Sons da Escrita 252

20 de Novembro de 2009

Segundo programa do ciclo Paul Auster

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Paul Auster

Sonho e matriz (Paul Auster)

Coisas inaudíveis, noite após noite
cinzeladas:
respiração, subterrânea
através do inverno: palavras-poço
navegam a luz desempedrada
da canção ribeirinha
e da ravina.

Passas.
Entre o medo e a memória,
a ágata
dos teus passos muda-se
em carmim
na poeira da infância.

Sede: e coma: e folha –
das fendas
do desaprendido: a anónima mensagem,
sepultada no meu corpo.

O linho branco
suspenso na corda. A térmita
espezinhada
no prado.

Da ruína
o perfume da hortelã.


Sitting in a dream (Deep Purple)

I'm just passing time before the Ball
Playing my guitar
I don't have to be where I don't want to be at all
Maybe I'll go far
Going nowhere, sitting in a dream...
Ah, in a dream

Sitting in a landscape full of sighs
Dream away the day
Making up a tune about the blueness of the skies
This is where I'll stay
Going nowhere, sitting in a dream...
Oh, in a dream

Watching as a red and white balloon
Sails across my mind
In between the images that drift along my tune
Smile as they unwind
Going nowhere, sitting in a dream...
Ah, in a dream


Paul Auster

Gnómon (Paul Auster)

Sol de Setembro, desenganado. O purpúreo
campo alagado
nas horas do fôlego primeiro. Não
te irás submeter a esta luz, ou fechar os olhos
ao vigilante
abatimento da luz nos teus olhos.

Firmamento de factos. E tu,
como tudo o resto
que se move. Semente descrita
nas suas partes e dedal de ar. Verme e nuvem
fissurados: o final
em aberto da frase
no momento em que dou início
ao meu silêncio.

Talvez, então, um mundo
que segrega as suas colheitas
nos pulmões, uma sobrevivência
através
da respiração apenas. E se nada,
então deixa ser o nada
a sombra
que dentro da tua caminha, o corpo
que a primeira pedra lançará, para que mesmo
ao ires embora de ti, rumo a ti
o possas sentir cheio de vontade, hora-a-hora
através das enormes
vinhas dos vivos.


Black september (Darryl Way’s Wolf)

(Texto indisponível)


Paul Auster

Incendiário (Paul Auster)

Horas de sílex. À nossa volta
a emudecida desordem
das pedras, e nós, coração
contra coração, no velho casco
de palha
que apodrece ao longo
da humedecida queda
da noite.

Nada restou. O olhar frio
abre-se ao frio,
como de fogo uma imagem
ceva
através da palavra
que se debate na tua boca. O mundo
é
o que tu lhe deixas, és apenas
tu
no mundo em que entra
o meu corpo: este lugar
onde há falta de tudo.


Who by fire (Leonard Cohen)

And who by fire, who by water,
who in the sunshine, who in the night time,
who by high ordeal, who by common trial,
who in your merry merry month of may,
who by very slow decay,
and who shall I say is calling?

And who in her lonely slip, who by barbiturate,
who in these realms of love, who by something blunt,
and who by avalanche, who by powder,
who for his greed, who for his hunger,
and who shall I say is calling?

And who by brave assent, who by accident,
who in solitude, who in this mirror,
who by his lady's command, who by his own hand,
who in mortal chains, who in power,
and who shall I say is calling?

Os incontáveis recessos da luz.
E cada coisa perdida – uma memória

do que nunca foi. As colinas. As impossíveis
colinas

perdidas na cintilação da memória.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Secret Garden

Ligações
Deep Purple, Darryl Way’s Wolf, Leonard Cohen

Textos:
Paul Auster

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012