Sons da Escrita 329

5 de Março de 2011

Quarto programa do ciclo Rui Miguel Duarte

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Rui Miguel Duarte

Epitalâmio

"Tal uma doce maçã rubra num alto ramo,
alta no mais alto ramo, que os colectores deixaram esquecida
— esquecida? não, somente não a conseguiram alcançar"
Safo (frg. 105 Lobel-Page)

Uma maçã
esposa minha
descubro em ti

em todo o teu corpo enrubescido
à demanda dos meus dedos
subindo pela árvore
reclinados pelo ramo mais subido

no mel luzente da tua polpa
à lide do meus lábios
como te posso esquecer?
e é a mim mesmo que alcanço


I promise (Wedding song) (CeCe Winans)

I could tell by the way you smile
I could feel it in your touch
And I knew this heart of mine
This time would fall in love 

All the hopes and promises given
And the pain that life can bring
Will build our will and commitment to face anything 

I will love you faithfully, forever unconditionally
And my love I promise
Everything I have is yours
You're everything I prayed and waited for
And my love I promise you 

Now we begin our life today
And though we've only just begun
The quest until we're old and gray is the vow to live as one 

Through the desert winds that blow
I'll walk you through the winters cold
I'll be there to keep the fire alive
And when each passage we endure
We will stay strong, we can be sure
Our love survives


Rui Miguel Duarte

Aqueces I

" ... tu chauffes la paume
de ma main
comme jadis le pain rond
dont la croGte craquait"
Nic Klecker

Aqueces-me a boca
como cratera extinta
ao nela estalares
a crosta das tuas coxas

Aqueces-me a palma da mão
como um cesto de pães
ao nela depores
a redondez dos teus seios

Aqueces-me a virilha
como mar dos trópicos
ao nele deslizares
o navio da tua vagina



Aqueces II

" ... tu chauffes la paume
de ma main
comme jadis le pain rond
dont la croate craquait"
Nic Klecker

O pão de antanho
qual uma pequena brasa de lava
constante em me enxugar
a palma da mão da humidade
derramada pelo vento do Inverno

a crosta estaladiça
toda abria fissuras
na côncava aberta
da palma da mão
os próprios ouvidos se alegravam
ao ouvir o estalar
desse pequeno torrão

a boca invejava a mão
nesses segundos de espera
por que também ela
conhecesse o gosto dessa crosta
e violasse a macieza do miolo
do pão

Assim aqueces a minha ansiedade
pela tua mão descansada
na palma da minha mão
renovação de memória da infância
nesta mão hoje adulta
afeita ao silêncio húmido do vento
e ardente de frio


Light my fire (José Feliciano)

You know that it would be untrue
You know that I would be a liar
If I was to say to you
Girl, we couldn't get much higher 

Come on baby, light my fire
Come on baby, light my fire
Try to set the night on fire 

The time to hesitate is through
No time to wallow in the mire
Try now we can only lose
And our love become a funeral pyre 

Come on baby, light my fire
Come on baby, light my fire
Try to set the night on fire, yeah 

The time to hesitate is through
No time to wallow in the mire
Try now we can only lose
And our love become a funeral pyre 

Come on baby, light my fire
Come on baby, light my fire
Try to set the night on fire, yeah 

You know that it would be untrue
You know that I would be a liar
If I was to say to you
Girl, we couldn't get much higher 

Come on baby, light my fire
Come on baby, light my fire
Try to set the night on fire
Try to set the night on fire
Try to set the night on fire
Try to set the night on fire


Rui Miguel Duarte

Interlúdio

Entre cozinhar e jantar
entre o dormir e o acordar

entre a seca e a monção
entre a fome e a profusão

entre o vestíbulo e a noite
entre as mantas e a pele nua

entre o exórdio e a narração
os argumentos e a peroração

entre o actor que sai
e o pano que sobre ele cai

entre as notas do grito
formadas na garganta do aflito

entre as fímbrias da eternidade
e a tua voz feita saudade

entre o tremor do leito
e o batimento do peito

entre o fluxo e refluxo da maré
o subir o cume e descer ao sopé

entre a mão que se abre e se cerra
para toda acolher a água e a terra

há sempre o momento de um desejo
para o fluido instante de um beijo


One more kiss, dear (New American Orchestra)

one more kiss, dear
One more sigh
Only this, dear
It's goodbye
For our love is such pain
And such pleasure
And I'll treasure till I die
So for now, dear
Aurevoir, madame

But I'm how-d'ye, not farewell
For in time we may have a love's glory
Our love story to tell

Just as every autumn
Leaves fall from the tree
Tumble to the ground and die
So in the springtime
Like sweet memories
They will return as will I 

Like the sun, dear
Upon high
We'll return, dear
To the sky
And we'll banish the pain and the sorrow
Until tomorrow goodbye
one more kiss, dear
One more sigh
Only this, dear
Is goodbye
For our love is such passion
And such pleasure
And I'll treasure untill I die

Like the sun, dear
Upon high
We'll return, dear
To the sky
And we'll banish the pain and the sorrow
Until tomorrow goodbye


Rui Miguel Duarte

Para dar imagens ao silêncio

"Dar imagens ao silêncio"
J. T. Parreira

Para dar imagens ao silêncio
pede ao céu
um bater de asas
tirado da essência
de um pássaro

pede a uma árvore
que te ceda
um sopro de vento
que silve os arcos
dos teus cabelos

pede à praia
que te grave
nas dunas
do estrugido
da espuma
que lhes bate nos joelhos

pede à noite
que não transtorne
a memória
de um só segundo
do corrupio
no coração dos
espaços vagos de gentes

Para dar imagens ao silêncio
pede à criança
que após o temporal
quando nada mais resta
senão a pátina
à superfície do cristal
te pinte o arco-íris


Catch the rainbow (Rainbow)

When evening falls
She'll run to me
Like whispered dreams
Your eyes can't see

Soft and warm
She'll touch my face
A bed of straw
Against the lace

We believed we'd catch the rainbow
Ride the wind to the sun
Sail away on ships of wonder

But life's not a wheel
With chains made of steel
So bless me

Come the dawn
Come the dawn
Come the dawn
Come the dawn

We believed we'd catch the rainbow
Ride the wind to the sun
And sail away on ships of wonder

But life's not a wheel
With chains made of steel
So bless me, oh bless me, bless me

Come the dawn
Come the dawn
Come the dawn
Come the dawn


Cada manhã que o dia me desperta
é uma noite mais que me adormece
o fôlego e ao peito me dá quebranto

Cada manhã que os teus olhos em orvalho me vêem
é uma noite mais que me oculta
a face por trás do véu da tua face

Cada manhã que o sol põe flores róseas nas minhas mãos
é uma noite mais que me desvenda
de todo o corpo
frutos vermelhos para o teu contentamento


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Bruce Mitchell, Suzanne Ciani, Kevin Kerr, William Ellwood

Ligações
CeCe Winans, José Feliciano, New American Orchestra, Rainbow

Textos:
Rui Miguel Duarte

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012