Sons da Escrita 086

27 de Outubro de 2006

Segundo programa do ciclo Rainer Maria Rilke

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Rainer Maria Rilke

A solidão (Rainer Maria Rilke)

A solidão é como chuva.

Sobe do mar nas tardes em declínio;
das planícies perdidas na saudade
ela se eleva ao céu, que é seu domínio,
para cair do céu sobre a cidade.

Goteja na hora dúbia, quando os becos
anseiam longamente pela aurora,
quando os amantes se abandonam tristes
com a desilusão que a carne chora;
quando os homens, seus ódios sufocando,
num mesmo leito vão deitar-se: é quando
a solidão com os rios vai passando...


Lonely people (America) 

This is for all the lonely people
Thinking that life has passed them by
Don't give up until you drink from the silver cup
And ride that highway in the sky

This is for all the single people
Thinking that love has left them dry
Don't give up until you drink from the silver cup
You never know until you try

Well, I'm on my way
Yes, I'm back to stay
Well, I'm on my way back home (Hit it)

This is for all the lonely people
Thinking that life has passed them by
Don't give up until you drink from the silver cup
And never take you down or never give you up
You never know until you try


Rainer Maria Rilke

O mundo estava no rosto da amada (Rainer Maria Rilke)

O mundo estava no rosto da amada —
e logo converteu-se em nada, em
mundo fora do alcance, mundo-além.

Por que não o bebi quando o encontrei
no rosto amado, um mundo à mão, ali,
aroma em minha boca, eu só seu rei?

Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi.
Mas eu também estava pleno de
mundo e, bebendo, eu mesmo transbordei.


Over my shoulder (Mike & The mechanics)

Looking back over my shoulder
I can see that look in your eye
I never dreamed it could be over
I never wanted to say goodbye

Looking back over my shoulder
With an aching deep in my heart
I wish that we were starting over
Oh instead of drifting so far apart

Everybody told me you were leaving
Funny I should be the last to know
Baby please tell me that I'm dreaming
I just never want to let you go

I don't mind everybody laughing
But it's enough to make a grown man cry
Cos I can feel you slipping through my fingers
I don't even know the reason why

Every day it's a losing battle
Just to smile and hold my head up high
Could it be that we belong together
Baby won't you give me one more try
One more try

Looking back over my shoulder
Oh with an aching feeling inside
Cutting me up, deeper and deeper
Fills me with a sadness that I can't hide

Looking back over my shoulder
I can see that look in your eye
I never dreamed no no it could be over
I never wanted to say goodbye

Looking back over my shoulder
I can see that look in your eye


Rainer Maria Rilke

Cartas a um jovem poeta (extracto) (Rainer Maria Rilke)

Amar também é bom: porque o amor é difícil.
O amor de duas criaturas humanas talvez seja a tarefa mais difícil que nos foi imposta, a maior e última prova, a obra para a qual todas as outras são apenas uma preparação.
Por isso, pessoas jovens que ainda são estreantes em tudo, não sabem amar: tem que aprendê-lo. Com todo o seu ser, com todas as suas forças concentradas em seu coração solitário, medroso e palpitante, devem aprender a amar.
Mas a aprendizagem é sempre uma longa clausura.
Assim, para quem ama, o amor, por muito tempo e pela vida afora, é solidão, isolamento cada vez mais intenso e profundo.
O amor, antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa.
Que sentido teria, com efeito, a união com algo não esclarecido, inacabado, dependente?
O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo em si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro ser; é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe.
Do amor que lhes é dado, os jovens deveriam servir-se unicamente como de um convite para trabalhar em si mesmos.
A fusão com outro, a entrega de si, toda a espécie de comunhão não são para eles; são algo de acabado para o qual,
talvez, mal chegue actualmente a vida humana.
Creio que aquele amor persiste tão forte e poderoso na sua memória justamente por ter sido a sua primeira solidão
profunda e o primeiro trabalho interior com que moldou a sua vida.


The letters (Leonard Cohen)

You never liked to get
The letters that I sent.
But now you've got the gist
Of what my letters meant.
You're reading them again,
The ones you didn't burn.
You press them to your lips,
My pages of concern.
I said there'd been a flood.
I said there's nothing left.
I hoped that you would come.
I gave you my address.
Your story was so long,
The plot was so intense,
It took you years to cross
The lines of self-defense.
The wounded forms appear:
The loss, the full extent;
And simple kindness here,
The solitude of strength.
You walk into my room.
You stand there at my desk,
Begin your letter to
The one who's coming next.


Se ao menos uma vez tudo se aquietasse
se se calassem o talvez e o mais ou menos
e o riso à minha volta…
se o barulho que fazem os meus sentidos
não perturbasse mais a minha vigília…

então, num pensamento multifário,
poderia eu pensar-te até aos limites
e possuir-te (só o tempo de um sorriso)
e oferecer-te a vida inteira, como
um agradecimento


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Harold Faltermeyer

Ligações
America, Mike and The Mechanics, Leonard Cohen

Textos:
Rainer Maria Rilke

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012