Sons da Escrita 197

7 de Novembro de 2008

Primeiro programa do ciclo Ricardo Reis

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


•••

Ricardo Reis

Vem sentar-te comigo, Lídia (Ricardo Reis)

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.


Sitting in a dream (Deep Purple)

Sitting in a dream (Deep Purple)
I'm just passing time before the Ball
Playing my guitar
I don't have to be where I don't want to be at all
Maybe I'll go far
Going nowhere, sitting in a dream...
Ah, in a dream
Sitting in a landscape full of sighs
Dream away the day
Making up a tune about the blueness of the skies
This is where I'll stay
Going nowhere, sitting in a dream...
Oh, in a dream
Watching as a red and white balloon
Sails across my mind
In between the images that drift along my tune
Smile as they unwind
Going nowhere, sitting in a dream...
Ah, in a dream


Ricardo Reis

As rosas amo (Ricardo Reis)

As rosas amo dos jardins de Adónis,
Essas volucres amo, Lídia, rosas,
Que em o dia em que nascem,
Em esse dia morrem.
A luz para elas é eterna, porque
Nascem nascido já o Sol, e acabam
Antes que Apolo deixe
O seu curso visível.
Assim façamos nossa vida um dia,
Inscientes, Lídia, voluntariamente
Que há noite antes e após
O pouco que duramos.


Where the wild roses grow (Nick Cave & Kylie Minogue)

They call me The Wild Rose
But my name was Elisa Day
Why they call me it I do not know
For my name was Elisa Day 

From the first day I saw her I knew she was the one
She stared in my eyes and smiled
For her lips were the colour of the roses
That grew down the river, all bloody and wild 

When he knocked on my door and entered the room
My trembling subsided in his sure embrace
He would be my first man, and with a careful hand
He wiped at the tears that ran down my face 

Chorus 

On the second day I brought her a flower
She was more beautiful than any woman I'd seen
I said, "Do you know where the wild roses grow
So sweet and scarlet and free?" 

On the second day he came with a single red rose
He said "Give me your loss and your sorrow"
I nodded my head, as I lay on the bed
"If I show you the roses, will you follow?" 

Chorus 

On the third day he took me to the river
He showed me the roses and we kissed
And the last thing I heard was a muttered word
As he knelt (stood smiling) above me with a rock in his fist 

On the last day I took her where the wild roses grow
And she lay on the bank, the wind light as a thief
And I kissed her goodbye, said, "All beauty must die"
And lent down and planted a rose tween her teeth


Ricardo Reis

Sofro, Lídia (Ricardo Reis)

Sofro, Lídia, do medo do destino.
A leve pedra que um momento ergue
As lisas rodas do meu carro, aterra
Meu coração.

Tudo quanto me ameace de mudar-me
Para melhor que seja, odeio e fujo.
Deixem-me os deuses minha vida sempre
Sem renovar.

Meus dias, mas que passe e outro passe
Ficando eu sempre quase o mesmo; indo
Para a velhice como um dia entra
No anoitecer.


Emily’s song (Moody Blues)

Lovely to know the warmth
You're smile can bring to me
I want to tell you but the words you do not know

Sing me a lullaby
Of songs you cannot write
And I will listen for there's beauty where there's love

And in the morning of my life
And in the evening of my day
I will try to understand in what you say...

River's of endless
Tides have passed beneath my feet
And all too soon they had me standing on my own

Then when my eyes were closed
You opened them for me
And now we journey thro' our lives to what will be

And in the morning of my life
And in the evening of my day
I will try to understand in what you say

Through all that life can give to you
Only true love will see you through
And will stand beside you now in what you say

And in the morning of my life
And in the evening of my day
I will try to understand in what you say

Take me into your world
Alone I can not go
For I've been here so long
You're leaving me behind
Walk with me now
Into your land of fairy tales
And open up that book of pages in my mind
And open up that book of ages in my mind


Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.

Estou só, só como ninguém ainda esteve,
Oco dentro de mim, sem depois nem antes.
Parece que passam sem ver-me os instantes,
Mas passam sem que o seu passo seja leve.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Kirsty Hawkshaw

Ligações
Deep Purple, Nick Cave & Kylie Minogue, Moody Blues

Textos:
Ricardo Reis

Edição e voz:
José-António Moreira


•••|•••|•••


And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012