Sons da Escrita 073

29 de Julho de 2006

Primeiro programa do ciclo Ruy Belo

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Ruy Belo

E era tudo possível (Ruy Belo)

Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer


Your possible pasts (Pink Floyd) 

They flutter behind you your possible pasts
some brighteyed and crazy some frightened and lost
a warning to anyone still in command
of their possible future to take care
in derelict sidings the poppies entwine
with cattle trucks lying in wait for the next time

Do you remember me? how we used to be?
do you think we should be closer?

She stood in the doorway the ghost of a smile
haunting her face like a cheap hotel sign
her cold eyes imploring the men in their macs
for the gold in their bags or the knives in their backs
stepping up boldly one put out his hand
he said, " I was just a child then now I'm only a man"

Do you remember me? how we used to be?
do you think we should be closer?

By the cold and religious we were taken in hand
shown how to feel good and told to feel bad
and strung out behind us the banners and flags
of our possible pasts lie in tatters and rags

Do you remember me? how we used to be?
do you think we should be closer?


Ruy Belo

As velas da memória (Ruy Belo)

Há nos silvos que as manhãs me trazem
chaminés que se desmoronam:
são a infância e a praia os sonhos de partida

Abrir esse portão junto ao vento que a vida
aquém ou além desta me abre?
Em que outro mundo ouvi o rouxinol
tão leve que o voo lhe aumentava as asas?
Onde adiava ele a morte contra os dias
essa primeira morte?
Vinham núpcias sem conto na inconcebível voz
Que plenitude aquela: cantar
como quem não tivesse nenhum pensamento.

Quem me deixou de novo aqui sentado à sombra
deste mês de junho? Como te chamas tu
que me enfunas as velas da memória ventilando: «aquela vez...»?

Quando aonde foi em que país?
Que vento faz quebrar nas costas destes dias
as ondas de uma antiga música que ouvida
obriga a recuar a noite prometida
em círculos quebrados para além das dunas
fazendo regressar rebanhos de alegrias
abrindo em plena tarde um espaço ao amor?
Que morte vem matar a lábil curva da dor?
Que dor me faz doer de não ter mais que morrer?

E ouve-se o silêncio descer pelas vertentes da tarde
chegar à boca da noite e responder


Memorie (Eros Ramazzotti)

Riscoprire quella strada
e quel muro grigio dove
mi sedevo ad aspettare il tempo...
e cercare occhi a terra
qualche cosa che non so cos'è
ma forse è un attimo che ho perso
e ritrovare
quelle parole
che ancora devo dire a te...
riscoprire la campagna sotto i passi miei
e lampi verdi di ramarri sul sentiero
e fermarsi a interrogare
quel baccano d'ali dentro me, che ancora c'è
se solamente ti ripenso...
e riscoprire
quel malincuore
che non so dire cos'è
ricostruire
un'illusione
partendo sempre da te...
e se ne vanno tante piccole storie
ma poi chissà perché rimangono in me
soltanto i brividi di lucide memorie
chissà perché...chissà perché...
poi è come risentire
lungo tutta la mia pelle
il formicolio delle stelle...
e riscoprire
come un dolore
senza capire perché
ricostruire un'emozione
fino a morire per te...
fino a morire per te...


Ruy Belo

Habito na morada do castigo (Ruy Belo)

Habito na morada do castigo, madura como a areia ou o verão no mar.
Eu caminhei nos passos solitários. O sol neste lugar é uma ofensa.
Nós nunca cultivámos a amizade num mar mesmo maléfico e maravilhoso.
No triunfo da verdura, como um grito nas vozes, às vezes tristes, alegres às vezes,
meu destino de morte é esquecimento eterno.
Essas flores ardentes do verão ocultas, ou nas gretas ou esconderijos,
palavras inventadas e selvagens, para mim, irmão, não só do sol como da lua,
são para mim, já hoje, um ser de lenda, ó minha mãe, fantástica pessoa.
À casa sempre o viajante há-de voltar, muito apesar da proibição eterna
dos amigos da laranjeira plantada pela lua,
olhar límpido aceso da alegria colar, solar que cerca a minha aldeia,
pois os mortos não têm já família.
Fantásticas crianças estivais, eu salvaguardo a solidão do nome,
o sacrifício, perversão humana, o coração cristão da crua idade,
a respiração loquaz dos vegetais, o vento do outono sobre o mar,
o severo momento do crepúsculo, poder inacessível a palavras,
ao dia pleno, a perfeição da vida, esse reduto último do mar.
Os juízos da morte são inexoráveis nos começos da alta primavera,
com a flecha dos dias desferida e a impunidade ausente, à lua.
Fantásticos silêncios de verão, grande estuário para um rio em calma,
aves marinhas longe em seu descanso, rosa que imita a primitiva rosa,
ou pérola que segue a primitiva pérola, a excessiva operação do verão,
tudo é demasiado para mim.
Frescura das manhãs junto dos cais, ó simples criaturas migratórias,
ó pequenas estrelas de dezembro.
Silêncio tudo e todos: fala-se de mim.


Let's talk about me (Alan Parsons Project)

Let's talk about me for a minute
Well how do you think
I feel about what's been going on
Let's talk about me for a minute
Well how do you think
I feel about what's gone wrong
Let's talk about dreams
I never learned to read the signs
Let's think about what it all means
I never seem to have the time
Let's talk about you and your problems
All that I seem to do is spend the night
Just talking 'bout you and your problems
No matter what I say I can't get it right
Don't think about dreams
Is it all a waste of time
Don't think about what it all means
If you are a friend of mine
Talk about me, for a minute
I'm the one who's losing
Talk about me, for a minute
I'm the one who's always losing out
And how do you think
I feel about what's been going on
Let's talk about me for a minute
Well how do you think
I feel about what's gone wrong
Let's think about dreams
We never seem to have the time
Let's talk about what it all means
If you are a friend of mine
Let's talk about me
I'm the one who's losing out
I'm the one who's losing out
I'm the one who's losing out, losing out
Talk about me, for a minute
I'm the one who's losing
Talk about me, for a minute
I'm the one who's always losing out


Mas que sei eu das folhas no outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?

Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono

Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra folha

qualquer. Mas eu que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Alan Stivell

Ligações
Pink Floyd, Eros Ramazzotti, Alan Parsons Project

Textos:
Ruy Belo

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012