Sons da Escrita 379

28 de Janeiro de 2012

Segundo programa do ciclo Octávio Paz

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Octávio Paz

Trabalhos do poeta

VII
Escrevo sobre a mesa crepuscular, apoiando com força
a pena em seu peito quase vivo, que geme e recorda
o bosque natal. A tinta negra abre suas grandes asas.
A lâmpada rebenta e uma capa de vidros estilhaçados
cobre minhas palavras. Um fragmento afiado de luz
decepa-me a mão direita. Continuo a escrever com
esse coto que jorra sombra. A noite entra no quarto,
o muro defronte estende a sua bocarra de pedra, gran-·
des tímpanos de ar interpõem-se entre a pena e o pa-
pel. Ah, um simples monossílabo bastaria para fazer
saltar o mundo. Mas esta noite não há espaço para
uma só palavra mais.


The word (Beatles)

Say the word and you'll be free
Say the word and be like me
Say the word I'm thinking of
Have you heard the word is love?
It's so fine, It's sunshine
It's the word, love
In the beginning I misunderstood
But now I've got it, the word is good

Spread the word and you'll be free
Spread the word and be like me
Spread the word I'm thinking of
Have you heard the word is love?
It's so fine, It's sunshine
It's the word, love
Everywhere I go I hear it said
In the good and the bad books that I have read

Say the word and you'll be free
Say the word and be like me
Say the word I'm thinking of
Have you heard the word is love?
It's so fine, It's sunshine
It's the word, love
Now that I know what I feel must be right
I'm here to show everybody the light

Give the word a chance to say
That the word is just the way
It's the word I'm thinking of
And the only word is love
It's so fine, It's sunshine
It's the word, love

Say the word, love


Octávio Paz

Trabalhos do poeta

XII
Depois de ter cortado todos os braços que se esten-
diam para mim; depois de ter entaipado todas as ja-
nelas e todas as portas; depois de ter inundado os fos-
sos com água envenenada; depois de ter edificado
minha casa no rochedo dum Não inacessível aos afa-
gos e ao medo; depois de ter cortado a língua e logo
a devorar; depois de ter lançado punhados de silêncio
e monossílabos de desprezo a meus amores; depois de
ter esquecido meu nome e o nome de minha terra na-
tal; depois de me ter julgado e condenado a perpétua
espera e a solidão perpétua, ouvi contra as pedras de
meu calabouço de silogismos a investida húmida, ter-
na, insistente, da primavera.


Spring, summer, winter and fall (Aphrodite’s Child)

Spring, summer, winter and fall
keep the world in time
spinning around like a ball
Never to unwind

Spring, summer, winter and fall
are in everything
I know in love we had them all
now our love is gone

This last thing
is passing now
like summer to spring
it takes me
and wakes me now
like seasons i'll change
and then re-arrange some how

Spring, summer, winter and fall
keep the world in time
spinning around like a ball
Never to unwind [interlude]

this last thing
is passing now
like summer to spring
it takes me
and wakes me now
like seasons i'll change
and then re-arrange some how

Spring, summer, winter and fall
keep the world in time
spinning around like a ball
Never, never to unwind

Spring, summer, winter and fall
are in everything
I know in love we had them all
now our love is gone


Octávio Paz

Trabalhos do poeta

XIV
Com dificuldade, avançando alguns milímetros por
ano, abro um caminho entre as rochas. Há milénios
que meus dentes se gastam e minhas unhas se que-
bram para chegar além, ao outro lado, à luz, ao ar li-
vre. E agora que minhas mãos sangram e meus dentes
oscilam, mal seguros, numa cavidade gretada pela se-
de e pela poeira, detenho-me para contemplar minha
obra: passei a segunda parte de minha vida a partir as
pedras, a perfurar as muralhas, a rachar as portas e
a separar os obstáculos que interpus entre a luz e eu
durante a primeira parte de minha vida.


Reflections of my life (Marmalade)

The changing of sunlight to moonlight
Reflections of my life
Oh how they fill my eyes
The greetings of people in trouble
Reflections of my life
Oh how they fill my eyes

Oh my sorrows
Sad tomorrows
Take me back to my own home

Oh my crying
Feel I'm dying, dying
Take me back
To my own home

I'm changing, arranging,
I'm changing,
I'm changing everything
Everything around me

The world is
A bad place
A bad place
A terrible place to live
Oh but I don't wanna die ...


Se é real a luz branca
desta lâmpada, real
a mão que escreve, são reais
os olhos que olham o escrito?
Duma palavra à outra
o que digo desvanece-se.
Sei que estou vivo
entre dois parênteses.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
George Winston

Ligações
Beatles, Aphrodite’s Child, Marmalade

Textos:
Octavio Paz

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012