Sons da Escrita 020

29 de Julho de 2005

Segundo programa do ciclo Paul Éluard

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Paul Éluard

A de sempre, toda ela (Paul Éluard)

Se eu vos disser: tudo abandonei!, é porque ela não é a do meu corpo! Eu nunca me gabei, não é verdade?, e a bruma de fundo em que me movo não sabe nunca se eu passei.

O leque da sua boca, o reflexo dos seus olhos, sou eu o único a falar deles, o único a ser cingido por esse espelho tão nulo em que o ar circula através de mim.

E o ar tem um rosto, um rosto amado, um rosto amante, o teu rosto!

A ti que não tens nome e que os outros ignoram, o mar diz-te: sobre mim, os astros adivinham-te, as nuvens imaginam-te e o sangue espalhado nos melhores momentos, o sangue da generosidade, transporta-te com delícias.


I am free (Sri Chinmoy/Devadip Carlos Santana)

I am free because I am not of the body
I am free because I am not the body

I am free because I am the soul bird that flies in infinity’s sky
I am the soul child that dreams on the lap of the immortal king supreme


Paul Éluard

Em primeiro lugar (Paul Éluard)

A fronte colada aos vidros — como quem vela uma mágoa, céu da noite que já ultrapassei, planícies minúsculas nas minhas mãos abertas, no seu duplo horizonte inerte, indiferente — a fronte colada aos vidros, como quem vela de mágoa!
Procuro-te para além da espera, para além de mim mesmo e já não sei, de tanto que te amo, qual de nós está ausente.


In my world (Moody Blues)

In my world
It's heaven on earth when you're close to me
I could see
That moment of truth when you spoke to me
In my world
It's never too late we can both be free
In my world
It's heaven on earth when you're near

If you knew
The changes I feel that you put me through
And you do
I see in your eyes that you really do
And it's true
It happened so fast that it must be true
In my world
It's heaven on earth when you're near

And I'm only just beginning
To believe what you have done
How you turned it upside down
This world of mine
And it seems while I was looking
It was right in front of me
All the time


Paul Éluard

Liberdade (Paul Éluard)

Nos meus cadernos de escola,
Sobre a carteira, nas árvores,
Sobre a neve, sobre a areia — escrevo o teu nome
Em toda a página lida,
Em toda a página em branco,
Sem papel, na pedra ou na cinza — escrevo o teu nome
Sobre as gravuras douradas,
Sobre as armas dos guerreiros,
Sobre a coroa dos reis — escrevo o teu nome
Na floresta e no deserto,
Sobre os ninhos, sobre as gestas,
Nos ecos da minha infãncia — escrevo o teu nome
Nas maravilhas das noites,
No pão branco das jornadas,
Nas estações de noivado — escrevo o teu nome
Nos fiapos de azul-celeste,
No tanque solar bolor,
No lago lua vibrante — escrevo o teu nome
Nos campos, nos horizontes,
Nas asas dos passarinhos,
Sobre os moinhos de sombras — escrevo o teu nome
Em cada sopro de aurora,
Sobre o mar, sobre os navios,
Na insensatez das montanhas — escrevo o teu nome
Nas nuvens soltas revoltas,
Na tormenta transpirada,
Na chuva insistente e boba — escrevo o teu nome
Sobre as formas cintilantes,
Nas campânulas de cores,
Por sobre a verdade física — escrevo o teu nome

Sobre as veredas despertas,
Nos caminhos desdobrados,
Sobre as praças transbordantes — escrevo o teu nome
Na lâmpada que se acende,
Na lâmpada que se apaga,
Nas casas cheias de gente — escrevo o teu nome
No fruto cortado em dois,
O do espelho e o do meu quarto,
Na concha sem mim depois — escrevo o teu nome
No meu cão terno e guloso,
Mas sempre de orelha em pé
E patas destrambelhadas — escrevo o teu nome
No trampolim da minha porta,
Nos objectos familiares,
Nas línguas do lume bento — escrevo o teu nome
Em toda a carne acordada,
Na fronte dos meus amigos,
Em cada mão que me afaga — escrevo o teu nome
Na vidraça das surpresas,
Sobre os lábios expectantes,
Muito acima do silêncio — escrevo o teu nome
Nos refúgios descobertos,
Nos maus faróis desmontados,
Nas paredes do meu tédio — escrevo o teu nome
Sobre a ausência do desejo,
Sobre a solidão desnudada,
Nos descaminhos da morte — escrevo o teu nome
No retorno da saúde,
No risco que se correu,
Na esperança sem lembrança — escrevo o teu nome
E, pelo poder de um nome,
Começo a viver de facto:
Nasci para te conhecer e te chamar LIBERDADE


Freedom exists/Feast of friends (Doors)

Did you know freedom exists in school books
Did you know madmen are running our prisons
w/in a jail, w/in a gaol w/in a white free protestant maelstrom
We're perched headlong on the edge of boredom
We're reaching for death on the end of a candle
We're trying for something that's already found us

Wow, I'm sick of doubt
Live in the light of certain south cruel bindings
The servants have the power dog-men & their mean women
pulling poor blankets over our sailors

I'm sick of dour faces staring at me from the T.V. Tower
I want roses in my garden bower; dig?
Royal babies, rubies must now replace aborted strangers in the mud
These mutants, blood-meal for the plant that's plowed

They are waiting to take us into the severed garden
Do you know how pale & wanton thrillful comes death on a stranger hour
unannounced, unplanned for
like a scaring over-friendly guest you've brought to bed

Death makes angels of us all & gives us wings
where we had shoulders smooth as raven's claws

No more money, no more fancy dress
This other kingdom seems by far the best
until its other jaw reveals incest
& loose obedience to a vegetable law

I will not go
Prefer a feast of friends
To the Giant family


Liberdade (Djavan)

Um amor
ou um gen
da mesma cor
cintila
em mim
o chão a tremer
conduz
a luz
meu amor
e quer me matar
de amor
que seja
assim
por obedecer
viver
por mim

E voar
onde o longe é pouco
cruzar os muros
do alƒm
e assim
pousar na terra
e amar
muito mais que poucos
pousar a vida
em duas mãos
e assim
cruzar a terra 

Liberdade
vai na poesia
traz meu destino
que eu vou
sair


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
George Martin, Mike Oldfield

Ligações
Sri Chinmoy e Devadip Carlos Santana, Moody Blues, Doors, Djavan

Textos:
Paul Éluard

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012