Sons da Escrita 283

19 de Junho de 2010

Primeiro programa do ciclo Paul Celan

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Paul Celan

De todas as feridas

Lança-me aos pés do coração a luva do silêncio:
Só uma vez no Outono a pedra reverdece — foi ontem;
foi quando o sal nas ruas era tão vermelho,
tão vermelho que se pensaria que era chegada a hora
a que se acena com os véus da meia-noite:
o tempo-de-tulipas dessa hora
em que o desejo enche o copo de toda a gente,
o berço e o caixão de toda a gente —
a hora que liberta do gelo o teu olhar,
te faz arregaçar a tua sombra
e arranca aos sinos o seu silêncio quando danças.

Lança-me aos pés do coração a luva do silêncio:
foi ontem
e jaz no sangue com nós dois.


Blood brothers (Bruce Springsteen)

We played king of the mountain out on the end
The world come chargin' up the hill, and we were women and men
Now there's so much that time, time and memory fade away
We got our own roads to ride and chances we gotta take
We stood side by side each one fightin' for the other
We said until we died we'd always be blood brothers

Now the hardness of this world slowly grinds your dreams away
Makin' a fool's joke out of the promises we make
And what once seemed black and white turns to so many shades of gray
We lose ourselves in work to do and bills to pay
And it's a ride, ride, ride, and there ain't much cover
With no one runnin' by your side my blood brother

On through the houses of the dead past those fallen in their tracks
Always movin' ahead and never lookin' back
Now I don't know how I feel, I don't know how I feel tonight
If I've fallen 'neath the wheel, if I've lost or I've gained sight
I don't even know why, I don't know why I made this call
Or if any of this matters anymore after all

But the stars are burnin' bright like some mystery uncovered
I'll keep movin' through the dark with you in my heart


Paul Celan

Negro real

Só a noite deves deixar falar diante dos olhos:
só a folha que ouve onde ainda há vento;
só a voz na gaiola do pássaro.

Só elas, elas e nada mais.
Mas a ti mesmo dá um pontapé e diz: sê corajoso,
sê digno da pedra sobre ti,
não quebres a amizade com a barba dos mortos,
junta a flor ao verme,
iça a tua vela sobre caixões,
traz para bordo os escaravelhos das campinas mais baixas,
dá a notícia aos obscuros.

Dá-lhes a dupla notícia:
de ti e de ti,
de ambos os pratos da balança,
da escuridão que quer entrar,
da escuridão que deixa entrar.

Dá a notícia aos escaravelhos,
dá a notícia aos obscuros,
junta a flor ao verme,
iça a tua vela sobre caixões,
deita o teu coração à cabeceira.


Black hole sun (Soundgarden)

In my eyes, indisposed
In disguise as no one knows
Hides the face, lies the snake
in The sun in my disgrace
Boiling heat, summer stench
'Neath the black the sky looks dead
Call my name through the cream
And I'll hear you scream again

Black hole sun
Won't you come
And wash away the rain
Black hole sun
Won't you come
Won't you come


Stuttering, cold and damp
Steal the warm wind tired friend
Times are gone for honest men
And sometimes far too long for snakes
In my shoes, a walking sleep
And my youth I pray to keep
Heaven send Hell away
No one sings like you anymore

Hang my head, drown my fear
Till you all just disappear


Paul Celan

Retrato de uma sombra

Os teus olhos, rasto de luz dos meus passos;
a tua testa, lavrada pelo brilho dos punhais;
as tuas sobrancelas, orla do caminho da tragédia;
as tuas pestanas, mensageiros de longas cartas;
os teus cabelos, corvos, corvos, corvos;
as tuas faces, campo de armas da madrugada;
os teus lábios, hóspedes tardios;
os teus ombros, estátua do esquecimento;
os teus seios; amigos das minhas serpentes;
os teus braços, álamos à porta do castelo;
as tuas mãos, tábuas de juras mortas;
as tuas ancas, pão e esperança;
o teu sexo, lei do fogo na floresta;
as tuas coxas, asas no abismo;
os teus joelhos, máscaras da tua altivez;
os teus pés, campo de batalha dos pensamentos;
as tuas solas, criptas em chamas;
as tuas pegadas, olho da nossa despedida.


Shadow of a lonely man (Alan Parsons Project com John Miles)

Look at me now, a shadow of the man I used to be
Look through my eyes and through the years of lonliness you'll see

To the times in my life when I could not bear to lose, a simple game
And the least of it all was the fortune and the fame
But the dream seemed to end just as soon as it had begun, was I to know?
For the last thing of all that was on my mind, was the close at the
end of the show
The shadow of a lonely man, feels nobody else
In the shadow of a lonely, lonely man
I can see myself

(Looking out of nowhere, looking out of nowhere)

But the sound of the crowds when they come to see me now, is not the same
And the jest of it all is I can't recall my name
But I'll cling to a hope till I can't hold on anymore, anymore
And for all the acclaim I am all alone and I see as I look through the door

The shadow of a lonely man, there's nobody else
In the shadow of a lonely, lonely man
I can see myself

Look at me now, a shadow of the man I used to be


A morte é uma flor que só abre uma vez.
Mas quando abre, nada se abre com ela.
Abre sempre que quer, e fora de estação.

E vem, grande mariposa, adornando caules ondulantes.
Deixa-me ser o caule forte da sua alegria.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Suzanne Ciani

Ligações
Bruce Springsteen, Soundgarden, Alan Parsons Project com John Miles

Textos:
Paul Celan

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012