Sons da Escrita 021

5 de Agosto de 2005

Terceiro programa do ciclo Paul Éluard

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Paul Éluard

Algures, aqui, em toda a parte - fragmento (Paul Éluard)

Falo de um tempo liberto, dos coveiros da razão!
Falo da liberdade que acabará por convencer-nos — ninguém temerá o amanhã.
A esperança não levanta qualquer pó; nada, jamais será em vão!

Tento pensar numa prova mais dura do que imaginar este mundo como ele poderia ser; queria assegurar-me do concreto no tempo — partir daqui e de toda a parte para algures!

Esta é a minha mesa e o meu papel — daqui parto e de um pulo estarei no meio da multidão.
Apenas temo a sombra atroz do silêncio!

Da morte, nada sei, salvo que é efémera!
Todas as noites desejo deitar-me com a vida, em cada morte, desejo deitar-me com a vida!

O Inverno e o esquecimento anunciam um futuro verde.


Souvient-toi de m’oublier (Catherine Deneuve/Serge Gainsbourg)

Souviens-toi de m'oublier
- J'vais y penser
- Réfléchis comme un miroir
- J'vais voir
- Souviens-toi de m'oublier
- J'vais s'essayer
- L'amnésie a le pouvoir
D'la magie noire
Souviens-toi de m'oublier
Et quand j'pleurerai
- Fais un noeud à ton mouchoir
Pour ta mémoire
Souviens-toi de m'oublier
- J'vais y penser
- Les flash-back c'est comme voir
Des films noirs
Souviens-toi de m'oublier
- Ouais, j'vais y penser
- Réfléchis comme un miroir
- J'vais voir
- Souviens-toi de m'oublier
- J'vais s'essayer
- Tu sais bien qu'il va falloir
Ne plus nous voir
Mais souviens-toi


Paul Éluard

Algures, aqui, em toda a parte - fragmento (Paul Éluard)

A presença tem, para mim, os traços de quem amo!
É este o meu segredo — o que eu amo viverá, o que eu amo sempre viveu na unidade. Perigos e lutos, a latente escuridão, nunca puderam perverter o meu desejo infantil.

De todos os pontos do horizonte, amo quem me ama a mim.

Só vejo claro, só sou inteligível, quando o maor me traz o pólen de alguém.
Embriaga-me o sol da presença humana, sou maré que se anima com os seus elementos.

Fui criado, crio, não há outro equilíbrio, não há outra justiça.

Não sou como uma planta suspensa do tempo que faz; não sou como um insecto absorvido pelo chão — quando vôo, vou mais directo que a gaivota ou a andorinha.

Como um ferro pesado, um ferro ardente, passo as rugas do vento.

Já não preciso de asas para calcinar o peso e posso cavar, na terra, poços mais musculosos do que a minha força; e posso extrair do coração o tempo de ser sempre melhor.


Quelqu’un m’a dit (Carla Bruni)

On me dit que nos vies ne valent pas grand chose,
Elles passent en un instant comme fanent les roses.
On me dit que le temps qui glisse est un salaud
Que de nos chagrins il s'en fait des manteaux
Pourtant quelqu'un m'a dit...

{Refrain:}
Que tu m'aimais encore,
C'est quelqu'un qui m'a dit que tu m'aimais encore.
Serais ce possible alors ?

On me dit que le destin se moque bien de nous
Qu'il ne nous donne rien et qu'il nous promet tout
Parait qu'le bonheur est à portée de main,
Alors on tend la main et on se retrouve fou
Pourtant quelqu'un m'a dit ...

{au refrain}

Mais qui est ce qui m'a dit que toujours tu m'aimais?
Je ne me souviens plus c'était tard dans la nuit,
J'entend encore la voix, mais je ne vois plus les traits
"Il vous aime, c'est secret, lui dites pas que j'vous l'ai dit"
Tu vois quelqu'un m'a dit...

Que tu m'aimais encore, me l'a t'on vraiment dit...
Que tu m'aimais encore, serais ce possible alors?

On me dit que nos vies ne valent pas grand chose,
Elles passent en un instant comme fanent les roses
On me dit que le temps qui glisse est un salaud
Que de nos tristesses il s'en fait des manteaux,
Pourtant quelqu'un m'a dit que...


Paul Éluard

Algures, aqui, em toda a parte - fragmento (Paul Éluard)

Vivo à escala de todos — aquilo que me falta, outro o tem.
Todos sabem ler, à confiança, a lei que a ninguém manda curvar.
Tomo qualquer rosto que seja, como uma gota de aparência para animar todos os rostos. 

Começando por um, apenas — fiz do amor o cume de um universo de esperança.
Estamos em dia, um e outro, de nunca deixarmos de ser, de nunca renunciarmos à fraternidade.

Porém, este mundo é pequeno, pequeno como um só dia, pequeno como um nome banal, como uma folha de Outono.
Na mercearia, a criança repete as coisas que quer e, depois, conta os tostões.
O amante pensa no trabalho, o sábio pensa no combóio, o operário, no hospital.
A rua passa o pano sobre os passos dos homens lassos; o poeta quer comer; a prostituta quer vencer.

O cutelo vai cair sobre o pescoço condenado.
Um herói privado de armas, uma mãe morta de cansaço. O sono junta-os, a ambos, a manhã mal os desperta, dissolve-os a fadiga e a miséria separa-os.

Vejo as costas de um casaco cinzento numa rua baixa sob a chuva; vejo pigmeus sem consciência saudarem as bandeiras e orarem; vejo soldados no meio da lama saudarem as balas com a cabeça; vejo as casas demolidas, como que por prazer, para uma festa; vejo um ventre escancarado às moscas, ao sol, apodrecido; vejo as mãos estropiadas dos velhos que vão para o asilo.
Vejo belezas inúteis extinguindo-se na noite das dúvidas e as flores são artificiais e a terra faz-se estéril e eu, em breve, terei de me calar.

Se estou, porém, sobre a terra é porque o estão, também, outros que, como eu, balbuciaram antes de terem emudecido.

Temos de lhes dar a palavra. Eles beberam o veneno. Malditas suas mães, sua miséria, que nada conheceram de exaltante.

Não se deve prometer e dar vida, que não seja para perpetuar, como se perpetua uma rosa, envolvendo-a de mãos felizes.


Here, there and everywhere (Celine Dion/George Martin)

To lead a better life,
I need my love to be here.
Here making each day of the year,
Changing my life with a wave of her hand.
Nobody can deny that there's something there.
There, running my hands through her hair;
Both of us thinking how good it can be.
Someone is speaking but she doesn't know he's there.
I want her ev'rywhere, and if she's beside me
I know I need never care,
But to love her is to meet her ev'rywhere,
Knowing that love is to share,
Each one believing that love never dies,
Watching her eyes and hoping I'm always there.
I want her ev'rywhere, and if she's beside me
I know I need never care,
But to love her is to meet her ev'rywhere,
Knowing that love is to share,
Each one believing that love never dies,
Watching her eyes and hoping I'm always there.
To be there and ev'rywhere,
Here, there and everywhere.



Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Vangelis Papathanasiou

Ligações
Serge Gainsbourg e Catherine Deneuve, Carla Bruni, George Martin e Celine Dion

Textos:
Paul Éluard

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012