Sons da Escrita 253

27 de Novembro de 2009

Terceiro programa do ciclo Paul Auster

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Paul Auster

Heraclitiano (Paul Auster)

Toda a terra, responsável
pela verdura, o lastro de carvão
do ar, e o Inverno
que deflagra
o fogo da terra, enquanto todo esse ar
se move
ininterruptamente
rumo ao verde instante
de nós mesmos. Sabemo-nos
comprometidos. E sabemos que jamais,
dada à luz pela terra,
nos poderá conter uma palavra
pequena quanto baste. Porque a exacta palavra
é de ar apenas, e na glauca
centelha
da nossa abissal
monocordia, outro receio não traz
senão o da vida. Seremos pois
nomeados
por tudo o que não somos. E quem quer
que a si mesmo se vislumbre
no ainda
não-dito,
saberá o que é recear
a sua exacta
medida de terra.


I am what I am (Mark Owen)

Looking at me through the eye of a needle
is a scary thing to do
I feel a mole hill lies in front of me to climb
Is your primary purpose in life
to scrutinize every move I make
cos if it is I think your wasting precious time

Well I know that I have got a job to do
And I know, that my job is pleasing you, but

I am what I am
The way god made me
I am what I am
Don't try and change me

Well I know I have my weaknessess
as you point them out to me
but our confont the spots of doubt as they arise
Never born to be a leader
but I'll take my role with pride
cos a soldier with his honours lies inside

Well I know that I have got a job to do
As you say, that my job revolves around you
I am what I am
The way god made me
I am what I am
Don't try and change me

Well I know that I have got a job to do
But my life, wasn't made:for you

I am what I am
The way god made me
I am what I am
Don't try and change me

I am what I am
The way god made me


Paul Auster

Mentiras. Decretos. 1972 (Paul Auster)

Imagina:
a palavra convocadora
que acampou na sujidade
deste inacessível paraíso
de pelágicos queixumes,
continua a guerrear
o tempo.

Imagina:
nem mesmo agora
ele renuncia
ao seu voto, nem mesmo agora,
despercebido, ele balbucia de volta
ao seu reerguido trono.

Imagina:
os assassinados,
abaixo dele radiantes e malditos,
sinalizam nas facas
do seu subjugado silêncio de nascença,
o âmago das vilas
da sua boca.

Imagina:
digo-te isto,
desde o crepúsculo do primeiro dia,
imperecível,
ao longo do curto e humano pavio
da resistência.


Lies (Camel)

Tell me no lies,
has peace arrived...
Or, is this some kind of joke?

What a surprise,
you don't realise...
There's some things you don't own.

Can you disguise,
can you simplify...
This change you put me through?

Can you revive,
and will I survive...
This life you've brought me to?

Paul Auster

Final de verão (Paul Auster)

Dilúvio boreal, e todos da noite, desobrigados
pela altura das cheias do olhar. A nossa óssea
vontade quebrada, contrariando o fluxo
de pedras no nosso sangue: vertigem
nos píncaros de hélio
da linguagem.

Amanhã: uma vereda de montanha
raiada de giestas. Luz do sol
nas fissuras da rocha. Menoridades.
Como se pudéssemos suster
um único sopro
até ao limiar da respiração.

Não há terra prometida.


The promised land (Bruce Springsteen)

On a rattlesnake speedway in the Utah desert
I pick up my money and head back into town
Driving cross the Waynesboro county line
I got the radio on and I'm just killing time
Working all day in my daddy's garage
Driving all night chasing some mirage
Pretty soon little girl I'm gonna take charge

The dogs on Main Street howl
'cause they understand
If I could take one moment into my hands
Mister I ain't a boy, no I'm a man
And I believe in a promised land

I've done my best to live the right way
I get up every morning and go to work each day
But your eyes go blind and your blood runs cold
Sometimes I feel so weak I just want to explode
Explode and tear this whole town apart
Take a knife and cut this pain from my heart
Find somebody itching for something to start

There's a dark cloud rising from the desert floor
I packed my bags and I'm heading straight into the storm
Gonna be a twister to blow everything down
That ain't got the faith to stand its ground
Blow away the dreams that tear you apart
Blow away the dreams that break your heart
Blow away the lies that leave you nothing but lost and brokenhearted


Não há fronteiras
na luz. E a terra
não nos deixa palavra alguma
para cantar. Porque o desabar da terra
debaixo dos pés

é uma música em si, e caminhar
por entre estas pedras
é nada ouvir
para lá de nós mesmos.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Patrick O’Hearn

Ligações
Mark Owen, Camel, Bruce Springsteen

Textos:
Paul Auster

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012