Sons da Escrita 395

19 de Maio de 2012

Primeiro programa do ciclo Ricardo Gil Soeiro

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


•••

Pólvora seca

Rasgando seixos e colinas,
assim nos chega a luz
irrompendo nas arestas.
O nosso retrato esboroando-se
à mínima certeza de angústia.
Às vezes detestamos a jornada
– em átomos eleitos, todavia,
tudo canta em podridão enlameada.
Se queres mesmo saber:
é verdade o burburinho
– carrego versos no bolso,
com o dedo no gatilho,
pronto a disparar em legítima defesa;
tatuando a pele que me corrobora
que, sim, não existo ainda, eles
são o fardo portátil que escolhi.
E tens razão: sou inofensivo,
há que reconhecer quando nos
vence a impostura de infinito,
esbracejando tiros de pólvora seca.


Sombras
Para já importaria resolver esta equação:
o que é um corpo, agora mesmo?
Somos exactamente aquilo que
pintaste no solstício de inverno:
sombras que engoliram a lua,
à mercê de infindáveis arpejos do desejo.
E talvez isso nos possa, por fim, salvar.


Save me (Aimee Man)

You look like a perfect fit
For a girl in need of a tourniquet

But can you - save me
Come on and - save me
If you could - save me
From the ranks of the freaks
Who suspect they could never love anyone

'Cause I can tell
You know what it's like
The long farewell
Of the hunger strike

But can you save me
Come on and save me
If you could save me
From the ranks of the freaks
Who suspect they could never love anyone

You struck me down like radium
Like Peter Pan or Superman

You will come to save me
C'mon and save me
If you could save me
From the ranks of the freaks
Who suspect they could never love anyone
'Cept the freaks
Who suspect they could never love anyone
But the freaks
Who suspect they could never love anyone

C'mon and save me
Why don't you save me
If you could save me
From the ranks of the freaks
Who suspect they could never love anyone

Except the freaks
Who suspect they could never love anyone
Except the freaks who could never love anyone


Aletheia

E sabes:
há um mistério muito próprio
em tudo o que não podemos
deixar de amar: maçãs, figos,
incandescentes corpos de nevoeiro.
São sonatas por esculpir
as coisas adormecidas
que se insinuam à lâmina
impaciente do nosso olhar.
Não é fácil ser quase vento,
quase neve, quase vertigem:
a ferrugem dos rostos quietos
diz-nos que há uma dor cadente
que estaciona à porta dos meus sonhos.
De pouco nos servem os livros,
agasalhando-nos a perfeição
de sermos vozes mutiladas;
nem tínhamos horas certas
para nos perdermos, regressando
imaculados ao néctar dos sentidos.
Sim, era um adiantado
Domingo de Junho.
...
Vagarosamente, a cidade
começava a desenhar-se
sobre o parapeito da janela,
desdobrando-se em incêndios nocturnos.
E tudo se resumia à nostalgia
de principiar e, de assim,
voltar a ser início.


From the beginning (Emmerson, Lake & Palmer)

There might have been things I missed, but don't be unkind
It don't mean I'm blind
Perhaps there's a thing or two I think of lying in bed
I shouldn't have said

But, there it is

You see, it's all clear
You were meant to be here from the beginning

Maybe I might have changed and not been so cruel
Not been such a fool
Whatever was done is done - I just can't recall
It doesn't matter at all

You see, it's all clear 

You were meant to be here from the beginning


A comunidade que vem

“Um rabino, um verdadeiro cabalista, disse um dia: para instaurar o reino da paz não é necessário destruir tudo e dar início a um mundo completamente novo; basta apenas deslocar ligeiramente esta taça ou este arbusto ou aquela pedra, e proceder assim em relação a todas as coisas.”
Ernst Bloch, Spuren, citado por Agamben

Para salvar o mundo seria
preciso muito pouco.
Para começar, bastaria
acreditar ser possível
arriscar obsoletas cartas
de amor e desfiar súbitos
crepúsculos, rasgando
horas renitentes.
Igualmente um bom começo
seria desafiar o paraíso triste
que cá trazemos dentro, dizendo
não a coreografias imperfeitas;
não esquecer deixar de lado
casulos mortos e estrelas de cinza;
porventura, desmentir a asfixia
de lágrimas imperceptíveis
e, claro, a lama de feridas apagadas.
Será muito a pedir?
...
Colorir asas de lume
rumo a abóbadas de luz
e, por que não? – contemplar
o nascimento de uma palavra,
ao mesmo tempo que te sussurro
ao coração rezas de ternura.
E partir, partir muito, partir
sempre em busca de sementes
de sangue, enchendo a boca
de instantes (mais tarde alimento do olvido).
Parece simples: agora só falta
ouvir o que tens para dizer, leitor.
Quero saber dos teus pequenos gestos,
das tuas ínfimas confidências, de como
te vislumbras a sós com a beleza,
de como, enfim, tudo se resume
ao sereno fulgor da arte do adeus;
e, sim, quero espreitar o manto
de saudade com que te cobres.
Se puderes, espera por mim.
Ou então fica: enlaço-me à promessa
– hoje não se falará da morte.
Queria apenas ouvir a tua voz.
É quanto basta para me fazer
ao caminho de um porvir
mais verdadeiro.


Truthfully (Lisa Loeb)

This isn't what I like to call flattery
But I know that I believe that I've found what's true
That I've found what's you.
Truthfully I

I'm finding finally.
Truthfully you
You helped me find at last.
Truthfully we

Are finding out what's true.
And Truthfully I am finding out what's you.
Surprise cause I was flying the plane.
Surprise cause now I'm smiling again.

Surprise cause you showed up with your parachute.
Surprise, I'm kind of happy you showed up.


Despedida

I
Uma manhã queimada
por corpos em ruínas.
É o que resta da noite
que findou. 


II
Aproveitas-te do meu sono
em atraso e, de mansinho,
ensaias a fuga há muito planeada:
soltando-te da cama em câmara lenta,
apenas cedes o perfume do teu suor.
E é assim que eu sei que
chegou ao fim esta nossa
travessia, onde repetimos
o mesmo abandono de sempre.


III
Enquanto em vão procuras
domar a blusa ondulante,
o dia recém-principiado
encontra maneira de
compor as ruas despidas.
De olhos semicerrados,
costas voltadas para o vazio,
detenho-me neste retiro
de sombras, lençóis desabrigados.
E nem logro reprimir um terno gesto
em forma de desejo, à espera de merecer
uma carícia ou o pudor inútil de um olhar
(que não chegam).


IV
Afinando a luz nas persianas
e mentindo o silêncio que
vagamente decido consentir,
imagino-te a desenhar
uma contida despedida
no vidro embaciado.
Por fim, entrevejo-te
a desaparecer por entre
os escombros da solidão.
Mas antes que te vás,
queria perguntar-te:
devolver-me-ás os passos?


V
Sabes:
quase podia jurar
que te ouvi ciciar:
“Ainda te amo.”
E terias mentido.


Little lies (Fleetwood Mac)

If I could turn the page
In time then I'd rearrange just a day or two
Close my, close my, close my eyes

But I couldn't find a way
So I'll settle for one day to believe in you
Tell me, tell me, tell me lies

Tell me lies
Tell me sweet little lies
(Tell me lies, tell me, tell me lies)
Oh, no, no you can't disguise
(You can't disguise, no you can't disguise)
Tell me lies
Tell me sweet little lies

Although I'm not making plans
I hope that you understand there's a reason why
Close your, close your, close your eyes

No more broken hearts
We're better off apart let's give it a try
Tell me, tell me, tell me lies

Tell me lies
Tell me sweet little lies
(Tell me lies, tell me, tell me lies)
Oh, no, no you can't disguise
(You can't disguise, no you can't disguise)
Tell me lies
Tell me sweet little lies

If I could turn the page
In time then I'd rearrange just a day or two
Close my, close my, close my eyes

But I couldn't find a way
So I'll settle for one day to believe in you
Tell me, tell me, tell me lies

Tell me lies
Tell me sweet little lies
(Tell me lies, tell me, tell me lies)
Oh, no, no you can't disguise
(You can't disguise, no you can't disguise)

Tell me lies
Tell me sweet little lies
(Tell me lies, tell me, tell me lies)
Oh, no, no you can't disguise
(You can't disguise, no you can't disguise)
Tell me lies
Tell me sweet little lies
(Tell me, tell me lies)


Pergunto-me se a felicidade terá os seus remorsos.
Temos tudo o que sempre desejámos:
o sumir da noite, a mentira de amar
e até os bilhetes para a estreia
(não me recordo, todavia, de que filme se tratava).
Ao fim e ao cabo,
tudo corre a nosso favor:
mais um copo tardio e a conta, pode ser?


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Jami Sieber

Ligações
Aimee Man, Emmerson, Lake & Palmer, Lisa Loeb, Fleetwood Mac

Textos:
Ricardo Gil Soeiro

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012