Sons da Escrita 055

25 de Março de 2006

Primeiro programa do ciclo Pedro Tamen

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


•••

Pedro Tamen

Escrito de memória (Pedro Tamen)

Formado em direito e solidão,
às escuras te busco enquanto a chuva brilha.
É verdade que olhas, é verdade que dizes.
Que todos temos medo e água pura.
A que deuses te devo, se te devo,
que espanto é este, se há razão pra ele?
Como te busco, então, se estás aqui,
ou, se não estás, porque te quero tida?
Quais olhos e qual noite?
Aquela
em que estiveste por me dizeres o teu nome.


I call your name (Mamas & Papas) 

I call your name but you're not there.
Was I to blame for being unfair?
Don't you know I can't sleep at night
Since you're been gone.
I never weep at night; I can't go on.

Don't you know I can't take it;
I don't know who can.
I'm not gonna make it;
I'm not that kind of man.

Don't you know I can't sleep at night.
But just the same,
I never weep at night; I call your name.

(John...John...)

Don't you know I can't take it;
I don't know who can.
I'm not gonna make it;
I'm not that kind of man.

Don't you know I can't sleep at night.
But just the same,
I never weep at night; I call your name.
I never weep at night; I call your name.


Pedro Tamen

Hoje trago-te o vento (Pedro Tamen)

Hoje trago-te o vento; eu sei que mais não pode ser o que te der. E calo-me; o resto já to dei, ao teu sereno pasmo de mulher. Hoje trago-te o vento, vento, o que ele tem mudado para nós. (O nosso passo antigo que era lento juntou-nos de repente numa voz). Hoje trago-te o vento renovado, o vento que de longe chegou cá: em cada monte e esquina foi lavado para chegar ao fundo do que há nesta pobreza de hoje, e, cá chegado, entrar na mão de carne que to dá.
De ti o cálice levanta no ar o sangue do Senhor; e assim é que eu percebo, meu amor, que a manhã renasceu e que ela é santa. De ti a noite satisfaz às horas que esperei pelo bom sono. E agora cada estrela tem um dono no mesmo exacto sítio em que tu estás. De ti uns olhos indicando o lugar que serena e onde eu reponho os dias novos se entregando. E de ti é que sei quem foi que deu cada minuto de hoje, e como estando calada e colocada a noite amanheceu.
Socorre a tua mão se no perdido céu levanto as trovoadas; se choram as trindades, já esquecido do vento que me dás, por elas intervém a tua paz e são espalhadas.
Teu riso soa então, do modo leve que a serra me ensinou; e nesta nova hora o tempo teve um vento que ficou.


A pillow of winds (Pink Floyd)

A cloud of eiderdown
Draws around me
Softening the sound.
Sleepy time when I lie
With my love by my side,
And she's breathing low. 

And the candle dies. 

When night comes down
You lock the door.
The book falls to the floor.
As darkness falls
The waves roll by,
The seasons change
The wind is warm. 

Now wakes the owl,
Now sleeps the swan
Behold the dream
The dream is gone.
Green fields, a cold rain
Is falling, in a golden dawn. 

And deep beneath the ground,
The early morning sounds
And I go down.
Sleepy time when I lie,
With my love by my side,
And she's breathing low. 

And I rise, like a bird,
In the haze, when the first rays
Touch the sky. 

And the night winds die.


Pedro Tamen

Ao calor da tua mão (Pedro Tamen)

Ao calor da tua mão refaz-se o mundo. Jardim suspenso, a hora, Aldebarã nasceu. E escoa-se um silêncio: lá no fundo, o mar é contrafeito mas é meu.
E nada mais sozinho! Oh, tempo imenso que passa sem passado e está em ti! Deitado, pelo ar aos olhos digo; e já não penso nos muros de saltar; e já te vi.
E canto agora o passo e a pegada, a ida pelo campo até ao mar; a precisão da hora de encontrar já estava no teu peito ignorada.
Em mim, também; coisa nenhuma pudera até então ser entendida.
Só lentamente agora se faz vida essa língua do vento e da caruma.
E não há nada, agora. Sabes da queda, do som, do simplesmente, das alturas? Uma menina branca e brusco monte, o ar de já lavado e cada mão segura e de coelha respirando. E não há nada, agora. Amando, é puros secos dedos que se dão.
Alaranjados, verdes, são deuses que aparecem trazendo mansas vozes, ventos do sul e mar nas solitárias mangas; e brandos entristecem à boca das palavras: nós temos o luar.
São tempos ora refundidos, trazem a morte ao ombro, lacustres companheiros de Caronte. Avançam seus convites; não sabem que é mais forte a certeza indivisa de termos cada fonte.
Tão fáceis de sentir! Mas renegamos a confusão com eles. Antes de ser ou estar vale antes o que paira e nós amamos e afugenta os deuses. Nós temos o luar.


God put your hand on me (Carmel)

(letra não disponível)


Ponho palavras como coisas feitas:
só entre elas, enquanto jogam, leves,
seu rodado sem cor nem qualidades,
minha ciência existe, e já não minha,
ou só tão minha como tua e delas,
ar entre os dedos, sumo de verdades.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Yanni

Ligações
Mamas & Papas, Pink Floyd, Carmel

Textos:
Paulo Ramalho

Edição e voz:
José-António Moreira


•••|•••|•••


And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012