Sons da Escrita 025

2 de Setembro de 2005

Primeiro programa do ciclo Pablo Neruda

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


•••

Pablo Neruda

As palavras (Pablo Neruda)

Sim Senhor, tudo o que queira, mas são as palavras que cantam, que sobem e que baixam…
Prosterno-me diante delas, amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as…
Amo tanto as palavras… as inesperadas… as que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem…
Vocábulos amados!… Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho…
Persigo algumas palavras… São tão belas que quero colocá-las todas no meu poema… Agarro-as no vôo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas… E então revolvo-as, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as… Deixo-as como estalactites no meu poema; como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda…
Tudo está na palavra… Uma ideia inteira muda, porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que lhe obedeceu… Têm sombra, transparência, peso, plumas, pêlos, têm tudo o que se lhes foi agregando de tanto vaguear pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes… São antiquíssimas e recentíssimas. Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada…
Que bom idioma o meu, que boa língua herdámos dos conquistadores torvos… Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas Américas encrespadas, buscando batatas, butifarras, feijõezinhos, tabaco negro, ouro, milho, ovos fritos, com aquele apetite voraz que nunca mais se viu no mundo… Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às que eles traziam em suas grandes bolsas…
Por onde passavam a terra ficava arrasada... Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das ferraduras. Como pedrinhas, as palavras luminosas que permaneceram aqui resplandecentes… o idioma.
Saímos a perder… Saímos a ganhar…
Levaram o ouro e deixaram-nos o ouro…
Levaram tudo e deixaram-nos tudo…
Deixaram-nos as palavras.


Outras palavras (Caetano Veloso)

Nada dessa cica de palavra triste em mim na boca
Travo, trava mãe e papai, alma buena, dicha louca
Neca desse sono de nunca jamais nem never more
Sim, dizer que sim pra Cilu, pra Dedé, pra Dadi e Dó
Crista do desejo o destino deslinda-se em beleza:
Outras palavras

Tudo seu azul, tudo céu, tudo azul e furta-cor
Tudo meu amor, tudo mel, tudo amor e ouro e sol
Na televisão, na palavra, no átimo, no chão
Quero essa mulher solamente pra mim, mais, muito mais
Rima, pra que faz tanto, mas tudo dor, amor e gozo:
Outras palavras

Nem vem que não tem, vem que tem coração, tamanho trem
Como na palavra, palavra, a palavra estou em mim
E fora de mim quando você parece que não dá
Você diz que diz em silêncio o que eu não desejo ouvir
Tem me feito muito infeliz mas agora minha filha:
Outras palavras

Quase João, Gil, Ben, muito bem mas barroco como eu
Cérebro, máquina, palavras, sentidos, corações
Hiperestesia, Buarque, voilá, tu sais de cor
Tinjo-me romântico mas sou vadio computador
Só que sofri tanto que grita porém daqui pra a frente:
Outras palavras

Parafins, gatins, alphaluz, sexonhei da guerrapaz
Ouraxé, palávoras, driz, okê, cris, espacial
Projeitinho, imanso, ciumortevida, vivavid
Lambetelho, frúturo, orgasmaravalha-me Logun
Homenina nel paraís de felicidadania:
Outras palavras


Pablo Neruda

Um cordeiro em minha casa (Pablo Neruda)

Eu tinha um parente senador que, depois de ter vencido novas eleições, veio passar uns dias na minha casa de Isla Negra. Assim começa a história do cordeiro.
Os eleitores quiseram festejar e na primeira tarde da festa assaram um carneiro à moda do campo do Chile — uma fogueira ao ar livre e o animal enfiado num assador de madeira, tudo celebrado com muito vinho e queixosas guitarras criollas.
Outro carneiro ficou para a cerimónia do dia seguinte. Enquanto não chegava a sua hora, amarraram-no junto da minha janela, onde gemeu e baliu toda a noite, queixando-se da sua solidão. Partia a alma escutar as modulações daquele carneiro, a tal ponto que decidi levantar-me de madrugada, raptá-lo e levei-o a cento e cinquenta quilómetros dali, à minha casa de Santiago, onde não o alcançassem as facas. Mal entrou, pôs-se a pastar vorazmente no melhor lugar do meu jardim. As tulipas entusiasmaram-no e ele não respeitou nenhuma delas. Não se atreveu com as roseiras, mas devorou os goiveiros e os lírios. Não tive remédio senão amarrá-lo outra vez. E de imediato se pôs a balir, tratando visivelmente de me comover como antes. Senti-me desesperado.
Neste ponto, cruza-se a história de Juanito com a do cordeiro. Naquele tempo, havia uma greve de camponeses no sul que terminou a pauladas, prisões e um jovem camponês teve tanto medo que entrou num combóio em andamento. Chamava-se Juanito. Quando passou o revisor examinando as passagens, ele respondeu que não tinha, que ia a Santiago e que pensava que os combóios eram para que a gente subisse neles e viajasse quando precisasse. Trataram de desembarcá-lo, naturalmente. Mas os passageiros de terceira classe — gente do povo, sempre generosa — fizeram uma coleta e pagaram a passagem.
Por ruas e praças da capital andou Juanito com um embrulho de roupa debaixo do braço. Como não conhecia ninguém, não queria falar com ninguém. No campo, dizia-se que em Santiago havia mais ladrões do que habitantes e ele tinha medo que lhe roubassem a camisa e as alpercatas que levava debaixo do braço, embrulhadas num jornal. Como não tinha um só centavo, não podia comer, tanto assim que um dia caíu no chão, sem sentidos.
A porta defronte da qual caiu correspondia a um pequeno restaurante. Levaram-no para dentro e deixaram-no chão. É o coração, disseram uns. É uma crise hepática, disseram outros. O dono do restaurante se aproximou, olhou-o e disse: "É fome". Mal comeu algumas garfadas aquele cadáver reviveu. O dono pô-lo para lavar pratos e tomou-se de amores por ele. Tinha razões para isso. Sempre sorridente, o jovem camponês lavava montanhas de pratos. Tudo ia bem. Comia muito mais do que na sua terra.
O sortilégio da cidade teceu, de maneira estranha, um encontro, em minha casa, entre o pastor e o carneiro.
Deu vontade ao pastor de conhecer a cidade, encaminhando os seus passos um pouco além das montanhas de louça. Meteu com entusiasmo por uma rua, atravessou uma praça e tudo o deslumbrava. Mas, quando quis voltar, já não o podia fazer. Não tinha anotado o endereço porque não sabia escrever, buscando assim, em vão, a porta hospitaleira que o tinha recebido. Nunca mais a encontrou.
Um transeunte disse-lhe que devia dirigir-se a mim, ao poeta Pablo Neruda. Não sei por que lhe sugeriram esta ideia. Provavelmente porque, no Chile, se tem a mania de me encarregar de quanta coisa estranha passe pela cabeça das pessoas e ao mesmo tempo de me atirar com a culpa de tudo o que acontece. São estranhos costumes nacionais…
O certo é que o rapaz chegou um dia à minha casa e se encontrou com o bicho preso. Já que eu estava tomando conta daquele carneiro inútil, não me custava também tomar conta deste pastor. Deixei a seu cargo a tarefa de impedir que o carneiro gourmet devorasse exclusivamente as minhas flores mas que, também, de vez em quando, saciasse o apetite com a erva de meu jardim.
Compreenderam-se logo ali. Nos primeiros dias, Juanito atou, só para constar, uma cordinha ao pescoço com uma fita e com ela o levava de um lugar para outro. O carneiro comia incessantemente e o pastor também, transitando ambos por toda a casa, inclusive pelos meus aposentos. Era uma união perfeita, conseguida pelo cordão umbilical da mãe terra, pelo autêntico mandado do homem. Assim se passaram muitos meses. Tanto o pastor como o carneiro arredondaram as suas formas carnais, especialmente o ruminante que apenas podia seguir o pastor, de tão gordo que ficou. Às vezes entrava parcimoniosamente no meu quarto, olhava-me com indiferença e saía deixando um pequeno rosário de contas escuras no chão.
Porém, Juanito, sentiu a nostalgia do campo e resolveu voltar para a sua terra distante. Era uma resolução de última hora. Tinha que pagar uma promessa à Virgem do seu povoado. Não podia levar o carneiro. Despediram-se com ternura. O pastor apanhou o combóio, desta vez com o bilhete na mão. Foi patética aquela despedida.
No meu jardim não deixou um carneiro, mas um problema grave, ou melhor, gordo. O que fazer com o ruminante? Quem cuidaria dele agora? Eu tinha preocupações políticas demais. A minha casa andava desordenada depois das perseguições que a minha poesia combativa me trouxe. O carneiro começou de novo a balir as suas partituras queixosas.
Fechei os olhos e disse à minha irmã que o levasse.
Ai!, dessa vez eu tinha certeza de que não se livraria do forno!


Shepherd (Genesis)

Rise up! Take your lyre and sing
Listen! To the news I bring

Frosty breath on the window
See a friend in the snow that gently falls
Feel the truth in those sad eyes
See the smile that's so rare
Just like the love She waits for...

And she plays a game of her own
As she sleeps within the firelight
For her dreams are incredibly wild
But they're lost and gone forever, with the dawn

Fair and friend of the fleece spoke
Warrior bold, shepherd wise, fair prince of peace
Someone waits in the doorway
On a white horse he comes and holds out the hand She waits for...

So they ride through a valley of mist
To a castle in the heavens
Where he lays her down to rest
But he's lost and gone forever, with the dawn

See her writhe in her dream, then...

Mermaids sing in the sunset
Sadly asking if beauty ever walks free
But Queen Frost only whispers
Maidens you will remain, to be free

See her writhe in her dreams...

Lord of the seven sons!
Keeper of the keys of time!
(Hear me)


Pablo Neruda

Respondendo a um inquérito (Pablo Neruda)

O que se passará com a poesia no ano de 2000?
É uma pergunta embaraçosa. Se esta pergunta me surgisse num beco escuro, de improviso, eu levaria um susto que Deus nosso Senhor me acuda.
Porque… que sei eu do ano 2000? E, sobretudo, que sei da poesia? Do que estou certo é de que não se celebrará o funeral da poesia no próximo século.
Em todas as épocas a poesia foi dada como morta. Porém, tem-se mostrado vitalícia, ressuscita com grande intensidade, parece ser eterna. Com Dante, pareceu que terminava. Porém, pouco depois, Jorge Marinque lançava uma centelha, uma espécie de sputnik, que prosseguia cintilando nas trevas. E logo Victor Hugo parecia arrasar, não ficava nada para os demais. Então o senhor Charles Baudelaire apresentou-se correctamente trajado de dândi, seguido do jovem Arthur Rimbaud, trajado de vagabundo, e a poesia começou de novo. Depois de Walt Whitman, que esperança!, ficaram plantadas todas as folhas de relva, não se podia pisar no relvado. Não obstante, veio Maiakovski e a poesia parecia uma casa de máquinas: deram-se assobios, disparos, suspiros, soluços, ruídos de combóios e de carros blindados. E assim prossegue a história.
É claro que os inimigos da poesia sempre pretenderam assestar-lhe uma pedrada num olho ou um golpe de garrote na nuca. Fizeram-no de diversos modos, como marechais individuais, inimigos da luz ou regimentos burocráticos que marcharam com passo de ganso contra os poetas. Conseguiram o desespero de alguns, a decepção de outros. Mas a poesia começou a brotar como uma fonte ou manar como uma ferida ou a construir com o braço partido ou a cantar no deserto ou a levantar-se como uma árvore ou a transbordar como um rio ou a estrelar-se como a noite nas mesetas da Bolívia.
A poesia acompanhou os agonizantes e estancou as dores, conduziu às vitórias, acompanhou os solitários, foi incendiária como o fogo, leve e fresca como a neve, teve mãos, dedos e punhos, teve rebentos como a primavera: deitou raízes no coração do homem.
Não é provável que os poetas encabecem uma sublevação mundial para que se reparta a poesia. A poesia será repartida como consequência do progresso humano, do desenvolvimento e do acesso dos povos ao livro e à cultura. Não é provável que os poetas cheguem a opinar ou a governar, embora alguns deles o estejam fazendo, alguns muito mal e outros menos mal. Mas os poetas serão sempre bons conselheiros e cuidado com deixar de ouvi-los. Muitas vezes os governantes têm comunicações públicas com seus povos. A poesia tem comunicação secreta com os sofrimentos do homem. Há que ouvir os poetas.


A fábrica do poema (Adriana Calcanhoto)

Sonho o poema de arquitetura ideal
Cuja própria nata de cimento
Encaixa palavra por palavra, tornei-me perito em extrair
Faíscas das britas e leite das pedras.
Acordo;
E o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.
Acordo;
O prédio, pedra e cal, esvoaça
Como um leve papel solto à mercê do vento e evola-se,
Cinza de um corpo esvaído de qualquer sentido
Acordo, e o poema-miragem se desfaz
Desconstruído como se nunca houvera sido.
Acordo! os olhos chumbados pelo mingau das almas
E os ouvidos moucos,
Assim é que saio dos sucessivos sonos:
Vão-se os anéis de fumo de ópio
E ficam-me os dedos estarrecidos.
Metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
Sumidos no sorvedouro.
Não deve adiantar grande coisa permanecer à espreita
No topo fantasma da torre de vigia
Nem a simulação de se afundar no sono.
Nem dormir deveras.
Pois a questão-chave é:
Sob que máscara retornará o recalcado?


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Mark Knopfler

Ligações
Caetano Veloso, Genesis, Adriana Calcanhoto

Textos:
Pablo Neruda

Edição e voz:
José-António Moreira


•••|•••|•••


And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012