Sons da Escrita 176

13 de Junho de 2008

Terceiro programa do ciclo Rui Pires Cabral

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Rui Pires Cabral

Gnossienne n.1 (Rui Pires Cabral)

Eu acreditei que podia amar
o teu corpo, o teu modo de insinuar o coração
nas palavras. Mas era apenas a forma como a noite
sublinhava as superfícies, eu nunca pude atravessar
essa espessura. Estavas ali para te dispores aos meus sentidos
mas crescias fora de alcance no teu próprio
pensamento. Uma distância que só serviria
aos lobos, um mau caminho arrancado às fragas.

Já só conhecia os dias onde tu os frequentavas, o sítio
em que me mantinhas era mais urgente
que o sangue. Sem dúvida que vinhas pelo meu desejo
mas eu perdia sempre alguma coisa
quando te ganhava. Às vezes era só
a minha vontade, outras vezes era toda a frase
do meu nome.


Gnossienne n.1 (John Hackett & Steve Hackett)

(instrumental)


Rui Pires Cabral

I put a spell on you (Rui Pires Cabral)

Tu não sabias de que lugar eu vinha
nem quem me enviava. As máquinas pareciam transbordar
sobre os campos, disseminando a noite
em plena marcha. E eu estava tão cansado quando me sentei
ao teu lado. Generosamente pousaste a tua mão.

Os dias por vir jaziam amordaçados
debaixo da terra, nada fazia prever as cartas
que te escreveria. Algumas levavam fotografias, eu a olhar
para ti no ar desfocado. Mas as notícias que te dava
em mau inglês eram omissas, nunca respondi às perguntas
que me fizeste. Acho que o desalento já estava deitado
na cama, a própria parede parecia
muito doente.


I put a spell on you (Credence Clearwater Revival)

I put a spell on you
Because you're mine.
You better stop
The things that you're doin'.
I said "Watch out!
I ain't lyin', yeah!
I ain't gonna take none of your
Foolin' around;
I ain't gonna take none of your
Puttin' me down;
I put a spell on you
Because you're mine.
All right!


Rui Pires Cabral

Lost weekend (Rui Pires Cabral)

Um dia é maior do que a soma
das suas horas, às vezes comporta
todos os invernos e as estações assombradas
pelos prejuízos do prazer.

Eu e tu, que desculpa ainda nos justifica?
A cidade não foi feita para as nossas pretensões,
está apenas alastrada por dentro de nós, crispação
de pedras e espinhos no laço desfeito entre as veias.

Adiantamos o corpo aos rolamentos da noite,
é a própria razão que nos ilumina os atalhos
para o esquecimento. Um ano inteiro não será suficiente
para tudo o que não nos acontece.


Ordinary weekend (John Wesley Harding)

I lost my job on Friday, I went drinking to forget
My luck it had been down so long but I could change it yet
Sat down and strted talking with some guy sitting there
He bought me drinks all afternoon until I didn't care
He said was I in need of work, some money could be found
I said "Is it above the law?" He said "It's underground"
I said "I need the paycheck now, I got debts here and there"
He smiled and asked if I could drive and I said "Anywhere"
Anywhere...
In this weekend of ordinary dreams
Everything was not just as it seems
Take a look around at the faces in the crowd
And you'll see wehre I've been
We met up on the Saturday, I thought it was us two
But I had not asked quetions not knowing what to do
Twelve of them were in the van, thirteen including me
Twelve pairs of eyes were staring back at me, suspiciously
And so I just sat down and drove, took them to some track
And drove past the security guard while they hid in the back
They made me stop, and got out there, and I heard a couple of shots
I hoped they were in self-defense but I knew that they were not
They were not...
Not in this weekend of ordinary dreams...
I drummed my fingers on the wheel and waited for the boys
Had a smoke, I had a few, I got very paranoid
And still they hadn't come back there, so I just drove away
Deciding to play safe and get my share another day
On Sunday, he came round my place, I asked him where they'd been
He said they'd left another way and only I was seen
He said that we should cash the van and did I want my share
I didn't like the way they'd left but by now I didn't care
Didn't care...
Didn't care for this weekend of ordinary dreams...
He drove me to a back room with a single swinging light
Someone said "the fish are starving, ain't it time they had a bite"
And I felt sick and stupid and damned my own brown hair
Forgetting that the price you pay must far exceed the share
Someone pulled a knife out and they stabbed me in the back
They tied my hands and bound my feet and threw me in a sack
They took me to a lakeside and they threw my body in
I could hear them laughing, they said you can sink or swim
Sink or swim...
So hear you desperate women and hear you desperate men
Don't take your life for granted
Don't live your life in vain
But if you think that you can cahnge it,
Hope you know you an't go back
Just go down to the lakeside
Watch me floating in a sack,
In this sack.


tu estás do meu lado
a noite inteira, anjo de mãos pequenas
nos despenhadeiros da terra

esta estrada não nos levará muito longe
mas sim eu serei o teu amigo
até ao fim


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
John Hackett & Steve Hackett

Ligações

John Hackett & Steve Hackett, Credence Clearwater Revival, John Wesley Harding

Textos:
Rui Pires Cabral

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012