos,
e a multidão, contida por uzis em riste
e carabinas com mira telescópica
no terraço dos prédios,

e nós quase chorávamos,
na aflição e no pasmo que afastavam

uma revolta a bordo como aquela
de que há notícia
Fernão Magalhães ter dominado.

Não me ocorre que alguém tenha filmado
uma partida assim,
as amarras de um barco que se rompem
e os soldados a ver, atónitos,
a alteração dos seus na despedida,

e, mesmo que o tivessem feito,
como quereria eu saber do filme
se estava nele
e se, confuso,
sentia o sangue de a vida não ter prazo
e, em queda, a eternidade de ser jovem
com a morte adiante,
que um grito colectivo rasurara,

(…)

Lembro-me de Zurara,
do primeiro mercado em Lagos,
onde todos choravam, cativos e habitantes,
a crónica em que iríamos entrar
e revolver as páginas,
herdeiros de naufrágios e zagaias,
devedores de juros ao ínclito Infante,
de juros sobre juros
acumulados há seiscentos anos,
a morte antiga à nossa espera,

e a banda militar
que veio serenar a gente,
julgo que tocavam hino,

só podia ser o hino,
afinal com que música
se inventam inimigos
e fins se justificam?


If I didn’t know any better (Alison Krauss)

I turned around
Before I could run
I found you already settled down
In the back of my mind
I know this is just a customary fever
The moon is our deceiver
That will leave you running blind
 
Your heart is pullin'
If I didn't know any better
I'd be fallin deeper and deeper it's true
I'd hear it callin'
If I didn't know any better
And I'd be in love with you
 
Didn't want to
The look in the eyes of the one that
I would be drawn too
I'm a moth lost in a fire
And I know this
Is just a beautiful illusion
A case of the confusion
Between love and desire
 
Your heart is pullin'
If I didn't know any better
I'd be fallin deeper and deeper it's true
I'd hear it callin'
If I didn't know any better
 
And I'd be in love
When the flame burns out
If finally settles down
And you forget
I ever came around
 
Your heart is pullin'
If I didn't know any better
I'd be fallin deeper and deeper it's true
I'd hear it callin'
If I didn't know any better
And I'd be in love with you
 
I turned around
Before I could run
I found you already settled down
In the back of my mind


Nuno Dempster

Eram quinze soldados

Eram quinze soldados
e o capitão
arrancado a um liceu,
e os soldados, a cerros e vielas
de cidades decrépitas,
todos subiram no ar,
os corpos de lava acesa,

e caíram no meu peito, recordo
o fragor que deixaram
e que ficou guardado,
para que hoje o livrasse,

entre o estupor das caras e o vaivém
dos helicópteros,
as macas e o pousar das moscas
que sorviam o sangue
e, por cima, os gemidos,
aquele rouquejar:
«Água, água, traz-me água»,
era a sede final das veias secas,

e alguns de nós acorriam com cantis,
sem escutar mais nada
do que a voz dos pulmões arruinados,

na insegurança do ar que respirávamos,
as nuvens de mosquitos em redor,
e o cheiro das acácias e explosivos
vomitados de angústia,

éramos todos órfãos:

Senhor, dizei uma só palavra
e a minha vida será salva,

e o Senhor não dizia nada,
e todos insistiam em crer nele”


Soldier of fortune (Deep Purple)

I have often told you stories about the way
I lived the life of a drifter waiting for the day
When I'd take your hand and sing you songs
And may be you would say
Come lay with me and love me
And I would surely stay
 
But I feel I'm growing older
And the songs that I have sung
Echo in the distance
Like the sound
Of a windmill going round
Guess I'll always be
A soldier of fortune.
 
Many times I've been a traveller
I looked for something new
In days of old when nights were cold
I wandered without you
Those days I thought my eyes
Had seen you standing near
Though blindness is confusing
It shows that you're not here.
 
Now I feel I'm growing older
And the songs that I have sung
Echo in the distance
Like the sound
Of a windmill going round
Guess I'll always be
A soldier of fortune
 
Yes, I can hear the sound
of a windmill going round
I guess I'll always be
a soldier of fortune.
I guess I'll always be
a soldier of fortune.


Nuno Dempster

Lutávamos contra a morte

Lutávamos contra a morte,
afinal invasores
evadidos à força de um país,
embarcados a monte no paquete
que viria a finar-se
de ferrugem e artrite
no Mar da Palha.

Sei que depois a vida se guiou
por sendas com origem
na solidão da mata
e do céu implacável,
a que se acresceu nova solidão,
a dos aerogramas que enviava
sem esperar resposta,

ó infância feliz noutra floresta,
a dos pinhais e silvas
que desciam até ao Douro em sua foz,
eu era aqueles putos negros
de olhar astuto
no K3 e agora em Colibuia.

Não cheguei a saber ao certo,
com que brincavam,
rir, riam,
e corriam uns atrás dos outros
com G3 que eram paus,
treinavam para adultos,
treinavam para a morte,
a barriga da fome, a hérnia do umbigo,

possivelmente choravam de noite
com a mãe que também chorava
às escondidas deles.

E chega-me esta gente como um peso,
não me sai da lembrança,
não me sai do poema,
acompanhou-me oculta até hoje,
um crime por julgar
que eu deveria ter testemunhado
num tribunal que sei não existir
para pobreza tão funda.


Soldier’s things (Tom Waits)

Davenports and kettle drums
and swallow tail coats
table cloths and patent leather shoes
bathing suits and bowling balls
and clarinets and rings
and all this radio really
needs is a fuse
a tinker, a tailor
a soldier's things
his rifle, his boots full of rocks
and this one is for bravery
and this one is for me
and everything's a dollar
in this box
 
Cuff links and hub caps
trophies and paperbacks
it's good transportation
but the brakes aren't so hot
neck tie and boxing gloves
this jackknife is rusted
you can pound that dent out
on the hood
a tinker, a tailor
a soldier's things
his rifle, his boots full of rocks
oh and this one is for bravery
and this one is for me
and everything's a dollar
in this box


(…)
e não sei de ninguém
que cale esta viagem
nas cabeças dementes e na minha,
e possa devolver os pássaros
aos choupos;
e o vagaroso ritmo às colheitas;
e a inteireza do lódão
aos homens


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Vangelis

Ligações
Alison Krauss, Deep Purple, Tom Waits

Textos:
Nuno Dempster

Edição e voz:
José-António Moreira

© José-António Moreira 2012