Sons da Escrita 085

20 de Outubro de 2006

Primeiro programa do ciclo Rainer Maria Rilke

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Rainer Maria Rilke

Advento.1 (Rainer Maria Rilke)

A minha luta é esta:
sagrado de saudade
divagar pelos dias.
Depois, largo e forte,
com mil raízes fundo
mergulhar vida dentro —
e, amadurecido em dor,
ir longe para além da vida,
longe, para além do tempo.

Minha solidão sagrada,
és tão rica e pura e ampla
como um jardim que desperta.
Sagrada solidão minha —
fecha as tuas portas de ouro
ante os desejos que esperam.

O dia adormece manso, —
vagueio longe dos homens…
Despertos, em vasto círculo,
eu — e uma estrela pálida.

Seu olhar de luz entretecido
repousa claro e cintilante em mim;
parece estar, lá no céu,
tão só como eu aqui…


Missing you (Diana Ross) 

Since you've been away I've been down and lonely
Since you've been away I've been thinking of you
Trying to understand the reason you left me
What were you going through?

I'm missing you
Tell me why the road turns
Ooh ooh ooh
I'm missing you
Tell me why the road turns

As I look around I see things that remind me
Just to see you smile made my heart fill with joy
I'll still recall all those dreams we shared together
Where did you run to, boy?

Sometimes I've wondered I didn't understand
Just where you were trying to go
Only you knew the plan and I tried to be there
But you wouldn't let me in
But now you've gone away boy
I feel so broken hearted
I knew the day we started
That we were meant to be
If only you'd let me!
I've cried so many tears
Gotta face now all my fears
We let time slip away
I need you boy
Here today!

There was so much you gave me
To my heart, to my soul
There was so much of your dreams
That were never told
You had so much hope for a brighter day
Why were you my flower
Plucked away


Rainer Maria Rilke

Advento.2 (Rainer Maria Rilke)

Como os meus sonhos gritam por ti!
Penosamente nos fomos alheando,
e agora quer assasinar-me a alma
esta mísera solidão angustiada.

Nenhuma esperança que faça inflar as velas.
Só este sossego branco e amplo
que o meu querer inactivo
escuta em medo sufocante.

E eras bela. Em teu olhar pareciam
a noite e o sol triunfalmente unir-se.
Foi assim que o meu amor veio coroar-te.
E a minha saudade pálida das noites,
vendada de branco como uma vestal,
de pé junto às colunas do templo da tua alma
espalhava, sorrindo, flores brancas.


Queixa (Caetano Veloso)

Um amor assim delicado
Você pega e despreza
Não devia ter despertado
Ajoelha e não reza

Dessa coisa que mete medo
Pela sua grandeza
Não sou o único culpado
Disso eu tenho a certeza

Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora, e agora me diga aonde eu vou
Senhora, serpente, princesa

Um amor assim violento
Quando torna-se mágoa
É o avesso de um sentimento
Oceano sem água

Ondas, desejos de vingança
Nessa desnatureza
Batem forte sem esperança
Contra a tua dureza

Um amor assim delicado
Nenhum homem daria
Talvez tenha sido pecado
Apostar na alegria

Você pensa que eu tenho tudo
E vazio me deixa
Mas Deus não quer que eu fique mudo
E eu te grito essa queixa

Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora, e agora me diga aonde eu vou
Amiga, me diga


Rainer Maria Rilke

Hora grave (Rainer Maria Rilke)

Quem agora chora em algum lugar do mundo,
Sem razão chora no mundo,
Chora por mim.

Quem agora ri em algum lugar na noite,
quem, sem razão, ri na noite,
Ri-se de mim.

Quem agora caminha em algum lugar no mundo,
Sem razão vagueia pelo mundo,
Vem para mim.

Quem agora morre em algum lugar no mundo,
Sem razão morre no mundo,
Olha para mim.


Look at me (John Lennon)

Look at me
Who am I supposed to be?
Who am I supposed to be?
Look at me
What am I supposed to be?
What am I supposed to be?
Look at me
Oh my love, oh my love

Here I am
What am I supposed to do?
What am I supposed to do?
Here I am
What can I do for you?
What can I do for you?
Here I am
Oh my love, oh my love

Look at me, oh please look at me, my love
Here I am
Oh my love

Who am I?
Nobody knows but me
Nobody knows but me
Who am I?
Nobody else can see
Just you and me
Who are we?
Oh my love, oh my love, oh my love


A saudade é isto: viver nas ondas
e não ter pátria no tempo.
E desejos são isto: diálogos baixo
de horas diárias com a eternidade.

E a vida é isto: até que de um ontem
surge a mais solitária das horas
que, sorrindo diferente das outras irmãs,
vai calada ao encontro do eterno.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Vangelis Papathanasious, Camel

Ligações
Diana Ross, Alan Parsons Project, Caetano Veloso

Textos:
Rainer Maria Rilke

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012