Sons da Escrita 229

12 de Junho de 2009

Quarto programa do ciclo Otília Martel

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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OtiliaMartel

Olhos das palavras (Otília Martel)

Ao amanhecer um raio de sol
trouxe uma rosa branca
que ofereceu à lua e, lentamente,
entre os olhos das palavras,
esconde-se no céu da minha afeição.

Nas gotas do orvalho da manhã
as lágrimas dissipadas
são sementes do poema
endurecidas no desânimo de quem espera
o seu primeiro beijo de luz

Encarcerada na raíz do sentimento
a palavra é o sol desabado
o espelho sem reflexo
caído em pedaços na dureza dos sons…

Uma palavra esvaída na garganta da razão
a página branca de um buraco sombrio
onde a poesia é a fragrância que deixa entrar o Sol
e ilumina o meu coração…


Olhos nos olhos (Maria Bethania)

Quando você me deixou, meu bem
Me disse pra ser feliz e passar bem
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci
Mas depois, como era de costume, obedeci

Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer
Olhos nos olhos
Quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais

E que venho até remoçando
Me pego cantando, sem mais, nem por quê
Tantas águas rolaram
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você

Quando talvez precisar de mim
Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim
Olhos nos olhos
Quero ver o que você diz
Quero ver como suporta me ver tão feliz


OtiliaMartel

Sinto teu corpo em mim (Otília Martel)

Sinto teu corpo em mim
...e... assim...

alma sem fim
ardente
em tempo que persiste
rasgo de pele
veemente
em pensamento diluído
no tempo da promessa.

Tens na palavra
o encanto da brisa
na aragem lavrada.

Sinto a quietude do mar

melodia do solfejo
nas ondas que se espraiam
em areia e espuma
de mil cores

no vermelho pôr do sol
a lua entrega um beijo
e dança com a brisa

a canção dos seus amores


Sing you a love song (Anne Murray)

There's a wren in a willow wood
Flies so high and sings so good
And he brings to you what he sings to you

Like my brother the wren and I
Well, he told if I try, I could fly for you
And I wanna try for you 'cause

CHORUS
I wanna sing you a love song
I wanna rock you in my arms all night long
I wanna get to know you
I wanna show you the peaceful feelin' of my home

Summer thunder on moon-bright days
Northern Lights and skies ablaze
And I bring to you, lover, when I sing to you

Silver wings in a fiery sky
Show the trail of my love and I
Sing to you, love is what I bring to you

And I wanna sing to you, oh

I wanna show you the peaceful feelin' of my home


OtiliaMartel

Concepção (Otília Martel)

O poema nasceu e eu nem estava lá
a enaltecer a sua criação.
Foi o poema que me fez crescer,
porque concebe-se
nasce sozinho, tem vida própria,
sentimentos e sentidos tão apurados
que nem sabemos como ele eclodiu
entre os olhos prodigiosos das palavras.

O poema voa para lá dos sentidos, da própria carne.
É o cerne do pensamento irrompendo além do
mundo a que me dou, que me possui e me liberta.

O poema é o próprio poeta.
Tem a visão da humanidade
sente a liquidez das palavras consensuais, do riso, da dor,
de utopia em utopia ele cresce, amadurece,
dá-se na vertente do conceito filosófico da razão
e floresce na terra germinada de amor

O poema desabrochou e sobreviveu.


No teu poema (Carlos do Carmo)

No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida
No teu poema existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E, aberta, uma varanda para o mundo.
Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da senhora da agonia
E o cansaço
Do corpo que adormece em cama fria.
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.
No teu poema
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor mas não recito
E os sonhos inquietos de quem falha.
No teu poema
Existe um cantochão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.
No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo o mais que ainda escapa
E um verso em branco à espera de futuro.


Nos meus passos desencontrados
encontro o equilíbrio perfeito.
Não encontro ninguém e ninguém
me encontra também

Na madrugada, percorro
meus sonhos que não sonhei
sinto abraços que não dei
e beijos que acalento
no desespero e
ao vento os mandei.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Suzanne Ciani, Kirsty Hawkshaw, Camel

Ligações
Maria Bethania, Anne Murray, Carlos do Carmo

Textos:
Otília Martel

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make


© José-António Moreira 2012