Sons da Escrita 388

31 de Março de 2012

Quarto programa do ciclo Nuno Dempster

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Nuno Dempster

Posso ver

Posso ver, inclinados sobre Inês,
os vultos que na noite de outro tempo
escreviam com forma e tom diversos,
porque deste futuro não sabiam
o modo e sua cor, nem o ruído
de máquinas velozes a marcar
a urgência da denúncia que me bate
nas têmporas, aviso para a luz
nascente das palavras irreais
do palimpsesto, em cujo pergaminho
os vultos escreviam sem ter dúvidas,
pois nada se mudava nos seus anos.


I can’t see nobody (Bee Gees)

I walk the lonely streets; I watch the people passing by.
I used to smile and say hello. guess I was just a happy guy.
Then you happened,girl, this feeling that posessses me.
I just can't move myself. I guess it all just had to be.

I can't see nobody...no, I can't see nobody.
Mine eyes can only look at you...you.

I used to have a brain; I used to think of many things.
I watched the falling rain and listened to the sweet birds sing.
Don't ask me why, little girl. I love you and that's all I can say.
Youre evry ,evry breath I take.you are my nights; my night and day.

Every single word you hear...is coming from this heart of mine.
I never felt like this before...a love like yours so young and fine.
And now as I try to forget you...it doesnt't't't work out any way.
I loved you such a long time ago...but in my eyes you'll always be.
Every single word you hear...is coming from this heart of mine.
I loved you such a long time ago...don't know why...
And I don't know why...baby...


Nuno Dempster

Talvez houvesse rosas

Talvez houvesse rosas de Isabel
que Inês mudasse em outro paraíso,
andar por entre flores e pousar
a vista em coisas mínimas, pensar
que Pedro viria à noite, ou apenas
sentir o ventre ainda sossegado,
que assim melhor se vive, sem a culpa
magoar, como a cruz feria o deus
e a excomunhão dos bispos recordava.
Nada disto, porém, é verdadeiro.
Cenários apagados, tudo longe,
em ruínas o paço: uma janela.
A História só escreve equações,
da vida interior nada se lê.
Perdeu-se Inês nos campos do Mondego,
e agora recriamo-la, poesia
que se gera em sentido inverso à vida:
Inês, num paraíso que não há,
caminha virtual entre poemas.


Where the wild roses grow (Nick Cave e Kylie Minogue)

They call me the wild rose
But my name was Eliza Day
Why they call me it I do not know
For my name was Eliza Day

From the first day I saw her I knew she was the one
As she stared in my eyes and smiled
For her lips were the colour of the roses
That grew down the river, all bloody and wild

When he knocked on the door and entered the room
My trembling subsided in his sure embrace
He would be my first man, and with a careful hand
He wiped at the tears that ran down my face

They call me the wild rose
But my name was Eliza Day
Why they call me it I do not know
For my name was Eliza Day

On the second day I brought her a flower
She was more beautiful than any woman I'd seen
I said, "Do you know where the wild roses grow
So sweet and scarlet and free?"

On the second day he came with a single red rose
Said, "Will you give me your loss and your sorrow?"
I nodded my head as I lay on the bed
He said, "If I show you the roses will you follow?"

They call me the wild rose
But my name was Eliza Day
Why they call me it I do not know
For my name was Eliza Day

On the third day he took me to the river
He showed me the roses and we kissed
And the last thing I heard was a muttered word
As he stood smiling above me with a rock in his fist

On the last day I took her to where the wild roses grow
And she lay on the bank, the wilnd light as a thief
As I kissed her goodbye I said, "All beauty must die"
And lent down and planted a rose between her teeth

They call me the wild rose
But my name was Eliza Day
Why they call me it I do not know
For my name was Eliza Day


Nuno Dempster

Antemanhãs como essa

Antemanhãs como essa, em que assassinos
avançam para o sangue no silêncio
frio da noite, tem havido tantas
que já nem se ouve o grito degolado
com que a vida termina de repente.
Há muito se tornaram em costume.
Assim Inês, assim os outros todos
que a História não regista. Todavia,
vivemos sobre mortos que nos gritam
quando acordam. Inês e Lorca gritam
(«Se levio, caminando entre fusiles»),
grita ainda no Prado o homem de Goya,
longos versos de Sena aos fuzilados.
Revolvo-me ao ouvi-los, Inês bela.
não conheço justiça que os redima,
e, com eles, os outros mortos todos
que nenhum deus salvou da madrugada.

Separados por séculos de nada,
semelhante ao que as ruas vão deixando
como um rasto até à última curva,
de vez em quando Pedro e Inês cintilam
e salvam da igualdade humana e pobre
um ou outro clarão inesperado.


At the sunrise (Chicago)

How could I be happy
Without her by my side
Without her smiling face
At the sunrise?

How could I keep living
With emptiness inside
With no one there to touch
At the sunrise?

She gave meaning to my words
She helped me find my way

The time I had to leave her
Leave her all alone
The way she looked at me
Made me cry

I know she understands me
She knows I'm feelin' bad
Until I'm back beside her
At the sunrise


Separados por séculos de nada,
semelhante ao que as ruas vão deixando
como um rasto até à última curva,
de vez em quando Pedro e Inês cintilam
e salvam da igualdade humana e pobre
um ou outro clarão inesperado.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Secret Garden

Ligações
Bee Gees, Nick Cave e Kylie Minogue, Chicago

Textos:
Nuno Dempster

Edição e voz:
José-António Moreira

© José-António Moreira 2012