Sons da Escrita 182

25 de Julho de 2008

Terceiro programa do ciclo Nuno Júdice

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Nuno Júdice

A crise do petróleo (Nuno Júdice)

Podiam-se contar pelos dedos os petroleiros
na linha do horizonte: saindo do outro lado da terra até
à frente do cabo, cujos rochedos os desafiavam. Era
ainda o tempo da gasolina barata e dos bailes
no clube, que continuavam depois da meia-noite
em casas emprestadas, com as grandes salas de luzes
meio abertas, para que se escondesse o que havia
a esconder. Os petroleiros paravam, por vezes, em frente
da praia, assombrando quem se metia à água com o peso
da sua presença; e nos dias seguintes a areia estava preta,
obrigando a que se tivesse cuidado com as solas
das sandálias. Também as meninas do clube, sentadas
à espera que as fossem buscar, assombravam
os mais tímidos: e as mães, sentadas nas cadeiras de trás,
impediam muitas aproximações, embora a sua função
fosse escolher os que melhor poderiam servir
casamentos prováveis, rapazes sérios e com futuro
— mas isso era o que não havia para ninguém,
com a tropa pela frente e a guerra garantida. Por isso,
ao olhar para os petroleiros, podia haver quem
sonhasse em subir para eles, e partir para o outro lado
do mundo. Mas quem seria capaz de nadar até tão longe e,
depois, de subir pelo aço da proa? Mais valia limpar
as solas do alcatrão com um pedaço de cana, e correr
até ao clube onde o baile já começara. Mas era à noite,
nessas casas de empréstimo, ouvindo a musica lenta
de discos velhos, que melhor se podia dançar, sem mães
a olhar pelas filhas nem filhas com medo das mães. Era no tempo
em que os petroleiros passavam devagar frente à linha
da costa, e podiam-se contar pelos dedos
quantos eram, com excepção dos que paravam para
limpar os porões. Uma noite, houve um corte de luz
durante o baile. Não foi por isso
que deixei de dançar — e outros terão feito o mesmo. Também
o petróleo foi cortado uns meses depois, e os petroleiros
deixaram de passar pelo cabo. Mas nem isso interrompeu
os bailes no clube, os fins de noite em casas
emprestadas, e o apagar da luz — que já não era
do corte da corrente — para que a dança continuasse,
mesmo às escuras.


A whiter shade of pale (Annie Lennox)

We skipped the light fandango
turned cartwheels 'cross the floor
I was feeling kinda seasick
but the crowd called out for more
The room was humming harder
as the ceiling flew away
When we called out for another drink
and the waiter brought a tray 

And so it was that later
as the mirror told his tale
that her face, at first just ghostly,
turned a whiter shade of pale

She said, "There is no reason
and the truth is plain to see."
But I wandered through my playing cards
and they would not let her be
one of sixteen vestal virgins
who were leaving for the coast
and although my eyes were open wide
they might have just as well been closed 

And so it was that later
as the mirror told his tale
that her face, at first just ghostly,
turned a whiter shade of pale

She said, "I'm here on a shore leave,"
though we were miles at sea.
I pointed out this detail
and forced her to agree,
saying, "You must be the mermaid
who took King Neptune for a ride."
And she smiled at me so sweetly
that my anger straightway died.

And so it was that later
as the mirror told his tale
that her face, at first just ghostly,
turned a whiter shade of pale

If music be the food of love
then laughter is its queen
and likewise if behind is in front
then dirt in truth is clean
My mouth by then like cardboard
seemed to slip straight through my head
So we crash-dived straightway quickly
and attacked the ocean bed 

And so it was that later
as the mirror told his tale
that her face, at first just ghostly,
turned a whiter shade of pale


Nuno Júdice

Conversa com a minha Musa (Nuno Júdice)

Dizes-me que tenho uma visão negra do mundo, quando
o frio das imagens se sobrepõe à alegria que devia nascer
da manhã. Conversemos sobre isto: a poesia faz-se sobre
o ruído do mar, mesmo quando o mar está longe, e
as ondas rebentam dentro das paredes que me
rodeiam, enquanto uma espuma sobe pelas madeiras
das portas, enchendo a casa de um cheiro a algas. Depois,
os versos suam um salitre de significados: limpo-os
da solidão, dos sacrifícios da memória, da surpresa
ébria dos sons. Quero que estes versos fiquem mudos
quando te virem chegar, e tu fores toda a poesia do seu
canto. Tu, a minha musa verdadeira, a quem estendo
o espelho da estrofe para que o teu rosto surja de
dentro dela, com os lábios que beijei, aprendendo
o gosto do amor. Assim, esta imagem do mundo pode
mudar a meio de um poema. Basta que tu entres por
dentro dele, batendo com as suas portas, e fazendo-me
sentir a tua presença, mesmo que estejas longe. É
um vento que sopra nas minhas veias, até à cabeça,
onde limpa as nuvens mais cinzentas, abrindo esse azul
de que as aves gostam. Tu, com quem converso sobre
o sentido da vida, ouvindo o teu riso sobre esta maré
que baixa com as vozes que o desejo submerge, enquanto
antigas gaivotas poisam numa areia de murmúrios.


Devant toi (Calogero)

Faire, toujours, faire comme
Ce qu'on fait quand, on est un homme
Les cris, les coups qu'on se donne
Faire, toujours, faire fort
En affaire, en corps à corps
Attaques, armures, châteaux forts

Mais devant toi
Je n'ai qu'à me taire
Et croiser les doigts
Plutôt que le faire
Devant toi
Je n'ai qu'une envie
C'est de laisser le poids
De mes ennemis
Derrière moi
Aller, toujours plus haut
Assis, debout, faire le beau
Trop lourd, le monde, plein le dos
Aller, toujours plus fier
Trophées, honneurs, phrases en l'air
Parler d'amour sans le faire

Moi devant toi...

Je laisse l'or et l'argent
A d'autres, la sueur et le sang
Discours semés dans le vent
Moi devant ça
Je n'ai qu'à me taire
Poser loin de moi
Mes armes de guerre
Devant toi
Rien d'autre à se faire
Que croiser les doigts
Plutôt que le fer
Devant toiJe n'ai qu'une envie
C'est de laisser le poids de mes ennemis
Derrière moi.
My angel Gabriel


Nuno Júdice

Viagem (Nuno Júdice)

Podia dizer que foi nesta tarde, nesta cidade, ou
noutro lugar qualquer, que imaginei a solução:
mudar de tarde e de cidade, e encontrar a razão
para estar noutro qualquer lugar onde não tinha
de estar. Podia ser uma noite, num corredor,
entre uma porta e outra porta, onde sabia o que
iria encontrar; e com a noite a acabar, a porta
a fechar, e o corredor sem saber onde iria
dar, talvez tivesse de ficar. E era à voz que eu
ouvia, à voz que me dizia o que eu lhe queria
dizer, à voz que me guiava entre uma porta e
outra porta, como se não houvesse corredor, era
a essa voz que eu respondia: «Vem comigo,
por entre portas e corredores, tardes e noites,
um lugar e qualquer lugar, e não me deixes aqui,
sem solução, nem o calor da tua mão.» E podia
dizer que tudo ficou igual, se não tivesses
atravessado o corredor, entre uma porta e outra
porta, trazendo contigo o que eu queria encontrar.


Won't go home without you (Maroon 5)

I asked her to stay
But she wouldn't listen
She left before I had the chance to say
Oh
The words it would mend
The things that were broken
But now it's far too late, she's gone away

Every night you cry yourself to sleep
Thinking "Why does this happen to me?
Why does every moment have to be so hard?"
Hard to believe that

It's not over tonight
Just give me one more chance to make it right
I may not make it through the night
I won't go home without you

The taste of her breath, I'll never get over
And the noises that she made kept me awake
Oooh
The weight of the things that remain unspoken
Built up so much it crushed us everyday

Every night you cry yourself to sleep
Thinking "Why does this happen to me?
Why does every moment have to be so hard?"
Hard to believe that

It's not over tonight
Just give me one more chance to make it right
I may not make it through the night
I won't go home without you
Oooh

It's not over tonight
Just give me one more chance to make it right
I may not make it through the night
I won't go home without you
Oooh

Of all the things I felt I've never really showed
Perhaps the worst is that I ever let you go
Should not ever let you go, oh oh oh

It's not over tonight
Just give me one more chance to make it right
I may not make it through the night
I won't go home without you
Oooh

It's not over tonight
Just give me one more chance to make it right
I may not make it through the night
I won't go home without you
And I won't go home without you
And I won't go home without you
And I won't go home without you


Abro a caixa do inverno. Tiro os ventos,
as rajadas de chuva, os bancos de neve de onde
fugiram todos os pássaros. Desenrolo à minha
frente os pântanos do inverno. Ando à volta
deles para desentorpecer as pernas; sacudo
o frio das mãos; limpo a chuva que se me colou
aos cabelos. Depois, volto a lançar os dados
— e avanço até à primavera.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Ion, Wave, Paddy McAloon

Ligações
Annie Lennox, Calogero, Maroon 5

Textos:
Nuno Júdice

Edição e voz:
José-António Moreira

© José-António Moreira 2012