Sons da Escrita 116

25 de Maio de 2007

Terceiro programa do ciclo Papiniano Carlos

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Papiniano Carlos

Soneto I (Papiniano Carlos)

Esquecerás, amor, a minha face,
meu cavalo de fogo, meu navio,
e arderás no lume que perpasse
na angústia sepultada em cada rio?

Ver-te-ei, louca e pura, dizer: Dá-se
um cavalo de fogo e um navio
a quem me recordar a sua face
— mas não mais me acharás no longo rio?

Estrada sem memória no areal,
frase uma vez só dita, ou bem ou mal,
em mim a porta, amor, em ti a chave.

Toma-a… E abre ou fecha a porta ardente
de vez… Quero saber se esta semente
ainda será vento, flor ou ave.


I can't forget (Leonard Cohen) 

I stumbled out of bed
I got ready for the struggle
I smoked a cigarette
And I tightened up my gut
I said this can't be me
Must be my double
And I can't forget, I can't forget
I can't forget but I don't remember what

I'm burning up the road
I'm heading down to Phoenix
I got this old address
Of someone that I knew
It was high and fine and free
Ah, you should have seen us
And I can't forget, I can't forget
I can't forget but I don't remember who

I'll be there today
With a big bouquet of cactus
I got this rig that runs on memories
And I promise, cross my heart,
They'll never catch us
But if they do, just tell them it was me

Yeah I loved you all my life
And that's how I want to end it
The summer's almost gone
The winter's tuning up
Yeah, the summer's gone
But a lot goes on forever
And I can't forget, I can't forget
I can't forget but I don't remember what


Papiniano Carlos

Soneto II (Papiniano Carlos)

Um viver que é morrer a cada hora,
angústia que é prazer, surda harmonia,
todo o bem, todo o mal, dor, alegria,
abutre e pomba, luz que me devora.

Prisão donde não quero ir-me embora,
jardim de vidro negro, claro dia,
cavalo de fogo, ácida agonia,
os infernos, os céus, barco na aurora.

Aqui, somente a sede ardente e a fonte
para matá-la, aqui, céus, horizonte
e o vôo, a fuga, a súbita viagem.

Não conheço, não sei de outro país.
Ó meu amor, feliz ou infeliz,
por que me escondes minha própria imagem?


Your mirror (Simply Red)

I've got to stand up for myself
This society don't care about nobody else
I've got to be strong
Even if I know that this feeling is wrong
I've got to not care
Even if I know that this world is meant to
Share

Wait a minute. This is wrong
Even the birds still sing their faithful song
And your beauty lies within you
Look in the mirror baby
Look in the mirror baby

What you gonna do when your friends have
Gone away
And deserted you
You'll have to be strong
24 hours can seem so long
You're taught to not care
And then not realise this world is meant to
Share

We've got to stand up for ourselves
Even if a leader so cold wants to glory himself
We've got to be strong
Even if our reasons seem wrong
We've got to not care
Even if the world that we know may not even
Be here


Papiniano Carlos

Soneto III (Papiniano Carlos)

Aquele por quem chamas noite e dia,
com teu sangue, tua voz e a voz do vento,
prisioneiro em seu próprio sofrimento
neste poço de carne e agonia;

aquele que tacteando busca o dia
de teu rosto chegando, flor no tempo,
e transforma seu áspero tormento
num cântico de amor e alegria;

e, cego, surdo e mudo, assim proclama
o seu amor, seu vôo, a viva chama
que irrompe a cada sílaba que dizes:

vê-lo-ás, meu amor, enfim voltar
antes que chegue o fim, súbito mar
coroado de sol e de raízes.


See me, feel me (Who)

See Me
Feel Me
Touch Me
Heal Me

See Me
Feel Me
Touch Me
Heal Me

Listening to you, I get the music
Gazing at you, I get the heat
Following you, I climb the mountain
I get excitement at your feet

Right behind you, I see the millions
On you, I see the glory
From you, I get opinion
From you, I get the story

Listening to you, I get the music
Gazing at you, I get the heat
Following you, I climb the mountain
I get excitement at your feet

Right behind you, I see the millions
On you, I see the glory
From you, I get opinion
From you, I get the story


Não te impacientes, viajante.
Os dias escoar-se-ão por ti
sem que os chames
(ou possas deter!):

Esta semente será árvore,
este ramo será barco.
E este barco
a tua viagem.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Ralf Illemberger, Enya, Andreas Vollenweider

Ligações
Leonard Cohen, Simply Red, Who

Textos:
Papiniano Carlos

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012