Sons da Escrita 115

18 de Maio de 2007

Segundo programa do ciclo Papiniano Carlos

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Papiniano Carlos

Aqui te sonho (Papiniano Carlos)

Aqui aguardo, aguardarei
a tua vinda. Não demores. Cresce
na noite que me cobre. Aqui
te sonho e sonharei mesmo
quando por mim passares
e eu vergue ao peso
do teu hálito. Aqui, passado, presente
e futuro se cruzam e confundem,
o tempo paira suspenso, ansioso
do rumor dos teus passos. E eu sei
que vens perto, que vais tocar-me
em breve de leve nos cabelos. Que vais
atravessar-me lado a lado.


Don't dream it's over (Crowded House) 

There is freedom within, there is freedom without
Try to catch the deluge in a paper cup
There's a battle ahead, many battles are lost
But you'll never see the end of the road
While you're travelling with me

Hey now, hey now
Don't dream it's over
Hey now, hey now
When the world comes in
They come, they come
To build a wall between us
We know they won't win

Now I'm towing my car, there's a hole in the roof
My possessions are causing me suspicion but there's no proof
In the paper today tales of war and of waste
But you turn right over to the T.V. page

Hey now, hey now
Don't dream it's over
Hey now, hey now
When the world comes in
They come, they come
To build a wall between us
We know they won't win

Now I'm walking again to the beat of a drum
And I'm counting the steps to the door of your heart
Only shadows ahead barely clearing the roof
Get to know the feeling of liberation and release

Hey now, hey now
Don't dream it's over
Hey now, hey now
When the world comes in
They come, they come
To build a wall between us
We know they won't win

Don't let them win


Papiniano Carlos

No silêncio (Papiniano Carlos)

No silêncio
construamos, amor,
nossa morada.

Na pedra, na água, no relâmpago,
no canto desta ave.

Na angústia, no sangue, na morte e na vida,
na esperança em flor
desta seara.

Nos ares, nos céus, nas mais impuras palavras,
na sede, na fome,
nesta baioneta,
nesta espingarda.

Na chuva e no vento, na relva, na manhã que nasce
com este menino.

No sol e nas flores, nas nuvens, nos rios e na inocência
deste peixe,
deste insecto.

No frio e no fogo, no amor e na ansiedade, no vôo
deste pombo branco.


Silence is golden (Tremeloes)

Oh, don't it hurt deep inside
To see someone do something to her
Oh, don't it pain to see someone cry
Oh, especially when someone is her

Silence is golden, but my eyes still see
Silence is golden, golden
But my eyes still see

Talking is cheap, people follow like sheep
Even though there is nowhere to go
How could she tell, he deceived her so well
Pity, she'll be the last one to know

Silence is golden, but my eyes still see
Silence is golden, golden
But my eyes still see

How many times will she fall for his line
Should I tell her or should I keep cool?
And if I tried, I know she'd say I lied
Mind your business, don't hurt her, you fool

Silence is golden, but my eyes still see
Silence is golden, golden
But my eyes still see


Papiniano Carlos

Canção do amor fecundo (Papiniano Carlos)

Vem, tu és a minha rapariga,
aquela que eu espero sem preconceitos errados, nem cinismos de espécie alguma,
porque és humanamente pura e digna
das carícias que guardo desde o fundo de mim.

Vem, ó minha rapariga, ó camarada resoluta,
que irás comigo partilhar os caminhos bons ou difíceis
dos dias próximos, das próximas jornadas. Enquanto desvendarmos os mistérios
da nossa unidade em terra e em sangue, caminharemos lado a lado, o mundo será nosso!
Debaixo dos nossos pés
brotrarão fontes, seremos claridade.

Vem, e eu levarei as crianças travessas dos meus olhos
a brincar junto dos teus que são piscinas
de águas fosforescentes com pepitas de ouro no fundo
e cheias de peixes multicolores.

Vem e serei o sudoeste bonançoso afagando as dunas macias dos teus seios
mai-los teus cabelos longos, diluídos entre os meus dedos blandiciosos;
perfumar-te-ei de maresia
e cantar-te-ei uma canção de amor suavíssima.

Vem e hei-de espremer a carne sumarenta da tua boca
entre os meus beiços queimados das sedes
que trago desde o fundo de mim.

Vem, eu sei que virás nua no corpo e na alma
na hora propícia de nós os dois,
e rasgarei a leiva vermelha do teu sexo, semear-me-ei e refloriremos.


Love's divine (Seal)

Then the rainstorm came over me
And I felt my spirit break
I had lost all of my belief, you see
And realize my mistake
But time through a prayer to me
And all around me became still

I need love, love's divine
Please forgive me now I see that I've been blind
Give me love, love is what I need to help me know my name

Through the rainstorm came, century
And I felt my spirit fly
I had found all of my reality
I realize what it takes

'Cause I need love, love’s divine
Please forgive me now I see that I’ve been blind
Give me love, love is what I need to help me know my name

Oh I, don't bet [don’t bet], don’t break [don’t break]
Show me how to live a promise me you won’t forsake
‘Cause love can help me know my name

Well I try to say there's nothing wrong
But inside I felt me lying all and all
But the message here was planned to see
Believe me…

'Cause I need love, love’s divine
Please forgive me now I see that I’ve been blind
Give me love, love is what I need to help me know my name

Oh I, don’t bet [don’t bet], don’t break [don’t break]
Show me how to live a promise me you won’t forsake
‘Cause love can help me know my name

Love can help me know my name.


A teu lado, amor,
não há muros, silêncio, morte.

Por cada espinho de aço cravado em nossa carne,
há um rio de sangue e primavera.

Por cada bofetada,
um sorriso de criança.

Por cada insulto, por cada punhalada,
uma seara, uma estrela, uma cidade.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Oystein Sevag & Lakki Patey, John Whelan & Eileen Ivers, David Lanz

Ligações
Crowded House, Tremeloes, Seal

Textos:
Papiniano Carlos

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012