Sons da Escrita 180

11 de Julho de 2008

Primeiro programa do ciclo Nuno Júdice

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Nuno Júdice

A voz (Nuno Júdice)

E de súbito a voz: a voz límpida, a eclosão
matinal, o grito e o choro, o riso e o canto — as palavras
inúteis da confissão e do murmúrio,
as explicações absurdas, o raciocínio por dentro
das frases que não ouço. Essa voz: a luz inesperada
de certas palavras, o poema, a prosa, a fuga
dos sentidos, a alegria dos ecos, o timbre
que atravessa os vidros, janelas, jarros, espelhos,
cristais, e se perde numa suspensão de vogais,
num átrio de consoantes, num suor de
sílabas. A voz profunda dos poços, a voz
superficial das fontes, a voz de reflexo
dos charcos, a voz branda da chuva; todas as vozes
que me ensinaram todos os silêncios se juntam
na tua voz. E é a voz súbita que me chama,
de dentro dos quartos e das salas, sobre as árvores
e os canteiros, num recanto de muro,
do fundo das pedras. Uma voz de terra e de água, acendendo
o último fogo da vida, enchendo o ar
que respiro.


Voices (Cheap Trick)

You didn't know what you were looking for
'Till you heard the voices in your ear.

Hey, it's me again.
Plain, you see again.
Please, can I see you ev'ry day?
I'm a fool again.
I fell in love with you again.
Please, can I see you ev'ry day?

You didn't know what you were looking for
'Till you heard the voices in your ear.
You didn't know what you were looking for
'Till you heard the voices in your ear.

Words don't come out right.
I tried to say it, oh, so right.
I hope you understand my meaning.
Hey, it's me again.
I'm so in love with you again.
Please, can I see you ev'ry day?

You didn't know what you were looking for
'Till you heard the voices in your ear.
You didn't know what you were looking for
'Till you heard the voices in your ear.

I remember ev'ry word you said. (Word you said.)
I remember voices in my head. (In my head.)
I remember ev'ry word you said. (Word you said.)

Your voices. (I)
Cool voices. (hear)
Warm voices. (your)
It was just what I needed to. (voice.)

Cool voices. (Words)
Warm voices. (don't)
Your voices. (seem)
But it's just what I needed for. (right.)

Warm voices. (Love)
Your voices. (is)
Cool voices. (the)
It was just what I needed to. (word.)

Your voices. (I)
Cool voices. (hear)
Warm voices. (your)
It was just what I needed to. (voice.)
Just what I needed to, just what I needed to,
just what I needed.

You didn't know what you were looking for
'Till you heard the voices in your ear.
You didn't know what you were looking for
'Till you heard the voices in your ear.


Nuno Júdice

O lugar das coisas (Nuno Júdice)

Gosto das palavras exactas, as que acertam
com o centro das coisas, e quando as encontro
é como se as coisas saíssem de dentro delas.

Essas palavras são duras como os objectos
que designam, pedra, tronco, ferro, o vidro
de espelhos quebrados com o calor da tarde.

Tento incendiá-las quando escrevo, como se
o fogo saísse de dentro da frase, e se espalhasse
pelo campo da página numa devastação de sílabas.

Então, atiro sobre as palavras outras palavras,
água, pó, terra, o ar seco do verão, para que a voz
não fique queimada nesta paisagem negra.

Recolho os restos, os adjectivos, os advérbios,
artigos, preposições, para que só as palavras que indicam
as coisas fiquem no lugar que já tinham.

Pouco importa que as frases percam o sentido. O
que fica são os nomes das coisas, para que as coisas saiam
de dentro deles e as possamos ver nos seus lugares.


I'll take everything (James Blunt)

Oh these feet carry me far. Oh my body. Oh so tired.
Mouth is dry. Hardly speak. Holy spirit rise in me.
Here I swear, forever is just a minute to me.

I'll take everything in this life.
I'll join everyone when I die.

Have my body. Have my mind. Have my coat. Take my time.
Theses I borrow. Borrow so far. Turn to dust. Fall apart.
Here I swear, forever is just a minute to me.

I'll take everything in this life.
I'll join everyone and understand.
'Cause all men die. 'Cause all men die.

I'll take everything in this life.
I'll join everyone since I'm gonna die
I'll take everything in this life
I'll join everyone 'cause all men die.


Nuno Júdice

O amor (Nuno Júdice)

Deus — talvez esteja aqui, neste
pedaço de mim e de ti, ou naquilo que,
de ti, em mim ficou. Está nos teus
lábios, na tua voz, nos teus olhos,
e talvez ande por entre os teus cabelos,
ou nesses fios abstractos que desfolho,
com os dedos da memória, quando os
evoco.

Existe: é o que sei quando
me lembro de ti. Uma relação pode durar
o que se quiser; será, no entanto, essa
impressão divina que faz a sua permanência? Ou
impõe-se devagar, como as coisas a que o
tempo nos habitua, sem se dar por isso, com
a pressão súbtil da vida?

Um deus não precisa do tempo para
existir: nós, sim. E o tempo corre por entre
estas ausências, mete-se no próprio
instante em que estamos juntos, foge
por entre as palavras que trocamos, eu
e tu, para que um e outro as levemos
connosco, e com elas o que somos,
a ânsia efémera dos corpos, o
mais fundo desejo das almas.

Aqui, um deus não vive sozinho,
quando o amor nos junta. Desce dos confins
da eternidade, abandona o mais remoto dos
infinitos, e senta-se aos pés da cama, como
um cão, ouvindo a música da noite. Um
deus só existe enquanto o dia não chega; por
isso adiamos a madrugada, para que não
nos abandone, como se um deus
não pudesse existir para lá do amor, ou
o amor não se pudesse fazer sem um deus.


God put a smile upon your face (Coldplay)

Where do we go, nobody knows
I've gotta say I'm on my way down
God give me style and give me grace
God put a smile upon my face

Where do we go to draw the line
I've gotta say, I wasted all your time, oh honey honey
Where do I go to fall from grace
God put a smile upon your face, yeah

Now when you work it out I'm worse than you
Yeah when you work it out, I want it too
Now when you work out where to draw the line
Your guess is as good as mine...

Where do we go, nobody knows
Don't ever say you're on your way down, when..
God gave you style and gave you grace
And put a smile upon your face, oh yeah

Now when you work it out I'm worse than you
Yeah when you work it out, I want it too
Now when you work out where to draw the line
Your guess is as good as mine...

It's as good as mine
As good as mine...

Where do we go, nobody knows
Don't ever say you're on your way down, when..
God gave you style and gave you grace
And put a smile upon your face


Nuno Júdice

Despertar (Nuno Júdice)

O que quero dizer é isto: estes ramos
que saem da parede, e se estendem pelo
muro até ao fim do quintal, trazem-me
os frutos da tarde. Abro-os: os gomos
húmidos dos teus lábios, as grainhas
que saltam das frases, e se espalham
pelo chão, a macia polpa dos dedos
que procuram o sexo da noite, agora
que é tarde para encontrar o caminho
do regresso. E lembro-me de tudo. A lua
posta nos teus seios como a branca
medusa dos fundos. O beijo árido da
luz que salta da janela, quando a abro,
e dou com a lâmpada agonizante da
madrugada. Não te acordo. Os teus
cabelos estendem-se pelo travesseiro
do desejo, caem da cama, estendem-se
pelos rodapés da memória até ser dia,
e a tua nudez saltar de dentro de mim.


Hard sun (Eddie Vedder)

When I walk beside her
I am the better man
When I look to leave her
I always stagger back again

Once I built an ivory tower
So I could worship from above
When I climb down to be set free
She took me in again

There's a big
A big hard sun
Beating on the big people
In the big hard world

When she comes to greet me
She is mercy at my feet
I see her inner charm
She just throws it back at me

Once I dug an early grave
To find a better land
She just smiled and laughed at me
And took her rules back again

When I go to cross that river
She is comfort by my side
When I try to understand
She just opens up her hands

Once I stood to lose her
And I saw what I had done
Bowed down and threw away the hours
Of her garden and her sun

So I tried to want her
I turned to see her weep
40 days and 40 nights
And it's still coming down on me


Quando a melancolia enche o sol, o esvazia do
seu brilho, faz baço o amarelo do rebordo, apaga
os fios de fogo que da sua esfera fulgem, pego
nele e ponho-o na travessa do bolo. Com a faca,
corto-o; e ofereço-te
uma fatia de sol, que levas à boca; e ele volta a brilhar,
iluminando-te os lábios, os olhos,
o rosto. Então, beijo-te: e é como se
tocasse o sol; como se a sua chama me queimasse,
sem doer, ou como se a sua luz entrasse por dentro
de mim, quando a sobremesa
chega ao fim.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Rhonda Lorence, Ralf Illenberger, Vangelis Papathanasious, Frozen Silence

Ligações
Cheap Trick, James Blunt, Coldplay, Eddie Vedder

Textos:
Nuno Júdice

Edição e voz:
José-António Moreira

© José-António Moreira 2012