Sons da Escrita 026

9 de Setembro de 2005

Segundo programa do ciclo Pablo Neruda

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


•••

Pablo Neruda

Vês estas mãos? (Pablo Neruda)

Vês estas mãos?
Mediram a terra, separaram os minerais e os cereais, fizeram a paz e a guerra, derrubaram as distâncias de todos os mares e rios, e, no entanto, quando te percorrem a ti,
pequena, meu grão de trigo, minha andorinha, não chegam para abarcar-te. Esforçadas, alcançam as pombas gémeas que repousam ou voam no teu peito, percorrem as distâncias das tuas pernas, enrolam-se na luz da tua cintura.
Para mim és um tesouro maior do que a imensidão do mar e és branca e és azul e és extensa como a terra na vindima.
Nesse território, dos teus pés à tua fronte, andando, andando, andando, eu passarei toda a minha vida.


Hand in hand (Dire Straits)

The sky is crying the streets are full of tears
Rain come down wash away my tears
And all this writing on the wall
Oh I can read between the lines
Rain come down forgive this dirty town
Rain come down and give this dirty town
A drink of water a drink of wine 

If I been hard on you I never chose to be
I never wanted no one else
I tried my best to be somebody you'd be close to
Hand in hand like lovers are supposed to 

As you'd sleep I'd think my heart would break in two
I'd kiss your cheek I'd stop myself from waking you
But in the dark you'd speak my name
You'd say baby what's wrong?
Oh here I am baby I'm coming back for more
I'm like a wave that's got to roll into the shore
Yes and if my love's in vain how come my love is so strong? 

Now you and me go parallel together and apart
And you keep the perfect distance and it's tearing at my heart
Did you never feel the distance
You never tried to cross no line
Now it's another dirty river and another dirty scar
And I don't know who's kissing you and I don't know where you are
So far from home don't you think of me sometime 

Sky is crying see the streets are full of tears
Rain coming down to wash away my fears
And all this writing on the wall
Oh I can read between the lines


Pablo Neruda

O teu sorriso (Pablo Neruda)

Tira-me o pão, se quiseres, tira-me o ar, mas não me tires o teu sorriso.

Não me tires a rosa, a lança que desfolhas, a água que de súbito brota da tua alegria, a repentina onda de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso com os olhos cansados, às vezes por ver que a terra não muda, mas ao entrar, o teu sorriso sobe ao céu a procurar-me e abre-me todas as portas da vida.

Meu amor, nos momentos mais escuros solta o teu sorriso e se de súbito vires que o meu sangue mancha as pedras da rua, ri, porque o teu riso será para as minhas mãos como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono, o teu sorriso deve erguer a sua cascata de espuma, e na primavera, amor, quero o teu sorriso como a flor que esperava, a flor azul, a rosa da minha pátria sonora.

Ri-te da noite, do dia, da lua, ri-te das ruas tortas da ilha, ri-te deste grosseiro rapaz que te ama, mas quando abro os olhos e os fecho, quando meus passos vão, quando voltam meus passos, nega-me o pão, o ar, a luz, a primavera, mas nunca o teu sorriso, porque então morreria.


Silver dreams, golden smiles (Devadip Carlos Santana)

You came to me
In a silver dream
With a glowing flow
Of a mountain stream

You lift my soul
Way beyond the sky
Just to wake me up
With your golden smiles

Silver dreams and golden smiles

I knew one day
You would come my way
You would help me see
The reality

Heaven and earth
They are one, the same
In my heart I know
When you call my name

Dreaming when I'm wide awake
See, when my eyes are closed
Flying, I don't need no wings
Being everywhere at once
Hold me, hold me in your arms
Fill me with your glowing grace


Pablo Neruda

Gosto de ti calada (Pablo Neruda)

Gosto de ti calada porque estás como ausente,
e me ouves de longe, e a minha voz não te toca.
É como se os teus olhos tivessem de ti voado
e parece que um beijo fechou a tua boca.

Como todas as coisas estão cheias da minha alma
tu emerges das coisas, cheia da alma minha.
Borboleta de sonho, pareces-te com a minha alma,
e pareces-te com a palavra melancolia.

Gosto de ti calada e estás como distante.
E estás como que queixando-te, borboleta em arrulho.
E ouves-me de longe, e a minha voz não te alcança:
Deixa-me que me cale com o silêncio teu.

Deixa-me que te fale também com o teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
Tu és igual à noite, calada e constelada.
O teu silêncio é de estrela, tão longínquo e singelo.

Gosto de ti calada porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se tivesses morrido.
Uma palavra então, um sorriso bastam.
E eu estou alegre, alegre de que não seja verdade.


Keep talking (Pink Floyd)

For millions of years mankind lived just like the animals
Then something happenend which unleashed the power of our imagination
We learned to talk

There's a silence surrounding me
I can't seem to think straight
I'll sit in the corner
No one can bother me
I think I should speak now Why won't you talk to me
I can't seem to speak now You never talk to me
My words won't come out right What are you thinking
I feel like I'm drowning What are you feeling
I'm feeling weak now Why won't you talk to me
But I can't show my weakness You never talk to me
I sometimes wonder What are you thinking
Where do we go from here What are you feeling

It doesn't have to be like this
All we need to do is make sure we keep talking

Why won't you talk to me I feel like I'm drowning
You never talk to me You know I can't breathe now
What are you thinking We're going nowhere
What are you feeling We're going nowhere

Why won't you talk to me
You never talk to me
What are you thinking
Where do we go from here

It doesn't have to be like this
All we need to do is make sure we keep talking


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
David Lanz

Ligações
Dire Straits, Devadip Carlos Santana, Pink Floyd

Textos:
Pablo Neruda

Edição e voz:
José-António Moreira


•••|•••|•••


And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012