Sons da Escrita 181

18 de Julho de 2008

Segundo programa do ciclo Nuno Júdice

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Nuno Júdice

Cartografia de emoções (Nuno Júdice)

É como se fosse a leitura mais exacta: o céu,
as nuvens, o sol posto. O resto, a especulação que as palavras
trazem, o desenvolvimento de certos tons de voz,
o teu corpo encostado à pedra, em frente do prédio,
esperando que não chova, desta vez. Podemos pensar melhor nisto
tudo; e trabalhar as cores que mudam a cada instante, como se
o fim do dia não fosse uma altura de lentas transições. Podemos
entrar sem pressa nesta noite que nos espera, vendo
a treva cair por trás dos vidros do carro, ouvindo o ladrar
dos cães, sabendo apenas que nenhuma noite nos servirá
de abrigo.

Mas não sei: estas frases que abrem o que tenho para
te dizer com a hesitação da gramática, estes lapsos que se instalam
no coração da palavra… Como transformá-los em certezas, e
fazer com que uma flor cresça de um movimento de afirmações
visíveis como as estrelas no intervalo das árvores? Queria escrever-te
um guia para o mundo da evidência, com a sua exacta cartografia
de emoções, e encontrar nas tuas mãos a linha para o seu centro,
onde um fulgor de secretos vulcões se acende. Em vez disso,
dou-te este poema; e sei que dele irá correr o rio
que nasce do teu riso de fonte.

Então, digo-te o que é próprio destas situações. Não me
refiro às declarações de amor, aos verbos que se prestam
ao murmúrio, nem ao fogo de substantivos que se prendem à língua,
deixando uma secura de cinza na boca. Digo aquilo que pode
caber neste verso: atravessarei o campo do teu corpo. Pouco mais
se pode dizer numa noite como esta, quando o vento entreabre
as nuvens, soltando as invisíveis matilhas do sonho. Assim, vejo-te
adormecer; vejo a tua nudez desembocar, no estuário
da madrugada; e ouço um soltar de velas na tua respiração
matinal.


Heartbeats (José González)

One night to be confused
One night to speed up truth
We had a promise made
Four hands and then away

Both under influence
We had a divine sense
To know what to say
Mind is a razor blade

To call for hands of above
to lean on
Wouldn't be good enough
for me, no

One night of magic rush
The start a simple touch
One night to push and scream
And then relief

Ten days of perfect tunes
The colors red and blue
We had a promise made
We were in love

To call for hands of above
to lean on
Wouldn't be good enough
for me, no

To call for hands of above
to lean on
Wouldn't be good enough

And you, you knew the hand of the devil
And you, kept us awake with wolves teeth
Sharing different heartbeats
In one night

To call for hands of above
to lean on
Wouldn't be good enough
for me, no

To call for hands of above
to lean on
Wouldn't be good enough


Nuno Júdice

Angelus (Nuno Júdice)

O anjo que renasce com a tua luz, a forma
obscura do seu voo, o canto abstracto
que o envolve, são os motivos do meu canto.

Podia não saber que um anjo tem a figura
do espaço, no azul mais fundo do meio-dia,
ou na treva para que a noite nos arrasta.

É de onde um bater de asas celeste se ouve
que tudo começa, como quando te vejo sair
dessa esquina de memória em que te escondo.

Partilho com esse anjo uma refeição de salmos,
e perguntas-me se é isso que espero da vida,
ou até onde poderei adiar a minha morte.

«Não dependem de nós as ultimas decisões»,
digo-te, olhando o vazio nos olhos brancos do
anjo que resolve um último problema de xadrez.

E enxoto-o para o seu ninho de nuvens: é
contigo que tenho de resolver as dúvidas do
absoluto, as linhas sem saída do infinito,

o azul e a treva que me pões em frente,
com as tuas mãos pousadas no tampo do segredo,
para que eu abra a caixa dos sentimentos.


Gabriel (Lamb)

I can fly
But I want his wings
I can shine even in the darkness
But I crave the light that he brings
Revel in the songs that he sings
My angel Gabriel

I can love
But I need his heart
I am strong even on my own
But from him I never want to part
He's been there since the very start
My angel Gabriel
My angel Gabriel

Bless the day he came to be
Angel's wings carried him to me
Heavenly
I can fly
But I want his wings
I can shine even in the darkness
But I crave the light that he brings
Revel in the songs that he sings
My angel Gabriel
My angel Gabriel
My angel Gabriel


Nuno Júdice

Poética (variante com construção civil) (Nuno Júdice)

Escrevo por entre andaimes,
ando por entre versos. Uma ideia de
construção ergue-se no
meio de palavras e tijolos. O muro
do verso separa-me da vida; mas
subo o escadote da estrofe, espreito
o outro lado — e vejo-te.

Pareces calma, com o teu vestido
amarelo, e o sol a entrar-te pelos
cabelos. Eu vou a reboque do tempo;
e tu, com os pés assentes na terra
do campo, podias ser mais uma dessas
flores que crescem, nesta
estação, amarelas como o teu vestido.

Começo, então, a tirar os
andaimes. As vogais aguentam-se, com
o seu reboco de gesso e
consoantes. Abro-te a porta. Tu,
entras no poema; e ficamos aí os dois,
ouvindo a sua música.


Cannonball (Damien Rice)

there’s still a little bit of your taste in my mouth
there’s still a little bit of you laced with my doubt
it’s still a little hard to say what's going on

there’s still a little bit of your ghost your witness
there’s still a little bit of your face i haven't kissed
you step a little closer each day
that I can´t say what´s going on

stones taught me to fly
love, it taught me to lie
life, it taught me to die
so it's not hard to fall
when you float like a cannonball

there’s still a little bit of your song in my ear
there’s still a little bit of your words i long to hear
you step a little closer to me
so close that I can´t see what´s going on

stones taught me to fly
love taught me to lie
life taught me to die
so its not hard to fall
when you float like a cannon..

stones taught me to fly
love taught me to cry
so come on courage, teach me to be shy
'cos its not hard to fall,

and I don't want to scare her
its not hard to fall
and i don't want to lose
its not hard to grow
when you know that you just don't know


Nuno Júdice

Internet (Nuno Júdice)

Nome: Joseline. Nascida em
15 de novembro de 76,
quer um
norte-americano que se
interesse por ela. Solteira,
acredita
em Deus sobre todas as
coisas. Não bebe
nem fuma. Gosta de
andar de bicicleta, de cantar,
e de conhecer gente
séria.

Cristina. Católica, acompanhada
pela Bíblia, tem 26 anos e está
a ver se Deus escolhe um companheiro
para si e um pai para o filho. Divorciada,
gosta de praia e de cinema, e embora
não fume acredita que a fé move
montanhas.

A Ana Maria vive
com a tia. Dinâmica, divertida,
é solteira e não tem filhos. Nasceu
em 4 de abril de 1980. Católica,
não bebe e não
fuma.

Nenhuma das três toca
piano e fala francês.

Amor ponto com.


Playground love (Air)

I'm a high school lover, and you're my favorite flavor
Love is all, all my soul
You're my playground love 

Yet my hands are shaking
I feel my body reeling
Time's no matter, I'm on fire
On the playground love

You're the piece of gold
That flashes on my soul
Extra time, on the ground
You're my playground love 

Anytime, anywhere,
You're my playground love.


Encontrei um filósofo no mercado. «Amigo, disse-lhe,
que fazes aqui, entre o peixe as couves?» Ele sorriu-me,
com um esgar de ironia, e respondeu: «Compro axiomas
por escamar; peso conceitos em sacos de serapilheira;
ponho sofismas na balança dos grelos...» E afastou-se,
ao longo de bancas e de clientes, cambaleando, como
se a vida o empurrasse até ao canto dos talhos, onde se
cortam bifes como os filósofos fazem às ideias.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Sunstatic, Clannad, Philip Glass, Rob Lansberg

Ligações
José González, Lamb, Damien Rice, Air

Textos:
Nuno Júdice

Edição e voz:
José-António Moreira

© José-António Moreira 2012