Sons da Escrita 397

2 de Junho de 2012

Terceiro programa do ciclo Ricardo Gil Soeiro

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


•••

Ao cuidado das musas

Por vezes, é assim:
não sei o que fazer
com o que sobra destes
estilhaços invisíveis.

É certo: adiei perdas escusadas,
esperei pela minha vez para doer
melhor e até cheguei a anotar
meia dúzia de versos para memória
futura, imaginando que um dia
tudo isto seria suportável:
a felicidade, sobretudo
- as suas promessas de cinza
que não soube cumprir.

Mas a verdade é que de nada me valeu
ter chegado são e salvo à  tristeza macia
das palavras. Tanto alvoroço para agora
sucumbir perante as mãos vazias da noite.

Se queres mesmo saber, considero
esta derrota um indesculpável
desperdício de solidão.
Falar-se-á, ainda e sempre,
da morte (sabemos que é assim).
Mas terás de convir que não conta
barafustar gestos imprecisos,
chegar tarde a abismos desfocados
ou amordaçar beijos afiados.

Enquanto me procuro convencer de
que o silêncio não carece de palavras,
concluo que é difícil estar vivo
e assistir impávido ao solene
desastre de rostos sem saída –
haverá, ainda, quem lhe chame amor?
 
Mais uma vez, a poesia
terá de ficar para depois.



Lonely is the name (Sammy Davis Jr.)

Lonely is the name
That I answer to
And crying is the game
Cause I'm losing you
I'll never be the same
Without your love

Believe me
Sorry is the role
That you make me play
Tormented is the soul
That is mine today
I'm lost beyond control
Without your love

Missing is the kiss
Absent is the sigh
Gone, the look
Of love you wore

Was it all a dream
Was it all a lie
Don't you love me anymore

Just tell them
Lonely is the name
It will always be
And crying is the game
Til you're back with me
I'll never be the same
Without your love

(Lonely is the name)
(Crying is the game)
(Without your love)

Missing is the kiss
Absent is the sigh
Gone, the look
Of love you wore

Was it all a dream
Was it all a lie
Don't you love me anymore

Just tell them
Lonely is the name
It will always be
And crying is the game
Til you're back with me
I'll never be the same
Without your love

It will always be
And lonely is the name
Til you're back with me
I'll never be the same...



Tudo o que ficou por dizer

Por vezes chega de repente,
visitando-me em horas vazias;
outras vezes, em núpcias
mais secretas, espia-me
lentamente nas entrelinhas
das luzes opacas da manhã.

Às tantas,
confesso que chamo por ela,
esperando contingentes imprevistos
- hipotética benesse de deusa distraída.
Mas ciente estou de que são esforços vãos.
O silêncio permanece o seu cristal de fogo.

Jamais perdoarei esta agonia
de não se ser chama para sempre;
os mortos, esses, infiltram-se
no ar que respiramos.
Mágica e desolada.
É assim a poesia.



That’s just the way it is (Phil Collins)

All day long he was fighting for you
And he didn't even know your name
Young men come and young men go
But life goes on just the same

And I don't know why
Why do we keep holding on
I don't know why
Pretending to be oh so strong
Oh why
Is there something I don't know
Or something very wrong, with you and me
or maybe

That's the way it is, there's nothing I can do,
That's just the way it is.

They've been waiting for word to come down
They've been waiting for you night and day
They won't wait any longer for you
It may already be too late

And I don't know why...

You see the dying, you feel the pain
What have you got to say
If we agree that we can disagree
We could stop all of this today

It's been your life for as long as you can remember
But you cannot fight no more
You must want to look your son in the eyes
When he asks you what you did it for

'Cos all day long he was fighting for you
And he didn't even know your name
Young men come and young men go
But life goes on just the same

I don't know why...



Declaração de princípios

Chegas tarde.
Também tu não sabes
alcançar o difícil equilíbrio
que se esconde entre amar e ser amado:
entre o lirismo pensativo de poeta
e a desenvoltura de pós-moderno prometeu.
E é então que chegas à conclusão
de que nada há a fazer, pois signos
precários é tudo quanto somos,
murmúrio de aguardar somente.
Mas ainda não te decidiste:
e é por isso que chegas
a estas horas descabidas:
lá fora o mundo inteiro
dorme sem desculpas.
Já aqui, onde o crepúsculo
continua a arder sereno,
a resignação deixa-te satisfeito.
Permaneces assim hesitante,
propositadamente confundindo
as palavras com uma qualquer pálida
confissão de que foste incêndio e sangue.
Revejo-me em ti: nas pistas transparentes
que vais deixando, à maneira frágil
de um Deus ausente, semeando destroços
com dedos cristalinos e caudas de veneno.
Vais continuar a não saber quem és:
se alegre espectador soletrando ditirambos
na praça dos afectos, se tímida mariposa
em efémero casulo recolhida.
Chegas tarde.
Pés de veludo
para não acordares
o absurdo de estarmos
juntos, por exemplo.
Em surdina, invades
os lençóis manchados
de um pesar dorido
– sem nome, sem passado.
E nada pedes em troca.
Nada, salvo a solidão de quem te lê.



La solitudine (Laura Pausine)

Marco se n'è andato e non ritorna più
Il treno delle 7:30 senza lui
È un cuore di metallo senza l'anima
Nel freddo del matino grigio di città

A scuola il banco è vuoto, Marco è dentro me
È dolce il suo respiro fra i pensieri miei
Distanze enormi sembrno dividerci
Ma il cuore batte forte dentro me

Chissà se tu mi penserai
Se con i tuoi non parli mai
Se ti nascondi come me
Sfuggi gli sguardi e te ne stai

Rinchiuso in camera e non vuoi mangiare
Stringi forte al te il cuscino
Piangi non lo sai
Quanto altro male ti farà la solitudine

Marco nel mio diario ho una fotografia
Hai gli occhi di bambino un poco timido
La stringo forte al cuore e sento che ci sei
Fra i compiti d'inglese e mathematica

Tuo padre e suoi consigli che monotonia
Lui con i suoi lavoro ti ha portato via
Di certo il tuo parere non l'ha chiesto mai
Ha detto un giorno tu mi capirai

Chissà se tu mi penserai
Se con gli amici parlerai
Per non soffrire più per me
Ma non è facile lo sai

A scuola non ne posso più
E i pommeriggi seza te
Studiare è inutile tutte le idee
Si affolano su te

Non è possibile dividere
La vita di noi due
Ti prego aspettami amore mio
Ma illuderti non so

La solitudine fra noi
Questo silenzio dentro me
È l'inquetudine di vivere
La vita senza te

Ti prego aspettami perché
Non posso stare senza te
Non è possibile dividere
La storia di noi due 



A morte é uma flor: hora de fecho

Por fim, desce o pano
sobre o dia que findou.
É tempo de ficar a sós
com os meus fantasmas.
Após ter sido sumido
Ulisses na metrópole,
regresso ao meu casulo
de crisálida envergonhada,
repleto de sonhos errantes
que aqui vão hibernando.
Estou pronto para abraçar
a saudade nesta pausa
dorida fora de horas.
Com pálpebras coladas
à pele, contemplo o incêndio
prestes a principiar.
Hesito. Marco passo.
Hesito novamente.
(Por que é que tem de ser
assim sempre tão difícil?
)
Escrevo sobre o que me faz sofrer
(o que sinto e o que não sinto).
Escrevo sobre os despojos
da aurora que virá.
É este o meu ritual de amar
absurdos e tardios devaneios.
Agrada-me ficar assim:
de mão estendida, rendido
às migalhas do vazio que
nunca soube decifrar.
Alheio a tudo,
vou desembrulhando
a noite em câmara lenta.
Tomo o meu tempo.
Não tenho pressa.
Com dedos de veludo
percorro os passos
nómadas da sonâmbula
cidade, enquanto o prédio
em frente encena indistintas
silhuetas, na esperança talvez
de apanhar a boleia do último semáforo.
Como sempre, o silêncio impuro
marca o compasso deste meu
crime perfeito sem fronteiras.
Não tenho plano estabelecido.
Limito-me a lamber as feridas
do meu olhar cansado, dizendo
contigo que sim: a morte é uma flor.
Recomeço. Hesito novamente.
Sem bússola, mapa borda fora,
arrisco nomear coisas rente à terra.
Sonho com mares desnudados
e vislumbres de melancolia
em carne viva – a cor do desespero.
Fico atento às vozes esquecidas.
Expectante, com o dedo no gatilho,
reacendo os estilhaços das veias rasgadas,
pronto a atear rastilhos de sílabas de luz.
As minhas noites são assim.
Passo-as em claro, na companhia
da minha solidão, hesitando escombros
de beleza, vigiando estrelas perdidas.
Mas eis que chega a hora de me deixar vencer
pelo sono e de assim sucumbir perante
incandescentes lágrimas sem história.
Amanhã estarei de volta ao rascunho
de ínfimos gestos, desprovidos de magia.
Despir-me-ei do assombro de estar vivo.
Vestirei a máscara do costume - disfarce
exemplar com que, em vão, procuro enganar
o rasto do lume – a bênção inútil do amor.
No final de contas, bem vistas as coisas,
pode quase tudo a poesia: pedir perdão,
iluminar a errância de não sabermos
para onde partimos e reconhecer que
em breve nos iremos transformar em
fantasmas que serão ou não lembrados.
Em troca, apenas nos pede que
escutemos o rumor do coração:
o envelope vazio de nunca chegar.
E é já muito dizer assim adeus.



Goodbye my love (Searchers)

Goodbye my love, goodbye my love
Though I love you truly
It was meant to be
That I'd lose your love
Goodbye my love, goodbye

So long my love, be strong my love
You've done nothing wrong
This love can't go on
So take care my love
Goodbye my love, goodbye

And I know that you're not happy at all
Any fool can plainly see
And I know I'm the one you really love
But I can't go on sharing you, sharing you

Goodbye my love, don't cry my love
I love you sincerely
It just had to be
It hurts me so inside to say goodbye
Goodbye my love
Goodbye, goodbye, goodbye, goodbye, goodbye



Perfilam-se palavras radiantes;
são sem perdão, suja matéria-prima
para o desacerto da vida.
Desfazem-se as luzes sonâmbulas,
nada restou, sequer corpo de luar.

E estamos sós,
se bem que faz lei o teu sorriso.
Pois bem, é com a noite que triunfaremos.
Agora – porventura, nunca.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Spencer Brewer

Ligações
Sammy Davis Jr., Phil Collins, Laura Pausini, Searchers

Textos:
Ricardo Gil Soeiro

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012