Sons da Escrita 381

11 de Fevereiro de 2012

Quarto programa do ciclo Octávio Paz

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Octávio Paz

Fábula de Joan Miró

O azul estava imobilizado entre o vermelho e o negro.
O vento ia e vinha pela página da planície, acendia pequenas fogueiras, revolvia-se na cinza, saía com a cara tisnada gritando pelas esquinas, o vento ia e vinha abrindo e fechando portas e janelas, ia e vinha pelos crepusculares corredores do crânio, o vento com má letra e as mãos manchadas de tinta escrevia e apagava o que tinha escrito sobre a parede do dia.

O sol não era senão o pressentimento da cor amarela, uma insinuação de plumas, o grito futuro do galo.
A neve extraviara-se, o mar perdera a fala, era um rumor errante, umas vogais em busca duma palavra.
O azul estava imobilizado, ninguém o olhava, ninguém o ouvia: o vermelho era um cego, o negro um surdo-mudo.
O vento ia e vinha perguntando: por onde anda Joan Miró?
Estava aí desde o princípio, mas o vento não o via: imobilizado entre o azul e o vermelho, o negro e o amarelo Miró era um olhar transparente, um olhar de sete mãos.
Sete mãos em forma de orelhas para ouvir as sete cores, sete mãos em forma de pés para subir os sete degraus do arco-íris, sete mãos em forma de raízes para estar em toda a parte e ao mesmo tempo em Barcelona. 

Miró era um olhar de sete mãos.
Com a primeira mão batia no tambor da lua,
com a segunda semeava pássaros no jardim do vento,
com a terceira agitava o covilhete das constelações,
com a quarta escrevia a lenda secular dos caracóis,
com a quinta plantava ilhas no peito do verde,
com a sexta fazia uma mulher misturando noite e
água, música e electricidade,
com a sétima apagava tudo o que fizera e começava
de novo.

O vermelho abriu os olhos, o negro disse algo incompreensível e o azul levantou-se. Nenhum dos três podia crer no que via: eram oito gaviões ou eram oito guarda-chuvas? Os oito abriram as asas, deitaram-se a voar e desapareceram por um vidro quebrado.

Miró começou a queimar as suas telas.
Ardiam os leões e as aranhas, as mulheres e as estrelas, o céu povoou-se de triângulos, esferas, discos, hexaedros em chamas, o fogo consumiu inteiramente a granja planetária plantada no centro do espaço, do montão de cinzas brotaram borboletas, peixes-voadores, roucos fonógrafos, mas entre os agulheiros dos quadros chamuscados surgiam o espaço azul e a risca da andorinha, a folhagem de nuvens e o bordão florido: era a primavera que insistia com verdes ademanes.
Perante tanta obstinação luminosa Miró coçou a cabeça com a sua quinta mão, murmurando para si mesmo: Trabalho como um jardineiro.

Jardim de pedras ou de barcas? Jardim de roldanas ou de bailarinas?
O azul, o negro e o vermelho corriam pelos prados, as estrelas andavam nuas mas as friorentas colinas meteram-se debaixo dos lençóis, havia vulcões portáteis e fogos-de-artificio a domicílio.

As duas raparigas que guardam a entrada à porta das percepções, Geometria e Perspectiva foram passear de braço dado com Miró, cantando Une étoile caresse le sein d'une négresse.

O vento voltou a página da planície, ergueu a cara e disse: mas onde anda Joan Miró? 

Estava aí desde o princípio e o vento não o via: Miró era um olhar transparente por onde entravam e saíam atarefados abecedários.
Não eram letras as que entravam e saíam pelos túneis do olho: eram coisas vivas que se juntavam e se dividiam, se abraçavam e se mordiam e se dispersavam, corriam por toda a página em fileiras animadas e multicolores, tinham cornos e caudas, umas estavam cobertas de escamas, outras de plumas, outras andavam vestidas de peles, e as palavras que formavam eram palpáveis, audíveis e comestíveis mas impronunciáveis: não eram letras mas sensações, não eram sensações mas transfigurações.

E tudo isto para quê? Para traçar uma linha na cela dum solitário, para iluminar com um girassol a cabeça de lua dum camponês, para receber a noite que chega com personagens azuis e pássaros de festa, para saudar a morte com uma salva de gerânios, para dizer bons-dias ao dia que nasce sem nunca lhe perguntar de onde vem nem para onde vai, para recordar que a cascata é uma rapariga que desce as escadas morta de riso, para ver o sol e os seus planetas balançando-se no trapézio do horizonte, para aprender a olhar e para que as coisas nos olhem e entrem e saiam pelos nossos olhares, abecedários viventes que deitam raízes, sobem, florescem, rebentam, voam, se dissipam, caem.
Os olhares são sementes, olhar é semear, Miró trabalha como um jardineiro e com as suas mãos traça incansável - círculo e cauda, oh! e ah! - a grande exclamação com que todos os dias começa o mundo.


Barcelona (Fred Mercury & Monserrat Caballé)

Barcelona Barcelona
Barcelona Barcelona
Viva

I had this perfect dream
-Un sueño me envolvió
This dream was me and you
-Tal vez estás aquí
I want all the world to see
-Un instinto me guiaba
A miracle sensation
My guide and inspiration
Now my dream is slowly coming true

The wind is a gentle breeze
-Él me hablo de ti
The bells are ringing out
-El canto vuela
They're calling us together
Guiding us forever
Wish my dream would never go away

Barcelona - It was the first time that we met
Barcelona - How can I forget
The moment that you stepped into the room you took my breath away
Barcelona - La música vibró
Barcelona - Y ella nos unió
And if God willing we will meet again someday

Let the songs begin
-Déjalo nacer
Let the music play
-Ahhhhhhhh...
Let the voices sing
-Nace un gran amor
Start the celebration
-Ven a mí
And cry
-Grita
Come alive
-Vive
And shake the foundations from the skies
Ah,Ah,Shaking all our lives

Barcelona - Such a beautiful horizon
Barcelona - Like a jewel in the sun
Por ti seré gaviota de tu bella mar
Barcelona - Suenan las campanas
Barcelona - Abre tus puertas al mundo
If God is willing
-If God is willing
If God is willing
Friends until the end
Viva - Barcelona


Solidão é um fato profundo da humanidade.
O homem é o único ser que sabe quando está sozinho.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Suzanne Ciani

Ligações
Fred Mercury e Monserrat Caballé

Textos:
Octavio Paz

Edição e voz:
José-António Moreira

© José-António Moreira 2012