Sons da Escrita 174

30 de Maio de 2008

Primeiro programa do ciclo Rui Pires Cabral

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Rui Pires Cabral

I'm coming home (Rui Pires Cabral)

O tempo corre nas paredes livremente
mas não toma a direcção da morte: ela esteve aqui
desde o princípio, uma vocação adormecida
debaixo do estuque.

A manhã nasce viciada nos brandos venenos
que os móveis destilam, haverá pombas
sobre o parapeito, o senhorio arrastará o chinelo
sob um eco que caminha pelo tecto.
Nada poderá perturbar a fluência da penumbra
nos cantos para onde se varre a casa
aos domingos. A pele respira tenuamente mas não posso falar
em tristeza. Este é o meu endereço, um lugar composto
para a submergência.


Better be home soon (Crowded House)

Somewhere deep inside
Something's got a hold on you
And it's pushing me aside
See it stretch on forever

I know I'm right
For the first time in my life
That's why I tell you
You'd better be home soon

Stripping back the coats
Of lies and deception
Back to nothingness
Like a week in the desert

I know I'm right
For the first time in my life
That's why I tell you
You'd better be home soon

So don't say no, don't say nothing's wrong
Cos when you get back home maybe I'll be gone oh oh....ohhhh

It would cause me pain
If we were to end it
But I could start again
You can depend on it

I know I'm right
For the first time in my life
That's why I tell you
You'd better be home soon
That's why I tell you
You'd better be home soon


Rui Pires Cabral

China doll (Rui Pires Cabral)

Eu ia na passadeira com um propósito mas

a gravata de um homem atirou-me para o coração
do abismo. Uma insuspeitada gravata de seda
com pintas discretas, o catalizador

da vertigem. Aquilo que o vento levantava
na avenida era uma espécie
de música, um barulho de sinos remoto

e descompassado, viam-se algumas flores
a entrar na boca do esgoto como se fosse ali
a casa delas. E sem deixar eco qualquer coisa ruía

nas fachadas, o próprio oxigénio era nesse instante
como uma língua estrangeira. Eu sentia na garganta os tambores
do sangue e os prédios enfadonhos pulsavam
na taquicardia, caíam em desamparo

para a cova do meu peito. Do outro lado da rua
um sinal de trânsito foi a minha âncora.


China girl (David Bowie)

Oh oh oh ohoo little china girl
Oh oh oh ohoo little china girl

I could escape this feeling, with my China Girl
I feel a wreck without my, little China Girl
I hear her heart beating, loud as thunder
Saw the stars crashing

I'm a mess without my little China Girl
Wake up in the morning. Where's my, little China Girl?
I hear our heart's beating, loud as thunder
I saw the stars crashing down

I'm feelin' tragic like I'm Marlon Brando
When I look at my China Girl
I could pretend that nothing really meant too much
When I look at my China Girl

I stumble into town just like a sacred cow
Visions of swastikas in my head
Plans for everyone
It's in the white of my eyes

My little China Girl
You shouldn't mess with me
I'll ruin everything you are
I'll give you television
I'll give you eyes of blue
I'll give you a man who wants to rule the world

And when I get excited
My little China Girl says
Oh baby just you shut your mouth
She says... shh
She says... shh
She says
She says

Oh oh oh ohoo little china girl


Rui Pires Cabral

Dark end of the street (Rui Pires Cabral)

Os corredores caíam fundo para onde os chamava
a escuridão. Era quase uma maneira
de denunciar a noite, como ela se atravessava nas flores
por onde a bebias.

Uma casa foi inventada para sustentar o espaço
sobre aquela praça, obrigava aos caminhos que tomavas,
trazia a claridade em todas as hastes. Por quem esperavas
se a paisagem estava vazia?

Na parede havia uma imagem com cavalos
onde as cores se transformavam. O coração batia devagar
em cada nódoa. Tu contavas quantos obstáculos os dias traziam
à terra, eram pequenas armadilhas para os teus movimentos.
E desde o primeiro, todos os corpos ganharam a sua distância
como barcos a que não podias dar sentido.


In the dark (Norah Jones)

In the dark
It's just you and I
Not a sound
There's not one sigh
Just the beat of my poor heart
In the dark

Now in the dark, in the dark
I get such a thrill
When he presses his fingertips
Upon my lips
And he begs me to please keep still
In the dark

But soon
This dance will be endin'
And you're gonna be missed
Gee, I'm not pretendin'
'Cause I swear it's fun
Fun to be kissed

In the dark
Now we will find
What the rest
Have left behind
Just let them dance
We're gonna find romance
Lord, in the dark


E depois falaste durante muito tempo
com os incêndios da cidade a rebentar
por trás dos teus olhos. Parecia que não te bastava
trazeres-me de regresso ao mundo real, também o querias
justificar para mim.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Natalie MacMaster

Ligações
Crowded House, David Bowie, Norah Jones

Textos:
Rui Pires Cabral

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012