Sons da Escrita 328

26 de Fevereiro de 2011

Terceiro programa do ciclo Rui Miguel Duarte

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


•••

Rui Miguel Duarte

Vale da sombra da morte

"Perguntou-lhe Simão Pedro: «Para onde vais, Senhor?» Jesus
respondeu-lhe: «Para onde eu vou, tu não me podes seguir agora,
mas hás-de seguir-me mais tarde.»"
Evangelho de João 13,36 (versão A Bíblia para todos p. 2133)

Não podes, querido amigo,
seguir-me agora
sabes, tenho uma estrada diante de mim
que tu não conheces
pés nenhuns foram nela ainda
experimentados
o couro de sandálias nenhumas
nas suas pedras jamais se gastou

Querido amigo,
o céu aqui não é de açucenas
os penedos são gigantes espessos
ao passarmos rente a eles
acendem um véu negro no rosto
do abismo
o chão não é de pétalas
mas tem arestas é pontiagudo
como pregos que não descansam
o sangue

Sei que nele
há um vale da sombra
é todo o céu e toda a terra
em peso sobre a minha cabeça
sombra da morte mais temível
do que a própria
morte

Esse vale foi moldado à forma
rósea do meu corpo
o meu sangue foi-lhe
desde a Eternidade prometido
poderei eu estancá-lo?

Só eu,
querido amigo
só eu posso atravessá-lo

Deixa-me ir, querido amigo,
até à outra fímbria do vale

Lá as águas dos riachos
têm a cor do sol
então aomeu chamado virás
dirás que vens da minha parte

E no prado dos teus olhos
desenrolar-se-á,
até o perderes de vista, o verde


One more cup of coffee (Bob Dylan

Your breath is sweet
Your eyes are like two jewels in the sky
Your back is straight your hair is smooth
On the pillow where you lie
But I don't sense affection
No gratitude or love
Your loyalty is not to me
But to the stars above

One more cup of coffee for the road
One more cup of coffee 'fore I go.
To the valley below.

Your daddy he's an outlaw
And a wanderer by trade
He'll teach you how to pick and choose
And how to throw the blade
He oversees his kingdom
So no stranger does intrude
His voice it trembles as he calls out
For another plate of food.

One more cup of coffee for the road
One more cup of coffee 'fore I go.
To the valley below.

Your sister sees the future
Like your mama and yourself
You've never learned to read or write
There's no books upon your shelf
And your pleasure knows no limits
Your voice is like a meadowlark
But your heart is like an ocean
Mysterious and dark.

One more cup of coffee for the road
One more cup of coffee 'fore I go.
To the valley below.


Rui Miguel Duarte

Subida ao Sinai

Ao subir ao monte
subo de dorso curvado
e olhar arrastando
no chão
o coração ainda se ergue
para o pico
mas o peso da convocação de Deus
a massa ingente da profecia por nascer
acabrunha o próprio ar
que respiro
sarça que arde nos pés
sobre a delicadeza sagrada
da terra,
temo apenas rasgá-la
por isso o meu dorso
pesado sem asas
e carente dum mistério duma voz duma palavra
que o salve
vai curvado
e sobe


The big rock (Máire Brennan)

We'll build on this rock
A tower so high
Let your love surround me
Light my life to carry on
We'll build on this rock

Críosta ó cumhdaigh mé
Críosta coimhéad mé
Críosta coinnigh mé
Críosta an Rí
Críosta ó treorái mé
Críosta óteagasc mé
Críosta an Rí

(Christ cover me
Christ guard me
Christ keep me
Christ the King
Christ deliver me
Christ guide me
Christ teach me
Christ the King)

A banner of peace
A prayer to be free
Let your love surround me
Light my heart to carry on

We'll build on this rock
A fountain of gold


Rui Miguel Duarte

Farol da Barra

"Faróis? São os gumes
da espada
que corta a noite"
J. T. Parreira, in "O que disse o poeta a propósito de faróis"

Uma noite após outra
cadente em gomos
das gavetas do breu
observamos como
a espada de luz
do farol corta e disseca

longe lá longe
emergindo na distância
sobre a côdea
escura do mar
a ponta da espada
resvala a passagem
dos navios

e nós, como gotas aspergidas
de espuma do mar
ou como pingos
de noite
à sombra da altura
do farol
sentados na praia


Light of hope (Chris Rea)

This is the garden that I know
Ten thousand summers wait me here
You lead and I will follow
Your heart is mine tomorrow
Into your womb I fade away

And while she laughs
Your pride is turning into snow
And melting on the face of this light of hope
Shine on, light of hope
Light of hope

And while she laughs
Your pride is turning into snow
And dancing on the graves of what you thought you used to know
And in this garden I will burn my callous robes
And forever love my darling
Light of hope


Rui Miguel Duarte

No Éden

"Para aqueles que frequentam o jardim
o mundo está sempre a florescer
Longe de mim diminuir o louvor"
José Tolentino Mendonça, in "Sintra, antiga Estalagem da Raposa"

Aqueles que frequentam o jardim
fazem de cada pétala a sua casa
em cada cor reflectem as luzes da cidade
em cada olor se lavam da poeira das estradas.

A sombra das árvores é o seu deleite.
Se se sentam nos bancos, é para que
os ouvidos fiquem atentos
ao salmo dos pássaros
e do rumor das folhas.

No jardim o tempo não tem fronteiras,
não há sebes,
nele deixa o infinito o seu lastro.

Longe de mim romper
a fina membrana do silêncio
longe de mim permitir que
a perene florescência
do mundo, que para eles é o jardim,
deixe de entoar o devido salmo do louvor.


Eden (Sarah Brightman)

Did you ever think of me,
As your best friend.
Did I ever think of you,
I'm not complaining.

I never tried to feel.
I never tried to feel.
This vibration.
I never tried to reach.
I never tried to reach.
Your eden.


(Your eden. Your eden.)


Did I ever think of you,
As my enemy.
Did you ever think of me,
I'm complaining.


I never tried to feel.
I never tried to feel.
This vibration.
I never tried to reach.
I never tried to reach.
Your eden.


(Your eden. Your eden.)


I never tried to feel.
(Your eden.)
I never tried to ...
(Your eden.)


Não há melhor
do que a água
a sua ausência faz brotar o deserto
seco e abrasador
tão seco e abrasador
que as aranhas nele tecem teias de pó

Preciosa e excelente é a água
seiva do meu corpo
substância do rio do meu pensamento
que permeia a concha da minha mão
e guia a minha boca
no leito da língua


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Andreas Vollenweider, Suzanne Ciani, Dan Gibson, Lee Holdridge

Ligações
Bob Dylan, Máire Brennan, Chris Rea, Sarah Brightman

Textos:
Rui Miguel Duarte

Edição e voz:
José-António Moreira


•••|•••|•••


And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012