Sons da Escrita 027

16 de Setembro de 2005

Terceiro programa do ciclo Pablo Neruda

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Pablo Neruda

O vento é um cavalo (Pablo Neruda)

O vento é um cavalo!
Ouve como ele corre pelo mar, pelo céu.
O vento quer levar-me: escuta como recorre ao mundo para me levar para longe.
Esconde-me nos teus braços, somente por esta noite, enquanto a chuva rompe, contra o mar e contra a terra, a sua boca inumerável.
Escuta como o vento me chama, galopando, para me levar para longe.
Com a tua frente à minha frente, com a tua boca na minha boca, atados os nossos corpos ao amor que nos queima, deixa que o vento passe sem que me possa levar.
Deixa que o vento corra coroado de espuma, que me chame e me procure.
E eu,  galopando, emergido debaixo dos teus grandes olhos, mesmo que só esta noite, meu amor, descansarei.


Riders on the storm (Doors)

Riders on the storm
Riders on the storm
Into this house we're born
Into this world we're thrown
Like a dog without a bone
An actor out on loan
Riders on the storm
There's a killer on the road
His brain is squirmin' like a toad
Take a long holiday
Let your children play
If ya give this man a ride
Sweet family will die
Killer on the road, yeah
Girl ya gotta love your man
Girl ya gotta love your man
Take him by the hand
Make him understand
The world on you depends
Our life will never end
Gotta love your man, yeah
Riders on the storm
Riders on the storm
Into this house we're born
Into this world we're thrown
Like a dog without a bone
An actor out on loan
Riders on the storm


Pablo Neruda

É assim que te quero (Pablo Neruda)

É assim que te quero, amor, assim é que eu gosto de ti, tal como te vestes e como arranjas os cabelos e como a tua boca sorri, ágil como a água da fonte sobre as pedras puras, é assim que te quero.
Ao pão não peço que me ensine, mas antes que não me falte em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde vem nem para onde vai, apenas quero que a luz alumie, e também não peço à noite explicações, espero-a e envolve-me, e assim tu pão e luz e sombra és.
Chegaste à minha vida com o que trazias, feita de luz e pão e sombra, eu esperava-te, e é assim que preciso de ti, assim que te amo, e os que amanhã quiserem ouvir o que não lhes direi, que o leiam aqui e retrocedam hoje porque é cedo para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas uma folha da árvore do nosso amor, uma folha que há-de cair sobre a terra como se a tivessem produzido os nosso lábios, como um beijo caído das nossas alturas invencíveis para mostrar o fogo e a ternura de um amor verdadeiro.


I want you (Bob Dylan)

The guilty undertaker sighs,
The lonesome organ grinder cries,
The silver saxophones say I should refuse you.
The cracked bells and washed-out horns
Blow into my face with scorn, but it's not that way, I wasn't born to lose you.
I want you, I want you, I want you so bad, Honey, I want you.

The drunken politician leaps upon the street where mothers weep
And the saviors who are fast asleep, they wait for you.
And I wait for them to interrupt me drinkin' from my broken cup
And ask me to open up the gate for you.
I want you, I want you, I want you so bad, Honey, I want you.

Now all my fathers, they've gone down
True love they've been without it.
But all their daughters put me down
'Cause I don't think about it.

Well, I return to the Queen of Spades and talk with my chambermaid.
She knows that I'm not afraid to look at her.
She is good to me and there's nothing she doesn't see.
She knows where I'd like to be but it doesn't matter.
I want you, I want you, I want you so bad, Honey, I want you.

Now your dancing child with his Chinese suit,
He spoke to me, I took his flute.
No, I wasn't very cute to him,
Was I?
But I did it, though, because he lied
Because he took you for a ride
And because time was on his side
And because I . . .
I want you, I want you, I want you so bad, Honey, I want you.


Pablo Neruda

Posso escrever os versos mais tristes (Pablo Neruda)

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.
Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.
Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.
A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.
De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.
Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.


Sad old red (Simply Red)

I walk on stone, it leads me home.
We don't have streets, just pure concrete.
I'm not glad when I get home,
I'm sad old Red, I don't wanna be alone.

Sad old Red, sat at home.
Sad old Red, living on his own.
Sad old Red, sat at home.
Sad old Red, let me take you home.

It's a cubic room, two hole peep through.
Shadows on the wall of trees so tall.
I think of her again, the joy she used to bring.
Lay there in bed two words she said.
She said "Oh Red" (repeat)

Sad old Red, that's what I am.
All the time, every night,
Sad old Red


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
William Elwood

Ligações
Doors, Bob Dylan, Simply Red

Textos:
Pablo Neruda

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012