Sons da Escrita 087

3 de Novembro de 2006

Terceiro programa do ciclo Rainer Maria Rilke

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Rainer Maria Rilke

Cadernos de Malte Laurids Brigge.1 (Rainer Maria Rilke)

Não posso deixar de dormir de janela aberta! Carros eléctricos rolam tocando através do meu quarto. Automóveis passam por cima de mim. Fecha-se uma porta. Algures cai um vidro de janela, ouço as gargalhadas dos cacos grandes e os risinhos dos estilhaços pequenos. Depois, de repente, um ruído surdo, fechado, do outro lado, dentro de casa. Alguém sobe a escada. Vai-se aproximando incessantemente. Pára, pára muito tempo, passa.
E, de novo, a rua. Uma rapariga grita: “Ah tais-toi, je ne veux plus”. O eléctrico, correndo agitado, passa por cima de tudo. Alguém chama. Correm pessoas, ultrapassam-se. Ladra um cão. Que alívio!: um cão. Pelo amanhecer até um galo canta, e isto é uma delícia sem limites. Depois, de repente, adormeço.
Isto são os ruídos. Mas há aqui alguma coisa que é mais terrível: o silêncio. Creio que nos grandes incêndios irrompe por vezes assim um momento de tensão extrema, os jactos de água caem, os bombeiros não sobem pelas escadas, ninguém se mexe. Sem ruído, lá no alto, uma cornija negra avança, e um muro alto, atrás do qual o fogo irrompe, inclina-se, sem ruído. Tudo pára e espera, de ombros encolhidos, as caras contraídas pelos olhos, pelo golpe terrível.
Assim é aqui o silêncio.


Silent and I (Alan Parsons Project) 

If I cried out loud
over sorrows I've Known
And the secrets I've heard
It would ease my mind
Someone sharing the load
But I won't breathe a word

We're two of a kind
Silence and I
We need a chance to talk things over
Two of a kind
Silence and I
We'll find a way to work it out

While the children laughed
I was always afraid
of the Smile of the clown
So I close my eyes
Till I can't see the light
And I hide from the sound

We're two of a kind
Silence and I
We need a chance to talk things over
Two of a kind
Silence and I
We'll find a way to work it out

I can hear the cry
Of the leaf on a tree
As it Falls to the ground
I can hear the call
of an Echoing voice
And there's no one around

We're two of a kind
Silence and I
We need a chance to talk things over
Two of a kind
Silence and I
We'll find a way to work it out


Rainer Maria Rilke

Cadernos de Malte Laurids Brigge.2 (Rainer Maria Rilke)

Aprendo a ver. Sim, estou a começar. Ainda vai mal, mas vou aproveitar o meu tempo.
Por exemplo: nunca tive consciência de quantas caras há. Há muitas pessoas, mas há ainda muito mais caras, pois cada uma tem várias. Há pessoas que usam uma cara anos seguidos; gasta-se, naturalmente, suja-se, quebra nas rugas, alarga como as luvas que se usaram em viagem. São as pessoas simples, poupadas; não mudam de cara, nem a mandam lavar. Serve muito bem, afirmam elas; e quem é que lhes pode provar o contrário? Mas perguntar-se-á: Se têm várias caras, que fazem das outras? — Guardam-nas. Serão para os filhos. Mas acontece, também, os seus cães saírem com elas. E porque não? Uma cara é uma cara.

Outras pessoas põem as suas caras com uma rapidez medonha, uma após outra, e gastam-nas. Parece-lhes, a princípio, que lhes chegam para sempre, mas, mal chegam a quarenta — eis a última. Isto tem naturalmente o seu trágico. Não estão habituadas a poupar caras; a última gastou-se ao cabo de oito dias, tem buracos, está em vários sítios delida e fina como papel, e, a pouco e pouco, vai aparecendo a pasta de baixo, a não-cara, e é com essa que andam.


The first time ever I saw your face (Alyson Moyet)

The first time ever I saw your face
I thought the sun rose in your eyes
And the moon and the stars were the gift you gave
To the dark and empty skies [my love]

The first time ever I kissed your mouth
I felt the earth move in my hand
Like the trembling heart of a captive bird
That was there at my command
[My love... That was there at my command]

The first time ever I lay with you
And felt your heart beat over mine
And I thought our joy would fill the earth
And last till the end of time my love
And last to the end of time


Rainer Maria Rilke

Cadernos de Malte Laurids Brigge.3  (Rainer Maria Rilke)

Agora morre-se em série, naturalmente. Com tão enorme produção, é claro que a morte individual não é tão bem acabada, mas isso também não interessa. O que conta é o número.
Quem é que hoje liga a uma morte bem executada? Ninguém. Até os ricos que se podiam dar ao luxo de morrerem com todos os matadores, começam a tornar-se desleixados e indiferentes; o desejo de ter uma morte pessoal está a tornar-se cada vez mais raro. Mais algum tempo, ainda, e tornar-se-á tão rara como uma vida pessoal.
Antigamente sabia-se, ou talvez se pressentisse, que se trazia a morte dentro de si, como o fruto traz o caroço. As crianças tinham dentro uma pequena e os adultos uma grande. As mulheres tinham-na no seio e os homens no peito.
Tinha-se a morte e isto dava às pessoas uma dignidade particular e um calmo orgulho.


And when I die (Blood, Sweat & Tears)

I'm not scared of dying,
And I don't really care.
If it's peace you find in dying,
Well then let the time be near.
If it's peace you find in dying,
And if dying time is here,
Just bundle up my coffin
'Cause it's cold way down there.
I hear that its cold way down there.
Yeah, crazy cold way down there.

And when I die, and when I'm gone,
There'll be one child born in this world to carry on,
to carry on.

Now troubles are many, they're as deep as a well.
I can swear there ain't no heaven but I pray there ain't no hell.
Swear there ain't no heaven and I pray there ain't no hell,
But I'll never know by living, only my dying will tell.
Yes only my dying will tell. Yeah, only my dying will tell.

Give me my freedom for as long as I be.
All I ask of living is to have no chains on me.
All I ask of living is to have no chains on me,
And all I ask of dying is to go naturally.
Oh I want to go naturally.

Here I go, Hey Hey!
Here comes the devil, right Behind.
Look out children, here he comes!
Here he comes! Hey...

Don't want to go by the devil. Don't want to go by demon.
Don't want to go by Satan, Don't want to die uneasy.
Just let me go naturally.

and when I die,
When I'm dead, dead and gone,
There'll be one child born in our world to carry on,
To carry on.
Yeah, yeah...


Só tu me fazes só. Só tu posso trocar.
Um momento és bem tu, depois é o sussurrar
ou um perfume sem traços.
Ai! a todas eu perdi entre os meus braços!
Só tu em mim renasces, sempre e a toda a hora:
Por nunca te abraçar é que te tenho agora.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Peter Seiter

Ligações
Alan Parsons Project, Alyson Moyet, Blood, Sweat & Tears

Textos:
Rainer Maria Rilke

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012