Sons da Escrita 326

12 de Fevereiro de 2011

Primeiro programa do ciclo Rui Miguel Duarte

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Rui Miguel Duarte

Ecce poiema

"Como não acreditaste no que te disse, vais ficar mudo, sem poder falar, até ao dia em que isso acontecer, pois tudo se realizará no tempo devido."
Evangelho de Lucas 1,20 (versão A Bíblia para todos)

Para mãos que trabalham
sem uma língua treinada
o silêncio pode ser de ouro
ou de chumbo maciço

Porém, esse silêncio ainda fala
ainda está cheio de poemas, cânticos
confessa apreensões ou revela sonhos
de dentro da linfa, das cavidades do osso

Voz que duvida, que fala do que não sabe
que com as mãos se queda a queimar incenso
a vigiar que a chama da menorah perene arda
a oferecer os pães

que escreve febril o que o silêncio apenas sussurra
o que a voz na laringe emudece

Que te diz e conta, Zacarias, a voz que te secou?
Voz que guarda e
burila a sabedoria
que decanta os segredos
confiados pelo anjo do Senhor
esculpidos no ventre da tua mulher
afinados em outra voz, a que clamará no deserto

Mas quanto melhor
não é,
como numa salva de prata uma maçã de ouro servida
é a voz irrompendo
finalmente instruída e madura
que fala
e canta os altos louvores do Senhor


The voice (Celtic Woman)

I hear your voice on the wind
And I hear you call out my name

"Listen, my child," you say to me
"I am the voice of your history
Be not afraid, come follow me
Answer my call, and I'll set you free"

I am the voice in the wind and the pouring rain
I am the voice of your hunger and pain
I am the voice that always is calling you
I am the voice, I will remain

I am the voice in the fields when the summer's gone
The dance of the leaves when the autumn winds blow
Ne'er do I sleep thoughout all the cold winter long
I am the force that in springtime will grow

I am the voice of the past that will always be
Filled with my sorrow and blood in my fields
I am the voice of the future, bring me your peace
Bring me your peace, and my wounds, they will heal

I am the voice in the wind and the pouring rain
I am the voice of your hunger and pain
I am the voice that always is calling you
I am the voice

I am the voice of the past that will always be
I am the voice of your hunger and pain
I am the voice of the future
I am the voice, I am the voice
I am the voice, I am the voice


Rui Miguel Duarte

Idioma poético

"Só os anjos amam seu instável idioma. O poeta é assim ... " (Joanyr de Oliveira)

Instável é o idioma dos poetas
tem a maleabilidade inscrita
nos seus signos
verga as sílabas
à disciplina da métrica
é febril garimpeiro de ouvido
perpetuamente vigilante
ao mínimo sinal
de novo fonema ou sintagma inusitado
do mar revolto de um agreste verbo
ou do rio sereno de um substantivo maduro

instável é a voz dos poetas
pode ser esticada
até à máxima tensão
e estalar
ou ondular
sobre brasas ou cacos de vidro
sem se ferir

instável é a alma dos poetas
é um martelo uma exigência de chama
na forja
e um vapor
que se mostra nas narinas e na boca
uma sopa de dores
sentimentos e cores
em mansa e constante ebulição

sempre aberto ao que a palavra
possa criar diante de seus e nossos olhos
novos aromas e formas
assim é
o coração do poeta
enquanto bater


Everybeat of my heart (Rod Stewart)

Through these misty eyes
I see lonely skies
Lonely road to Babylon

Where's my family
And my country
Heaven knows where I belong

Pack my bags tonight
Here's one Jacobite
Who must leave or surely die

Put me on a train
In the pouring rain
Say farewell but don't say goodbye

Seagull carry me, over land and sea
To my own folk, that's where I want to be
Every beat of my heart
Tears me further apart
I'm lost and alone in the dark
I'm going home

One more glass of wine
Just for auld lang syne
And the girl I left behind

How I miss her now
In my darkest hour
And the way our arms entwine

And we'll drink a toast
To the blood red rose
Cheer a while the Emerald Isle

And to the northern lights
And the swirling pipes
How they make a grown man cry


Rui Miguel Duarte

Momentos de poetar

"Há momentos em que apetece poetar subitamente" (Brissos Uno)

Há momentos subtis
em que a voz esmorece
à boca do canto incessante
em que a leveza de uma pluma
é quem impele a massa voraz do tufão

momentos em que a flor quando seca
readquire o perfume
resiliente ao cabo longo
do Inverno

momentos em que visita a vontade
de beijar na boca um vento morno
bêbedo dos aromas e das águas
das montanhas

Há momentos em que as janelas do corpo
se voltam para dentro
é nesses momentos assim
que apetece
poetar
abrir uma clarabóia para o sol


From my first moment (Charlotte Church)

From my first moment you gave me wings
Let me fly and believed in my dreams
From that first moment you cherished me so
The journey through life would be hard with out you
You gave me all I have and all I know
From my first moment you would be there
In your arms lay the strength I now bear
From that first moment each day I have you
As seasons they change but your heart stays the same
You gave me all I have and all I know

From my first moment as time goes by
We drift endlessly through open skies
The journey though life would be hard with out you
You gave me all I have and all I know


Há momentos em que a poesia
foge a galope do poeta
nas patas de alazão de vento
familiar ao salto por sobre os penhascos
do meu espanto


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Diane Arkenstone, David Arkenstone, Rhonda Lorence

Ligações
Celtic Woman, Rod Stewart, Charlotte Church

Textos:
Rui Miguel Duarte

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012